Entre uma possibilidade e outra… agosto!

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia
fui ficando

por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

| Mia Couto, in: “Raiz de Orvalho e Outros Poemas” |

Agosto já soma seus dez dias, envolvidos por um sol escaldante que percorre manhãs e tardes, quase sem exceção. Confesso sentir falta da temperatura fria-amena e das gotas de chuva que costumavam nos visitar nesta época, mas toda a chance que há, por ora, é aguardar

O mês de número 08 – como é chamado no calendário civil – tende a me trazer de volta as oportunidades pausadas em julho… Retomam-se os trabalhos, as aulas… pessoas chegam de viagem, há o planejamento para o fadado segundo semestre… enfim, espera-se que a vida siga o seu fluxo rotineiro… já é uma excelente premissa!

Eu gosto desse tempo porque ele me traz lembranças de recomeço… e é particularmente natural em mim o amor pelas novas chances, pela metamorfose… por desconstruir e iniciar tudo outra vez, em roupagem inédita…

Fiz diversos planos para agosto, mas o primordial deles é refinar a presença neste espaço… Caminhar com liberdade em meio às palavras – meu instrumento, meu meio e meu fim. Dialogar com o outro – vocês – e, claro, comigo… Conforme ouvi outro dia, não ser uma uma fraude diante daquilo que me é mais autêntico

Vamos começar?

Morangos à beira do abismo

Conheci Rubem Alves nos tempos de adolescência… em trechos lidos em cartas, diários e, também, em livros… suas palavras simples e fáceis me alcançaram de tal maneira que era como se ele fosse capaz de exprimir tudo aquilo que minha alma tinha o desejo de dizer ao mundo…

Anos mais tarde, esbarrei – por sugestão de uma amiga escritora – nos livros do autor… e me deparei com uma singeleza que, dificilmente, eu encontraria em outra ocasião-pessoa-lugar…

Juntas, partilhamos impressões sobre a amplitude de pensamento, o estilo de escrita e os temas escolhidos por Rubem Alves… em uma espécie de viagem mágica, na qual optei por embarcar apenas com passagem de ida!

Desfiz 75 anos me apresentou a um compilado de crônicas do autor, que usou o livro para celebrar seus 75 anos de existência… geralmente nos referimos a fazer anos, e não a desfazê-los… mas o mestre nos explica: à medida que o tempo passa e a morte se aproxima, seria inegável – para ele – admitir que cada aniversário se torna um ensaio de despedida, uma espécie de adeus…

A gente vira a página e aprende… com suas citações, com os títulos escolhidos e, principalmente, com tudo o que escreve. Em “Morangos à beira do abismo”, Rubem Alves traz a história acerca de um rapaz que fazia uma caminhada pela floresta quando, repentinamente, escutou o barulho de um leão. O homem teve grande pavor e se pôs a correr, mas a floresta era fechada, o que fez com que ele caísse em um precipício. Em estado de desespero, agarrou-se a uma raiz de árvore, que saía da terra, permanecendo pendurado sobre o abismo.

Ao olhar para frente, na parede do precipício, parecia crescer um pé de morangos, no qual havia um moranguinho, gordo e vermelho, ao alcance das suas mãos. O rapaz se sentiu encantado e, então, colheu o morango, esquecendo-se – por um instante – de todo o resto. Degustou o fruto… delicioso, e sorriu, sentindo-se grato de que existissem, na vida, morangos à beira do abismo…

Essa pequena história me trouxe uma certeza epistolar… de que, a cada manhã, viver torna-se verbo infinitivo no instante em que o sol nasce em minha janela. Estou o tempo todo à beira do abismo (quem não está?), mas existe sempre um morango para saborear que, no momento, atende pelo nome de: “o amor que acende a lua”…

*Texto publicado originalmente em junho de 2015, na Revista Plural Rubem, pelo Selo Artesanal Scenarium, com edição e coordenação de Lunna Guedes.

O tempo das horas, o tempo da alma…

“Tenho as opiniões desmentidas, as crenças mais diversas – É que nunca penso nem falo nem ajo… Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu em que me encarno no momento.
Vem a fala e falo-eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo o que é a vida. Não sei os gestos a acto nenhum real.
Nunca aprendi a existir.”

| Fernando Pessoa, ‘Inéditos’ |

16 horas. O relógio anuncia a passagem da segunda-feira e de toda sua gente apressada-atrasada-avoada-sufocada-suprimida… São dias comuns ao recomeço, ao tentar de novo e, quem sabe, conseguir…

Dar vazão a projetos deixados para o instante seguinte, engolir um medo aqui e outro acolá… vida real que nos chama de volta a cada novo segundo.

