Dissabores

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

[Mário Quintana, ‘Confissão’]

Tenho feito mais silêncio que o usual: talvez por perceber que, ao deixar a voz exibir seu ritmo comum, o que reverbera causa estranhamento a quem não reside na morada que habito.

Externar meus desconfortos sem me mostrar arisca é tarefa insana, quase impossível a uma alma rebelde dentro de um corpo em constante repreensão.

A repulsa surge como resposta automática ao espaço do outro – defesa sombria a exageros que me assolam – e, a cada passo turvo, eu me delineio em conflito com aquilo que pensava acreditar até o instante presente…

Confesso: meu repertório está cada vez mais escasso para alcançar a estranha mania que as pessoas têm de palpitar acerca da quietude alheia, julgando conhecer os dramas de quem se aproxima.

Causa-me arrepios a propriedade com que se apoderam daquilo que vai dentro de qualquer ser humano, sem ao menos experimentar de suas paixões, medos, inseguranças, angústias… de seu universo, enfim.

Não é novidade que escutar a pausa que vem de fora – do próximo que está ali, à beira da esquina – pode ter um sabor amargo quando vamos ao encontro de nossas próprias incompreensões.

O espaço branco do silêncio se faz amplo: nele cabe o desgosto de toda uma existência… e mais.

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