Pausa branda

“A letra da canção é o que pensamos entender,
mas o que faz com que acreditemos, ou não, é a melodia.”

[Carlos Ruiz Zafón]

O anoitecer já se faz macio diante dos meus olhos um pouco cansados… Ao final deste dia que pareceu transcorrer com tamanha velocidade, aproveito a ligeira pausa para observar as paredes brancas que envolvem o meu quarto-inspiração…

Busco entender onde foi que deixei todas aquelas ideias que me acompanharam ontem, ao longo da caminhada pelas ruas estreitas do bairro. As palavras pareciam ter adentrado a palma de minha mão, num vínculo de afinidade e afeto imediato, como se sempre estivessem ali – prontas a serem derramdas sobre o papel.

Decerto, eu não tive o cuidado de chegar em casa e compor algumas anotações que talvez me facilitassem o processo, mas me entreguei à sorte de que esses devaneios permaneceriam em meu coração no dia seguinte.

Reviro-me, pois, em angústias aflitivas acerca de como o pensamento humano é efêmero: hoje ele está ali, em seu íntimo, mas amanhã pode ter escapado mansamente, feito nuvem que não se contenta em ter morada fixa no azul celeste.

É interessante perceber como o branco se recusa a me propiciar qualquer ponto de fixação para auxiliar no entrelace de minhas intensidades e ausências… Há somente uma grande sensação de vazio – costumeira ao meu cotidiano, principalmente quando já passa das seis…

Penso, enfim, que desaprendi realmente a escrever… Ainda sei reunir meia dúzia de frases soltas e encontrar palavras bonitas na multidão, mas ao me sentar diante de uma folha em branco, esqueci como desenhar as linhas para formar uma melodia de letras que faça sentido.

O que me resta são meras tentativas… Parágrafos idealizados lá fora, dentro do breve instante no qual desvendo as ruelas que por mim aguardam. Sentenças que não desejo ver por escrito, pois perderiam a sua magia. O seu encanto. A sua verdadeira motivação de ser.

Enquanto permaneço aqui, na busca de orações que possam ao menos ilustrar o que quero dizer, vejo que o mais importante já foi falado. De mim para eu mesma. Da essência para a minha alma.

O texto está pronto há muito tempo… Eu é que ainda não percebi.

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4 comentários sobre “Pausa branda

  1. Claudia Costa disse:

    Penso que volta e meia você sente essa necessidade de mudar, começa a encrencar com a formatação conhecida e dana de querer mudar a qualquer custo. Daí sai procurando novas formas, outros tons, que na sua cabecinha devem parecer mais sofisticados, mas…Como amante fiel da autenticidade, sou fã escancarada dos seus escritos simples, libertos, aqueles quase despretensiosos, que você deixa existirem como a alma manda, sem passar pelo crivo da crítica que mora na sua razão.

    Sou fã e ponto.

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  2. marielfernandes disse:

    Escrever, pra mim, tem uma função medicinal: me acalma e mantém o tosco que me habita longe do alcance das crianças. O que a Mariana e vocês fazem é de outro nível, trata-se de encontros da alma e das suas buscas maiores. Não desanimem, portanto, nem fiquem encrencando muito. A gente precisa de inspiração,

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