Para mim, as segundas-feiras têm sempre esse ritmo de possibilidade, de outra chance… Confesso que – se pudesse – gostaria de decretar este como o meu dia oficial de férias da semana. Não é exatamente uma ideia minha… mas apreciei muito as premissas que a envolvem!

Deixar as obrigatoriedades de lado… dedicar boa parte do tempo aos meus escritos preferidos… deleitar-me por algumas horas a mais de preguiça na cama… comer bolo de fubá acompanhado de cafezinho fresco… caminhar sem rumo, correndo o risco de encontrar respostas a perguntas que eu nem sabia ter…

Só por hoje, sinto o entardecer e suas nuances se aproximarem e, curiosamente, não estou tão atrasada assim…

No instante da lembrança…

…“Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre”…

| Mia Couto, in: ‘Raiz de Orvalho e Outros Poemas’ |

Ainda me lembro – como se fosse hoje – do meu despertar naqueles dias… Eram manhãs amenas, em que o sol espreitava pela janela, mas não se deixava entrar completamente devido à proteção das cortinas…

Abrir os olhos ao seu lado era como caminhar por um jardim repleto das mais lindas flores: um passo atrás do outro… o meu espreguiçar acompanhando o seu, sem que tivéssemos pressa em anteceder as pausas necessárias…

Eu não compreendia, ao certo, de onde vinha toda aquela mágica, mas algo era pulsante em meu coração: o pressentimento de que minha presença não caberia em nenhum outro abraço…

Assistia aos seus pés descalços andando pelo apartamento, despretensiosos como apenas eles sabiam ser… sem notar os sinais de fora, nem mesmo as chamadas abruptas dos tempo…

Eis que chegava o instante mais esperado – a culinária matinal – e eu me mantinha no lugar da criança que tão poucas vezes quis deixar de ser perante o seu olhar… Primeiro, as frutas com iogurte… Em seguida, as panquecas típicas… Tudo regado a um ritual bastante apreciado, sempre na companhia de velas e incensos cuidadosamente escolhidos…

Ainda hoje, mesmo passado tanto tempo, minha alma abraça esses instantes que ficaram na lembrança… e neles permaneço quando preciso reencontrar uma parte essencial de mim. São momentos que perfazem o meu espelho, o meu retrato mais fiel…

E me pergunto, em meio a cada pensamento-saudade-inspiração… qual será o seu lugar agora?

Algumas linhas sobre ‘Sete Vidas’…

Assisti na Globo à telenovela ‘Sete Vidas’, de autoria de Lícia Manzo, desde o início… fato raro, principalmente devido ao horário. O enredo – contudo – me conquistou, com sua aparente leveza e a afetividade demonstrada dentro da trama… como o diálogo entre Esther, personagem de Regina Duarte, e Eriberto, interpretado por Fábio Herford.

Após vivenciar um relacionamento infeliz, Eriberto está prestes a deixar a esposa, com quem pouco conseguiu encontrar afinidades. Ao mesmo tempo, percebe em Renan, seu amigo, uma sintonia sem igual, que lhe permite a proximidade possivelmente almejada – e não obtida – em seu casamento.

Contudo, pelo fato de vir de uma família tradicional e preservar valores exigidos, principalmente, por seu pai, Eriberto evita olhar para determinadas questões, inclusive para a possibilidade de assumir sua homossexualidade.

É nesse momento que Esther apresenta, a partir de sua própria história, nuances que poderiam fazer com que ele enfrentasse os próprios medos, dando voz a seus desejos e vontades…

Esther – mãe de gêmeos por inseminação artificial, e viúva de Vivian – conta, de maneira breve, a sua história a Eriberto, revelando como conheceu sua companheira e sentiu que era ao lado dela que gostaria de passar o resto de seus dias. 

