Diálogos de uma nota só…

Ao longo de uma vida inteira, penso que me acostumei a tecer diálogos durante horas a fio, na companhia do outro já conhecido, com quem desnudava minha alma… às vezes, sentada em um café ou outro lugar qualquer, imerso em tranquilidade. 

Detalhe por detalhe… treinei a expressão de minhas angústias e ansiedades. Muito do que eu sabia, ou que ainda se mostrava inconsciente em mim – de repente, como num sopro – vinha à tona… perante ouvidos que se ofereciam atentos, acolhedores e munidos de respostas, mesmo que paliativas, para as mais alucinantes dores.

Em paralelo, ali também se mostrava um tempo de escutar. De se fazer presença. Receber o que surgia do outro lado, sem pré-julgamentos, evitando atropelar falas ou querer emitir opiniões que não haviam sido solicitadas… Um aprendizado mútuo e contínuo, que se dava pelo singelo exercício de ser humano.

Seja pela velocidade cotidiana ou pela obrigatoriedade das tarefas diárias, o passar dos anos tornou escasso esses diálogos. Alguns amigos se mudaram de cidade, país… muitos se casaram, tiveram filhos! Certas relações que eu tinha como “amizades” se findaram, evidenciando as chegadas e partidas da vida com ainda maior precisão…

Gosto de pensar que não deixei as trocas de lado: tão somente precisei me adequar às demandas que a rotina impõe – e que me são vitais… embora não seja nem um pouco fácil me adaptar a esses novos ventos.

Em determinado momento, senti que as conversas mudaram de tom… e hoje tenho aquilo a que carinhosamente chamo de diálogo de uma nota só. Por vezes, uma única palavra – simples – é capaz de despertar todo um universo em meu íntimo…

Já não se faz necessário ter horas inteiras de conversas para preencher o vazio, pois o potencial de um olhar, em alguns instantes, realiza a conexão essencial entre almas afins.

Pela atitude, e nem sempre apenas pelo discurso, o outro me toma pelas mãos, conduzindo-me a enfrentar o desconhecido – que a ele não se faz tão assustador assim – amansando possibilidades.

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5 comentários sobre “Diálogos de uma nota só…

  1. Nara Susane Klein disse:

    Amizades se vão, outras surgem ou ressurgem… por diversos motivos…
    Mas as lembranças vividas, essas ficam para sempre guardadas em um lugar especial no nosso coração.
    Belo texto, Tatiana!
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Poeta da Colina disse:

    Não sei se nos desfazemos do tempo, ou nos desfazemos demais pelo tempo. Sempre cansados para viver para nós, muito trabalho, responsabilidade e poucos cafés por esquinas depois de um ano novo com a cidade deserta.

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  3. Cláudia Costa disse:

    Tem um ditado budista que fala sobre isso: a arte de aprender pela vivência do outro…
    Acredito que seja o caminho. Gostei muito da suavidade com que você conduziu o texto. Delicado como você.

    Bjs no coração que eu amo.

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