Fazer meio caminho até mim…

Ela tinha traços suaves, olhar gentil e uma voz serena que dava gosto ouvir… seu coração, no entanto, destoava… completamente exposto, batendo em ritmos insones, sempre admiráveis pela fragilidade que se impunha em seus passos sem norte. Reunia em si o bem e o mal… como se tivesse duas faces: uma metade clara e a outra escura!

Era impossível abraçar sua essência olhando-a apenas de fora…  seria preciso entrar para sabê-la, mas nem sempre havia um convite à disposição… Logo, restava imaginar o que se precipitava em seu íntimo.

O peso das escolhas feitas acabou por levá-la a resguardar-se em concha. Encolheu-se. Fechou os olhos. Represou as lágrimas. Reinventou os próprios traços à sua maneira… dentro das muitas madrugadas de silêncio pleno, quando havia angústias em erupção e ausências de diálogo.

Foram muitos anos enclausurada em si mesma… mas, num estalo, deitou-se junto ao lençol, deixando o fino tecido branco ganhar os contornos de sua derme. Vestiu-se de aconchego… suspirando pequenos goles de ar até adormecer, como se tudo que lhe incomodava – medos, angústias e inquietações – pudesse se acometer da mesma condição.

Acordou horas depois, com uma brisa terna e suave pairando em seu rosto… seu corpo parecia um enorme casulo, com a vida do lado de fora convidando-a para dançar. Estava tão leve que aceitou o convite, imediatamente. Percebeu o ambiente à sua volta com olhos de primeira vez e, finalmente, compreendeu que a mudança, há tanto almejada, não residia no externo – longe de seu alcance –, mas em cada um dos malabares que precisava equilibrar dentro de sua própria pele…

Era lá que aconteciam todos os mistérios que necessitava desvendar para, finalmente, saber-se.

E, como nunca antes, sentia-se disposta… em ousadia e movimento.

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5 comentários sobre “Fazer meio caminho até mim…

  1. Lunna Guedes disse:

    Essa semana o tema parece ser esse, o caminho de volta para si… porque ir embora, em frente é sempre tão fácil. Nos afastamos e pronto… e então nos dizem: não olhe para trás para não se ocupar do que deixou. Claro. Mas a vida, em algum momento, nos faz tropeçar e perceber que na verdade, estamos a andar em círculo e nos obriga ao movimento.
    bacio

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