Retratos, 05

05

Os dias seguintes se apagaram da minha lembrança, ainda que eu tente me forjar a rememorá-los. Não me ocorre como foram as primeiras trocas – nem ao certo de que modo se estabeleceu o nosso vínculo mais íntimo. Tudo o que sei é que, pouco a pouco, abri meu coração para ela como nunca havia aberto a alguém.

Minha avó passou a se recuperar em casa e eu ia visitá-la aos finais de semana. A essa época, também, G. vinha cerca de três vezes por ano ao Brasil e, então, tínhamos a oportunidade de ficar um pouco juntas, intensificando o contato…

Ela foi a primeira pessoa que, com seu jeito manso e, ao mesmo tempo, um pulso firme, tirou-me do casulo e me convidou a conhecer as ruas de São Paulo. Esses instantes eu nunca apaguei do meu baú de recordações, e os levarei comigo até o fim dos dias…

G. me levou à feira livre, permitindo-me sentir o aroma das frutas, tocá-las, apertá-las e experimentar o seu sabor, deixando todo aquele medo que me habitava em segundo plano…. Fazia-me carregar sacolas e mais sacolas no trajeto, entregando-me a possibilidade de ser-no-mundo, de sentir um cansaço que não vinha mais da simples existência, mas sim por realizar algo realmente útil e prático…

Lembro-me também da primeira vez em que fui com ela a um sebo de livros. Eu jamais poderia imaginar que existisse um lugar assim… até então, só haviam me apresentado a livrarias… Ao adentrar aquele espaço, com suas inúmeras prateleiras repletas de relíquias, meu imaginário voou longe e eu me senti como se finalmente houvesse encontrado um lar… Poderia passar horas ali, folheando páginas e desvendando universos, de modo a desenhar a extensão de um horizonte só meu…

Ao chegar a casa, as broncas se estendiam por algumas horas… Os livros presenteados por G. ganhavam denominações várias: sujos, empoeirados, antigos – entre tantos outros atributos descabidos, mas que não permitiam ao instante perder o seu devido encantamento…

Um mundo novo se construía a partir dali… e a história havia apenas acabado de começar…

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

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