Aos olhos do poeta…

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões
[…]

(Ana Cristina César)

O poeta tomou-me o livro pelas mãos. Disse que, conforme suas crenças, de nada adiantaria percorrer uma mesma página em círculos… como se degustar suas linhas fosse uma espécie de processo elucidativo encerrado em si.

Aludida por minhas próprias razões – vazias –, não compreendi o intuito do poeta. Pensava eu que, quanto mais pudesse me debruçar sobre cada frase… cada sílaba… cada palavra: mais cedo chegaria ao entendimento desejado.

Contudo – sorte deste coração acriançado que vos fala –, o poeta avistou em meu olhar uma lassidão incomum… que já desenhava em suas rugas enfastiadas o caminho, cuja direção não solicitei abertamente, mas pela qual minha alma suplicou em profundo silêncio.

Naquele instante, o livro abdicava de ser apenas meu… e aquela página lida-relida-sorvida-saturada traduzia um universo de cicatrizes cravadas na pele… não mais contida.

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