Construto de mim…

“Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida…”

— Chico Buarque —

Já há algum tempo, ao abrir os olhos pela manhã, sinto como se múltiplas vozes passassem a habitar junto a mim o cenário que me cerca… Desde o instante em que preparo um simples café, até quando me coloco pronta a ir às ruas, para desvendar seus mistérios e entender o fascínio que os diferentes caminhos despertam na alma humana, é como se eu nunca estivesse realmente sozinha ao longo do dia.

E penso que nunca estou, de fato… Basta colocar as pontas dos pés para fora da cama, que uma gama de outros eus convida-se a adentrar minha paisagem, sem pedir muita licença, afinal, tornou-se um costume encontrar-me afobada, em meio àquele velho e conhecido astral traduzido em uma espécie de “não sei por onde começar, mas vou assim mesmo”…

Eis que me faço vestir, então, ao menos uma roupagem para cada determinada nuance cotidiana. Sou muitas dentro de uma só – e penso que, justamente por isso, chego a inflar devido ao tanto que não me caibo. Viro-me do avesso. Dou cambalhotas. Pulo em um pé só. Aprendo a fazer piruetas inimagináveis. (Sobre)vivo. Respiro, enfim.

É como participar de uma grande peça de teatro de fantoches – mas, confesso: mesmo após tantos anos, ainda não defini (em terapia) se faço o papel das marionetes ou se atuo como quem as manipula.

Quando a noite chega, retorno à beira de minha cama tão exausta, que é quase impossível despir-me de uma só vez de todas as vestimentas que usei durante as horas que se passaram.

Meus pensamentos se ordenam apenas em forma de silêncio – já que não há sequer forças para algo além disso. Deixo-me simplesmente cair em sono profundo, até que um possível dia seguinte se faça…

… e novos personagens também me habitem…

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

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6 comentários sobre “Construto de mim…

  1. Crônicas de Outono disse:

    Tive tantos insights ao ler seu texto, que só posso agradecê-la por falar com tanta delicadeza sobre as máscaras que usamos diariamente e que, muitas vezes, provocam um imenso cansaço. Beijos da fã e parabéns pelo texto maravilhoso.

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