Retratos, 07

07

A adolescência bateu levemente à minha porta e, em paralelo, eu conseguia ver algumas vontades de menina começando a florescer em segredo… Nesse período, as janelas do meu quarto eram abertas com frequência e já não havia mais tamanha escuridão como antes.

Em certos momentos, por conta própria, eu me arriscava a ir à varanda para ver o sol se pôr, fazendo lembrar saudades… Foi então que, num desses dias aparentemente inesperados, meu pai me ofereceu como presente a oportunidade de ir até G., conhecer seu mundo e passar alguns dias de férias em meio àquele cenário…

Ao chegar à cidade-destino – New Jersey –, foi como se meus olhos tivessem o poder de dissolver tudo o que eu conhecia até então como realidade… G. me apresentou a movimentos surpreendentes, conduzindo-me pelo que não me pertencia, mas que pude tomar emprestado através das sensações agregadas por ela… a partir dali, tive uma certeza: nada mais seria como antes.

Caminhei de mãos dadas com G. ao redor de seu mundo… Um local com suas presenças, praças, cafés, livrarias… tratava-se de um cenário naturalmente comum, mas sem dúvida ofereceu cores novas ao meu coração, que não possuía outro porto onde ancorar suas vivências.

Em seguida, partimos a Nova York, o local onde ficava o seu trabalho… Ao lado de G., percorrendo aquelas ruas e avenidas, eu me reinventei em cada segundo… Aprendi a me misturar às pessoas e às paisagens de maneira tal que quase não volto para casa. Até hoje não sei se, de fato, algum dia realmente retornei…

Em dias de primavera, quando as flores insistem em espalhar suas pétalas ao entorno dos parques, enxergo a figura de G. – com seu sorriso único – a me apontar direções que ainda vibram intensamente aqui dentro… e talvez pulsem para sempre.

*Este texto é parte integrante da Coletânea “Retratos”, publicada em dezembro de 2014, em formato artesanal, pelo selo Plural Scenarium.

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3 comentários sobre “Retratos, 07

  1. pryscillanicolau disse:

    Tatiana, gostei da sensibilidade do seu texto. Queria ver mais imagens de NY. Como eram os cafés, as praças, o movimento, quais as flores brotavam na primavera. Sem dúvida é um texto lindo, podendo trazer estes detalhes ao público brasileiro. Não li seu livro. Você morou aqui nos EUA? Beijos, Pryscilla

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