Dos tempos que nos calam a voz…

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

– Ricardo Reis –

Observo certo viés de mistério que chega com a noite, mesclando-se entre luz intensa e escuridão perene. As percepções nem sempre se dissociam, pois parecem querer habitar o mesmo espaço dentro de mim.

Eu não aprendi a ser uma, nem compreendi como se faz para ser inteira. Completude não é, de fato, uma palavra que me define.

Mas às vezes dou sorte e o silêncio adentra as lacunas para me visitar. Aproxima-se como que despretensiosamente, mostrando que há uma espécie de vida além daquilo que minha limitada visão é capaz de perceber.

O anoitecer se faz brando… Branco, como se pudesse evidenciar que há algo mais para estes tempos aparentemente sombrios. Sim, há a chance do acaso – e isso já é muita coisa para uma mente que exerce tantos controles imperfeitos…

Minha voz se cala por um momento e eu quase consigo ouvir as batidas do coração. Aquele, que há tanto tempo desejei esquecer, mas ainda se mantém vivo e pulsante. Ele não para só porque não o noto. É fiel, tal qual a existência…

Faço uma pausa para o chá com amanteigado – um prazer absolutamente noturno – e as letras me convidam para dançar. Elas não querem, nem podem mais ficar tão sozinhas. Precisam de mim para existir, em busca de atribuição de sentido ao que se faz visivelmente nebuloso.

Torna-se inegável adormecer alguns sonhos e despertar tantos outros quando a noite se abre diante de mim. Surge a hora de repensar os fatos ocorridos nas últimas horas, não no firme passo da lucidez, mas tomando como rumo a sensibilidade, que sempre foi meu norte – raramente errôneo.

Entrego-me ao amanhã, se é que me tornei hábil para realizar um tipo de entrega total. Repito, nunca me senti uníssona.

Enxergar-se completamente talvez seja dolorido demais para uma alma que se cria tão só…

*Este é o primeiro post do projeto Caderno de Notas, do qual tenho a honra de participar, a convite da querida Lunna Guedes. A ideia é uma parceria com outras seis escritoras. A cada semana, serão direcionadas várias perspectivas acerca de um mesmo assunto. O tema de estreia é “Noites Brancas”.

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6 comentários sobre “Dos tempos que nos calam a voz…

  1. Hélia disse:

    Querida Tatiana

    Enxergar-se completamente é dolorido mesmo e um pouco amedrontador… Talvez porque traga consigo a ideia de finitude, de que somos feitos – como mortais – mas que nos é tão difícil aceitar!

    Decidir quais sonhos devem ser adormecidos e quais devem ser despertos também não é fácil!

    Mas é um passo importante para alcançarmos essa paz tão esperada, que nos permitem dormir e sonhar em paz…

    Beijos, com amor, carinho e admiração!

    ^^

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  2. Joakim Antonio disse:

    Muitas vezes, o algo que cala liberta o algo que fala, desprendendo-se e mostrando a nós mesmos, do que realmente somos feitos. Dependendo do fato, demora um pouco, mas sempre voltamos a falar, geralmente mais fortes que antes e sempre, em direção ao sonho.

    Beijo querida Tati e uma linda vida!

    Sucesso sempre!

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  3. Ingrid disse:

    nas noites que nos acompanham indefinidamente sempre há o pensar, um certo peso de nossa alma que se afunda no colchão…
    belíssimo Tati..
    beijos.

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  4. Inge Lobato disse:

    Querida Tatinha,

    Esse texto, dos vários seus que já li e amei, se tornou um dos meus prediletos. Tenho a impressão de ter sido descrita nele… é simplesmente incrível. Beijos da fã!

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