A menina que um dia eu fui…

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

—– Cecília Meireles —–

Olho para trás e nada me basta. Não há sombras nem tempestades que pareçam suficientes para acalentar todo este espaço vazio que insiste em adentrar o meu peito.

Ouço vozes, como se cada uma daquelas pessoas ainda estivesse por aqui, circulando entre os cômodos da casa… Elas me cumprimentam agradavelmente. Sabem meu nome, compreendem a minha história – mas eu estranhamente as desconheço. É como se nunca tivessem feito parte de mim.

Rememoro a saudade do tempo em que eu costumava sonhar longamente… Não aqueles sonhos curtos, que se esvaem em questão de segundos. Esses parecem cercear apenas o território dos adultos…

Em vez disso, aprecio a lembrança da ilusão suave de uma mente fértil: que se demora nos desejos, por não haver outra realidade palpável para si durante o breve instante.

Ao tomar nas mãos – em devaneio – a boneca de infância que nunca tive, abraço a vontade nutrida por um amanhã melhor. Mais ameno e confortável. Menos triste, talvez. Mas… assim como a boneca, este dia também não chegou. Ao menos, não como eu vislumbrava…

Hoje os dias passam e eu continuo avistando as pegadas que deixei pelo caminho. Com base em cada marca, traço uma curva para o destino que almejo, já que – além dele – pouco ou nada me pertence.

Preparo uma breve pausa e observo os rompantes com que a vida me surpreende. Há certo sabor de aventura ao me olhar no espelho com tamanha verdade, quando nunca antes isso foi permitido. É corajoso – e sempre vai ser, de alguma maneira – ter que me descobrir assim, por mim mesma.

Em momentos de descuido, quando me faltam meios de alimentar os meus sonhos, a menina que um dia eu fui abraça a mulher que – em determinado tempo – desejo ser.

Elas caminham juntas, em desatino e velocidade, buscando desesperadamente recuperar momentos nossos – mas, como se recupera o gosto de um amor que não foi recebido?

Como é que se contam nos dedos os abraços abdicados, as palavras não ditas, o silêncio truncado? Como desamarrar da garganta um nó que se lacrou em torno de um choro sem fim?

Não sei se é possível – nem mesmo compreendo se vale a pena insistir em peças cujo encaixes não combinam.

Contudo, o desejo existe e faz pulsar este meu coração – colocando-me a pensar no quão incômodo seria não realizá-lo.

Então, fecho os olhos por um instante e sinto a presença daquela menina diante de mim. Por instinto ou loucura, eu a pego no colo. Enxugo suas lágrimas. Acalmo seu suspiro profundo. Entrego-a, pois, a esta mulher que – feito Fênix – surge em mim tão gentilmente. Eu a aceito…

Decerto que demorou tempos – talvez a vida inteira – para uma existir dentro da outra, mas o momento é este e as pegadas que vejo são possibilidades. Um rastro do que eu fui e ainda serei…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

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6 comentários sobre “A menina que um dia eu fui…

  1. Ingrid disse:

    memórias que levamos pela vida..
    sentimentos livres da inocência que infelizmente se vai..
    lindo escrito amiga..
    Puro sentir.
    Beijo.
    Ingrid.

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  2. Lunna Guedes disse:

    Bem, eu não posso dizer mais nada além do que já disse, seria o mesmo que chover no molhado já que tive o prazer de devorar essas linhas ainda na madrugada e precisei respirar fundo…
    Adoro certos privilégios. hehehehehe

    bacio

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  3. pensamentosinversos disse:

    Menina, você me assombra….
    Quando foi que aquela menina que conheci, entre perdida e entusiasmada, transformou-se nessa mulher tão incrível?
    E, de longe, eu acho graça dos que te vêem pela capa (tão lindamente cuidada) de menina.
    Gosto de interiores, e o seu, visita outros tempos.
    A cada leitura nova que faço de você, evoco uma prece de agradecimento.
    Obrigada por ter me abraçado, antes de me conhecer.
    Está sendo um doce prazer, conhecê-la…passo a passo…

    Com a emoção abalada, me despeço.

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