Inércia

“Enfrento uma vez mais a página em branco. A sombra. A falta de cor. Branco não é cor. É ausência. É um elemento outro – é coisa que não se alcança. Tenho uma memória colorida – mas nada disso serve aqui e agora. Olho pra fora. Busco o lado de dentro. A personagem dança ao som da música desse café onde meu sentir adormece. Tudo é tão lento…”

Lunna Guedes

Senti medo.

Olhei através da xícara transparente de café e, nas entrelinhas da mente, tudo o que pude vislumbrar dentro do breve instante foi um sussurro, uma vertigem, um grito paralisado.

Verdade seja dita: naquele exato momento, não houve outra sensação que me trouxesse maior angústia do que o tal medo.

A sombra do abismo parecia algo como uma invasão sem espécie, um chamado em desventura. Não foi possível existir preparo, nem qualquer feixe de luz que me protegesse das angústias sublimes de, simplesmente, ser quem se é.

Traços de uma vida inteira se faziam expostos diante do meu olhar, sem a permissão de assumir a essência, a efemeridade, a coragem do que é real.

Ah… como eu senti medo!

Talvez uma exclamação seja descabida no presente relato, mas a alma vibrava em tom uníssono ao coração, tal como num extremo pesadelo.

Desejo de partir. De sumir devagar em meio a esconderijos que eu mesma desconheço.

Mas o íntimo da minha fortaleza sabe para onde nos levar – eu, e tantas em meu ser – nessas horas de desconforto.

Dirigi-me singelamente ao meu lar. Prometi que não o abandonaria mais, ainda que me custasse.

Voltei para casa como uma aventureira que retorna da guerra: despedaçada, mas com a certeza de estar no lugar mais importante –  dentro de mim.

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2 comentários sobre “Inércia

  1. Joakim Antonio disse:

    Você mudou nessa viagem, não sei se nela, ou a mudança foi o fator que te levou até lá.

    Há muito mais dentro dos seus posts querida Tati.

    O primeiro passo para além, é saber-se.

    Beijo e uma linda vida!

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  2. Inge disse:

    Que dor aguda é a de uma pessoa exposta no seu limite,
    que experimenta a violação de sua dignidade sem autorização. Quando as circunstâncias nos despem, somos obrigados a encarar nossos medos. E quão frágeis somos diante deles. Ainda que com a garganta seca, trêmulos de medo, sentindo-nos violentados e envergonhados pela nudez inesperada e pelo medo da dignidade perder-se em segundos, enfrentar o tormento é a única alternativa. No minuto seguinte, quando nossas defesas parecem se organizar para nos socorrer do trauma, dando a sensação de termos escapados ilesos, a situação que nos causou desgaste emocional não mais nos pegará desprevenidos. Ainda que não notemos, ficamos mais fortes, maduros, com uma blindagem robusta o suficiente para suportar agressões daquela natureza. Dói no momento, mas pense que é a vida cuidando de você para que tenha condições de sobreviver nesse mundo por vezes agressivo e indiferente. Um beijo da fã!

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