Vez ou outra, é preciso respirar alguns silêncios…

“… tudo o que vemos ou parecemos
não passa de um sonho
dentro de um sonho …”

[Edgar Allan Poe]

Há um tempo – considerável – e isto já não precisa mais ser um segredo -, a menina tem se perdido vagarosamente por aí, em cantos sombrios de medo… Não sabe bem quem ela é – nem de onde veio, muito menos qual caminho deseja seguir a partir do lugar em que se encontra.

Existem pontos de interrogação em sua morada… muitos deles. Se ela pudesse escrevê-los, faria cada sinal de um tamanho – de tão diferentes que se organizam em sua embaçada lembrança…

É como se as horas passassem mas, de alguma maneira insólita, tudo permanecesse desconfortavelmente igual. Na linguagem comum – inodoro, incolor e insípido – feito a água em sua forma original. Ela acrescentaria, ainda, o adjetivo ‘insosso’… porque é assim que também vêm transcorrendo os dias aos seus olhos, principalmente de uns meses para cá.

Talvez o fato crucial não tenha a ver com o ambiente externo, com o que surge do outro e tantas vezes provoca rupturas inevitáveis – mas sim consigo mesma. Com a imagem que avista a cada manhã em frente ao espelho – e que tão pouco lhe diz sobre sua essência.

A menina não se reconhece mais nas curvas que a roupa desenha em seu corpo. Não encara o sorriso com a autenticidade que lhe era comum até um período atrás. O máximo que consegue abstrair de sua existência são as sentimentalidades – estas, se assim pudesse traduzir, confusas à mesma proporção que um novelo de lã emaranhado em suas diversas linhas…

Mesmo sangrando, à flor da pele – a dor nascida em seu peito ainda se faz colorida – não apenas multiforme e insana. Deixou de haver uma continuidade no sentir da menina: ela apenas vive o que pode… cada detalhe do que consegue aguentar.

E, confessa a si mesma – apenas no instante de encontro com seu travesseiro – tudo tem sido pesado demais. Excessivamente agressivo. Uma carga desnecessária aos seus ombros que, apesar de parecerem suportar qualquer fardo, são frágeis e pequenos para aguentar certas farpas alheias…

Mas por que esta seria, então, uma dor colorida, se tudo se faz supostamente tão amargo e latejante? Ao que a menina responde – com seu ar ingênuo e um tanto inócuo de virilidades:

… “porque voar é mais fácil do que viver com os pés no chão”…

Em meio a algumas pausas em que ela se permite esvaziar suas farsas – para fugir do caos -, os anos passeiam sob a luz da janela de seu quarto… Ela vê cada dia chegando e indo embora, como se tivesse adentrado aquele seu espaço apenas para uma visita crua. Sem vínculos nem afinidades: apenas figuração.

E a menina devaneia, no contexto da mente brincalhona que aprendeu a sustentar ao longo da jornada – às vezes até leve, quando se esquece das esquisitices que permeiam o resto de seu mundo:

“…. talvez também seja próprio da vida chegar sempre assim mesmo, de visita… e é nossa missão – como humanos – respirar alguns silêncios para continuar delineando passos…

… dias…

… anos…

… uma existência inteira a se descobrir, apesar das pulsões contrárias”…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

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