É meia-noite no fim da página…

“Então somos adultos…
Quando isso aconteceu?
Como podemos parar?”

Quando menina, eu costumava pensar que, ao me tornar adulta, não precisaria mais conviver com as grosserias e indelicadezas advindas da sinceridade das crianças que me cercavam.

Tomo a liberdade de utilizar a palavra “crianças”, como se este fosse um terceiro elemento alheio a mim, porque em pouquíssimos momentos me senti como tal. Sempre fui fechada, um tanto mais séria e de poucos amigos, numa espécie de isolamento que automaticamente me direcionava ao mundo adulto.

Mas o fato é que eu achava que, quando envelhecessem, as pessoas se tornariam mais amenas. Em minha mente, aquele olhar de reprovação se transformaria em algo mais dócil, tolerante e compreensivo. A agressividade advinda dos pequenos me assustava – e era como se eu nunca pudesse ser parte integrante do grupo deles.

Do mesmo modo, sempre que assistia aos filmes de contos de fada, acreditava que na vida adulta fosse acontecer igual no meu mundo. Um belo dia, eu conheceria alguém que me pediria em casamento – simples assim, do dia para noite. E seríamos felizes para sempre.

Neste momento, vocês podem me perguntar: e a bruxa malvada, os monstros… onde entram? Como criança boba e ingênua que era, pensava estar vivendo essa parte do pesadelo ali mesmo, na infância. Para mim, todas as malvadezas que precisassem surgir o fariam naquele instante, e mais tarde – adulta – eu ficaria livre de perigo.

Sim… Eu levianamente me pautei na ideia de que a vida começaria quando me tornasse adulta. No tardar das horas… Quando as sombras e os medos já estivessem bem distantes de mim, numa espécie de lugar inalcançável.

Mas, você vê? Adulta que sou hoje – ou pelo menos tento ser -, as pessoas que estão à minha volta não parecem menos cruéis. Eu mesma me vejo sendo rude comigo e diante dos outros em diversas horas, e isso não é novidade. Apenas evidenciei com o tempo o que já existia em mim quando criança.

A sinceridade que permeia o universo infantil se perde com o passar dos anos, é fato. Poucos são os que se mantêm autênticos e fieis a si próprios ao expor suas ideias ao mundo. Mas eu aprendi que adultos podem ser tão ou mais intolerantes, desrespeitosos e esmagadores do que as crianças.

Basta olhar pela janela e ver que finais completamente felizes e pessoas boazinhas só existem mesmo nos contos de fadas. E, mesmo assim, correndo o risco de extinção…

Talvez amanhã a minha crença se modifique, mas por hoje penso que o melhor é tentar dormir. Esquecer que não me tornei o que queria. Deixar de lado a ideia de que há um pote de ouro me esperando além do arco-íris.

Já se faz meia-noite no fim desta página e tudo o que me restou até agora foi a solidão…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

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5 comentários sobre “É meia-noite no fim da página…

  1. Mariana Gouveia disse:

    espreitar da janela uma volta ao passado, é quase como pegar um livro e folhear e ali, mudar a histórias, o meio e o fim, por que o começo é sempre o tão famoso Era uma vez… Aqui, leio a parte em que torço para que a solidão desapareça ao amanhecer…e que traga um dia sempre mais abençoado que o outro.

    Lindo, lindo, Tati.
    beijo meu

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  2. Inge Lobato disse:

    Querida, esse planeta não é realmente um passeio fácil, mas é justamente a existência de pessoas como você que me faz crer que, se a perfeição ainda é impossível por aqui, ainda assim, há muita gente maravilhosa espalhada por aí, ainda há muita flor no meio do deserto. É só saber olhar com carinho. Beijos da fã!!

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  3. Erica Ferro (@ericona) disse:

    Tatiana, você escreveu esse post de uma maneira tão bonita, tão sincera, tão doce e ao mesmo tempo com uma certa dose de tristeza, mas não uma tristeza amarga. Eu diria uma tristeza causada pelas frustrações dessa vida. Sem amargor, apenas com essa certeza triste de que há certas coisas que não mudam nem se abrilhantam com o decorrer do tempo.

    Um abraço.

    Sacudindo Palavras

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