As cartas e sua jornada: mais que premissa, uma ponte

Ao reler as páginas de um tempo não muito distante, observo que sempre tive a honra de ser presenteada com uma espécie de companhia fiel ao meu mundo… que – mesmo nos momentos mais tênues – me possibilitou viajar e ir ao encontro do afeto que eu nem sabia o quanto buscava…

E, ainda hoje, ao me permitir uma pausa ou outra em meio às insanidades do cotidiano, é nesse amuleto que procuro energias para compreender o que, de fato, toca o meu coração. Trata-se das famosas cartas – ou, mais recentemente, também chamadas de missivas –, que eu me lembro de ter escrito desde muito cedo… como uma tentativa de atribuir significado às letras que saltavam diante de meus olhos.

Com cada uma dessas pessoas, eu procurava dividir parte de um universo que tantas vezes me soava como desconhecido e amedrontador, pois o simples fato de compartilhar sentimentos e trocar vivências parecia minimizar, de certa maneira: a angústia exacerbada, a alegria contida, a timidez não explicada, a solidão mal percebida…

Eu me deixei guiar pela intuição natural, que orienta uma criança de cinco anos a divertir-se, escrevendo o próprio nome em um pedaço de papel. Meu passatempo era andar com folha    sulfite, lápis de cor e canetinhas hidrográficas, apenas para ensaiar bilhetes e pequenas cartas… coisas de menina!

Recordo-me também dos papéis de carta… tinha uma coleção inteira, de cores e tamanhos variados. Eram uma verdadeira febre na década de 90! Junto a essa mania, vinham os adesivos – dúzias deles – que serviam de enfeite para as cartas entregues em mãos…

Com o passar do tempo, o material infantil foi substituído por canetas esferográficas, lapiseiras e folhas de fichário… Os escritos se tornaram mais densos, crescendo à medida que as emoções também se afloravam em meu íntimo.

As respostas eram as mais diversas: sorrisos, olhares, abraços… silêncios aconchegantes! Centelhas de vida se acendiam aqui dentro… e cada vez mais eu entendia por que escrever sempre foi – para mim – algo tão significativo…

Talvez muitas dessas missivas nunca foram – nem serão – lidas… talvez permaneçam apenas guardadas em um fundo de gaveta, ou junto à velha cômoda da sala de estar, como lembrança daquela garota que parecia um tanto diferente de todas as outras…

… mas que, no fundo – o tempo todo –, queria apenas ser ela mesma!

*Texto originalmente publicado na Revista Plural “Erótica” – lançada pelo selo artesanal Scenarium, no mês de dezembro de 2014. Mais informações em: scenariumplural@globo.com.

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3 comentários sobre “As cartas e sua jornada: mais que premissa, uma ponte

  1. Mariana Gouveia disse:

    Delicadeza pura que vai de encontro à alma.
    Também tive esses papéis de cartas – talvez ainda as tenha em algum baú, guardadas.
    E os adesivos também. Desde a coleção completa do Amar é… até as bonequinhas Dolly.
    Estás a ver? Alguma coisa já nos ligava lá anos antes.
    Tão linda tu!
    beijos

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  2. Darlene R. Faria disse:

    Papéis de carta… Tive uma pasta deles, emprestei para uma “amiga” levar para casa e tentar copiar os desenhos e ela nunca mais devolveu… Na época, ainda escrevia pouco e vergonhosamente costumava destruir os meus escritos por medo que alguém os encontrasse.

    Lindo texto!

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  3. Lunna Guedes disse:

    Eu sigo sendo presenteada pelo prazer de tecer missivas. Me sinto muito grata por ainda ter a quem escrever. A cada linha de uma missiva, me reinvento. Ainda hoje compro envelopes. Ainda hoje me deixo ser palavra na folha, folha no envelope.. envelope a ser pássaro e memória.

    bacio

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