Retratos, 03

03

… era uma tarde como qualquer outra, vivida a bordo de meu universo particular… o ambiente se mostrava ainda mais frágil, com parentes se mobilizando ao redor da matriarca da família, que pedia cuidados. Eu sucumbia, encurvando os ombros, reduzindo-me ao meu lugar inerte, como se a doença fosse também qualquer espécie de coisa minha. 

Em meio ao que era tormento, uma novidade: “sua tia dos Estados Unidos está vindo para o Brasil… arrume seu quarto!”.

Fiz minha cama… juntei rapidamente os papéis espalhados sobre a mesa, e, num gesto corriqueiro, sentei-me com as mãos cruzadas sobre o ventre… o corpo arqueado – em estado de espera – aguardando a vida se pronunciar…

Sabia tão pouco… e o mistério acerca de uma pessoa que vivia fora do meu alcance, sendo apenas um nome em meio às notícias – deixou-me inquieta.

Tentava, sobremaneira, entender os diálogos colhidos pelos cantos da casa, ao longo dos dias: “ela é a ovelha negra da família…”, diziam, como se a acusassem de algo, julgando-a sem limitações… e eu, apenas a observar ao lado, recolhendo-me em estranhamento e medo!

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

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