Ela afirma ter percebido em Vivian uma receptividade tão evidente que ambas se tornaram um tipo de casa, de abrigo, uma para a outra… Ao lado de sua mulher, Esther se sentiu à vontade para compartilhar e viver o que quisesse, isenta de receios, além de ter a oportunidade de falar abertamente de todo e qualquer assunto, sem pré-julgamentos…

A cena se encerra com o silêncio de Eriberto que, certamente, poderia ser a resposta mais genuína ao chamado da amiga para a sua realidade… e, quem sabe, também para a de cada um de nós… Quantas vezes desejamos ser um lar para alguém? Ou, ainda… que uma pessoa se torne a nossa própria casa?

Julho e seus horizontes…

“A vida que imaginamos é uma casa transparente sem janelas nem saídas. A gente a constrói com palavras e silêncios, abraços e afastamentos, uma vida paralela a isso que parece o concreto cotidiano. Ali o amado não entra, a amada fica de fora, sombras e luzes como espectros dançam e acenam. Fora dessa casa de vidro existe outra vida, que chamamos real. Com pão e manteiga, aroma de café, lençóis úmidos de sexo, filhos correndo, pais envelhecendo, contas a pagar, cargos a ocupar, nomes e marcas e tráfego e sonhos e consumo, e sonhos de consumo. E dor.”

| Lya Luft, In: ‘O tigre na sombra’ |

Existem dias em que o aconchego e o conforto de ser quem sou surgem como uma composição de Bach: com suavidade, num crescente inconfundível, fazendo com que as notas se harmonizem em naturalidade plena…

Há outros momentos, porém, em que quase não me reconheço nas notas da canção… A melodia ganha impasses que repelem a delicadeza da alma, afastando qualquer possibilidade de esperança…

Felizmente, o mês de julho trouxe consigo o prenúncio de sonoridades amenas, permitindo repousar não apenas o coração, mas também o olhar e seu cansaço vicioso de antes…

Escolhi alguns livros a serem degustados, reordenei compromissos de trabalho e propus outras oferendas a este novo ciclo que se coloca diante de mim. Nem sempre (ou melhor, quase nunca…) consigo cumpri-lo como desejo, mas o fato de planejar já é uma premissa… um passo rumo ao dia seguinte…

A depender das circunstâncias, percebo o quanto me acostumo a simplesmente ‘não estar bem’… e a chegada de julho me propiciou a coragem para desafiar esse pensamento: em que medida é preciso – de fato – me conformar com o impossível?

Não possuo todas as respostas na manga, e confesso: que bom que o calendário se faz generoso nesse sentido, brindando meu caminho com trinta e uma chances para repensar e organizar esse ciclo insano-maluco-rebelde-tardio no qual me insiro…

Tenho buscado oferecer uma pitada de poesia aos meus dias, até mesmo quando eles se mostram um pouco nublados… E, enquanto assisto às manhãs chegarem, com seu brilho iluminando a janela… sorvo mais um gole de coragem (preferencialmente, disfarçado de café – seu formato mais genuíno) e me preparo para a vida que desejo re-desenhar…

Ainda nem escolhi todas as cores e formas… mas a alma me diz que já é hora de pulsar outra vez, afinal, há tanto lá fora que ainda não vivi… E outro tanto, dentro de mim, que necessito experimentar!

Doce afinidade…

Ontem você me encontrou no meio da rua e me trouxe de volta pra casa. Eu te pedi apenas um grão de areia, um pedaço de chão… mas você me ofereceu em retorno um território inteiro de lembranças e saudades.

Foi como estar dentro do abraço de antes, ao qual nunca deixei de pertencer, metade-inteira-fraqueza-inquietante…

Você sempre me soube, e ontem não foi diferente… Aquela mesma figura afetuosa adentrou minha alma com seus olhos de raio-x, oferecendo respostas àquilo que eu nem havia perguntado, e silenciando cada uma de minhas insistentes e levianas dúvidas…

Uma doçura mesclada com imponência perfaz as metáforas do seu caminho, e diante dessa singeleza me reverencio, pois foram seus gestos tênues que plantaram em mim a semente da realidade, elemento sempre tão frágil aos meus olhos…

Hoje o dia amanheceu mais claro, e mais bonito também… Confesso: estava com enorme saudade de enxergar a vida assim!

Quando você vem me encontrar outra vez?

… ao acaso?

