Cartas a alguém que não vai ler, 02

“(…) e sobrevive em mim a pergunta, sussurrada ao pé do ouvido em voz rouca sem que eu saiba ao certo dita por quem: depois de nós, eu seria o que? quando as coisas serenassem e secassem as lágrimas e estivéssemos apartados, cada um com a sua vida e as suas dores enfiadas no bolso, e então eu abrisse os olhos de manhã e o sol invadisse o quarto e o despertador me chamasse a começar o dia, eu seria o que? (…)”

[Renata Penna]

Que fique bem claro: não é fácil me sentar em frente à tela e compor estas linhas… eu nem sei para que as escrevo, se tudo já parecia tão bem guardado aqui dentro – lacrado a sete chaves – de modo que apenas se pudesse destrancar sob meu comando… como são frágeis essas ilusões que criamos para nós mesmos – acreditando serem eternas – quando se desfazem em questão de segundos!

Mas, quem foi mesmo que se propôs o desafio de escrever cartas?
Você se mantém em lugar seguro, levando a vida em ritmo constante… nada aparentemente mudou, seu olhar seguirá sem ler o que tais letras lhe direcionam!

… e todo o resto? De que maneira farei eu para despir estórias frente a um público que tanto diz me compreender, mas pouco me sabe de fato?

Fico aqui, dizendo de você – para você – abro caminhos para revelar o meu próprio mundo, que ainda se mostra nublado, mas aos poucos se fará caminho tateável, notório… como se eu sempre tivesse andado por ali, mesmo sem entender de que maneira ou por quê.

Vez ou outra, tenho a ousadia de caminhar – ao vento – sem me dar conta de que os dias são outros e, aqui, apenas o desconhecido me cerca… sigo andando, sentindo sua mão ainda junto à minha, apontando direções, mostrando atalhos – já que, por mim, eu simplesmente não saberia para onde ir…

Há coerência em meu delinear de palavras? Temo que esteja sendo conduzida por minhas ilusões… e, através delas, escrevo este roteiro inesperado, dolorido, vagaroso: um prenúncio.

E assim se concebem as páginas que virão a seguir…

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3 comentários sobre “Cartas a alguém que não vai ler, 02

  1. Cláudia Costa disse:

    Que venham outras páginas, outras histórias, outros tempos [melhores e menos doloridos]…
    A escrita é o que nos salva um pouco, já que a compreensão externa parece nunca nos alcançar.
    Vamos lendo, do lado de cá.

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  2. Lunna Guedes disse:

    Escolhi ler-te ao som de uma ópera que adoro “mio babino caro” na bela voz de Anna Netrebko… e tenho pra mim que foi uma bela escolha porque senti cada linha sua reverberando em mim, como se esse diálogo fosse comigo, mesmo sabendo ser com outra pessoa! Ouvi seu diálogo em voz alta e se o mesmo acontece a partir de suas ilusões minha cara, o melhor a fazer é alimentá-las…

    bacio

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