Há uma canção do Legião Urbana que diz: “disciplina é liberdade”… foi uma amiga próxima que me alertou sobre a preciosidade dessas palavras, às quais eu nunca havia dado muita importância, mas que acabam por produzir mudanças muito intensas em mim, quando decido adotá-las como lema de vida…

Desde pequena, confesso não ter sido a pessoa mais disciplinada, apesar da aparência certinha, que denotava alguma delicadeza nos gestos e escolhas… Sempre deixei que um tal de destino compusesse o quebra-cabeças da minha existência, de modo a encaixar as peças conforme bem entendesse… se desse certo, ótimo! Caso contrário, era tentar e tentar outra vez, até conseguir.

A partir dessa crença baseada em happy-endings, corri riscos sem ao menos mensurar certas emboscadas, e assumi desafios bem maiores do que meu raio de alcance, o que nem sempre resultou em algo bom de verdade… Passei por consequências das mais diversas e aprendi – a duras penas – que nem tudo dá certo no final…

Tive que me render, pouco a pouco, à disciplina, anteriormente tão dispensada por mim. E, além da leveza conquistada, é inegável afirmar que – como nos ensina Legião – eu me sinto mais livre, sem precisar guardar todos os compromissos e responsabilidades na memória, no corpo e na alma…

Aprendi que delegar não é crime, que pedir ajuda é sinal de sanidade e, acima de tudo… que, para ser feliz por fora, preciso primeiro descobrir como me sentir confortável aqui dentro…

Viver: verbo infinitivo

Não faz muito tempo… foi ontem! Conversávamos na cozinha durante um processo lúdico de edição, que invariavelmente se desdobrava em terapia, para minha sorte… O riso corria solto sempre que eu me deparava com o verbo em sua forma infinitiva: bastante frequente ao idioma falado em Portugal e, portanto, familiar a você, que residiu em Coimbra por um longo período…

Talvez seja usual a nós, seres humanos, o estranhamento diante daquilo que nos parece diferente, distante… incomum! Preferimos nos afastar a chegar mais perto e entender do que se trata… encarar uma mudança… confrontar o que se mostra habitual em nossa rotina.

Aconteceu desse modo comigo, quando fui desafiada a questionar os meus gerundismos – já tão incorporados ao dia a dia –, e me permitir trocá-los, aos poucos, por alguns infinitivos… De início, apenas para fazer graça! Logo em seguida, porque achei bonito, imponente… e, por fim, ao entender o sentido de substituir ações aparentemente intermináveis por verbos lineares e pontuais… de firme impacto em meu íntimo.

Foi assim que pude notar que – por um longo tempo, antes de te conhecer – “estive fazendo” coisas, sem comprometimento com as pessoas, situações ou comigo mesma… E sua presença organizou certos espaços, para que eu me dispusesse a enxergar a existência com outros olhos… com a leveza de quem pode estar em continuidade sem carregar pesos que não lhe pertencem mais.

E, a cada manhã, viver torna-se verbo infinitivo no instante em que o sol nasce em minha janela…

Será possivel reencontrar esta tarde?

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube
e digo da palavra: não digo (não posso ainda acreditar na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto.

– Ana Cristina Cesar –

Recosto-me aqui em suave teimosia, como quem procura por novas palavras neste vocabulário que, a um primeiro olhar, parece vasto-imenso-amplo… mas, em tão decisivos momentos, deixa-me à deriva, permitindo que eu me alimente apenas de minha voz interior.

Escolho um assento que demonstra receber confortavelmente o meu corpo e, de certo modo, também acalenta a alma… O sabor do chá já havia sido selecionado antes mesmo de estar em frente à tela em branco, afinal… os rituais me precisam. Eles urgem em mim como água que necessita de fonte para nascer e atingir seu ápice.

Para hoje, amoras silvestres… nem tão doce, nem tão amargo. Cítrico, talvez? Uma representação deste momento que não sei definir, e pode ser que nem precise… Afinal, nem as palavras me concederam – até o presente instante – a honra de seu encontro!

Meu coração recebe um convite para reviver o que ainda não foi dito… suspirar a lembrança que ainda não foi vivida… alinhar realidade e imaginário em uníssono, possibilitando o elixir das emoções…

Algumas letras arriscam voar da mente em direção ao papel e posso sentir, enfim, que respiro em paz… Sorvo o líquido já morno que vem da xícara de chá, minha companheira amena destas horas que desejaria tanto prolongar.

Não sei se sou uma extensão de meus dias ou se eles é que se dão através de mim: por ora, deixo-me restaurar por esta simbólica tarde de singelezas, amenidades… e vida.