Pequeno intervalo antes do fim…

Neste instante, em que me revelo com olhos de ressaca – a mim mesma, diante do espelho – observo-me inerte, apesar de saber que existe apenas uma opção… Sinto-me como uma borboleta saindo do casulo – simbolicamente frágil – abrindo as asas, sem estar pronta para o voo… meus pés descalços se cansaram de percorrer cada canto da casa em busca de abrigo.

Revisito tudo. Provo do sabor da sua saliva ao beijar sua boca – gosto amargo, café frio no fundo da xícara – não me excito com seu toque translúcido a invadir minhas entranhas. Nossos diálogos já não têm sentido e ficam cada vez mais distantes… a vontade de fugir desta casa se mostra evidente, porque estar em sua presença é sinônima de solidão…

Já se faz tarde para nós dois e a madrugada rasgou meus passos antes que eu pudesse te entregar este ponto final. Acho que não era para ser assim… mas, já que estou aqui, preciso continuar a cena até sua última gota. Falar de uma vez, expurgar os sentidos, trazer-te à tona neste cenário junto à minha pele… Pôr um fim à esquete e permitir que o público retorne às suas casas após o espetáculo devidamente assistido.

Mas, que público é esse? Somos apenas nós dois… sempre fomos tão sozinhos em nossos desenlaces… nos sorrisos tortos que insistimos em deixar pelo caminho. Até nas brigas, quase nunca deixamos um rastro sequer de dor… Fora – porque dentro tudo range… e sufoca… e sangra… mas ligamos tão pouco para o que realmente sabemos um do outro, que a distância se mostra imperiosa aos nossos olhos, deixando sobrar apenas a ausência que vestimos.

Meu corpo continuou aqui dia após dia, mas a alma há muito traçou outros caminhos e passou pela porta… agora, só me resta seguir os rastros e recolher migalhas pelo chão!

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

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Do avesso ao concreto…

“Cada um descobre o seu anjo
tendo um caso com o demônio.”

[Mia Couto]

Olhando um pouco para dentro, percebo – ao longo dos anos – que eu fui acumulando avessos…

A cada passo pelas ruas por onde caminho – que parecem tortas aos meus olhos – reencontro temas que insistem em meu íntimo. Recuso. É aí que eles se repetem, no momento de distração… quando escrevo. Transbordam como um grito que me nego a ouvir.

É como se, através dos ecos e repetições, eu implorasse ao universo que me cerca uma espécie de continuidade que não consigo traçar por conta própria. Uma rota que ainda não descobri – ou que, decerto, não me permiti traçar…

Algo a que posso chamar de angústia pede para ir embora – diz que não é mais este o seu lugar e abre espaço para um respiro, mas eu recuo por inteiro. Meu corpo se abala. Permanece ali – imóvel, aguardando comandos inexistentes de minha parte.

Há uma alma que sangra… Dói… Agita-se em pedaços espatifados pelos cantos, mas eu ainda não sei dizê-la em palavras. Todas as tentativas são confusas e começo a encontrar aí, talvez, alguns motivos que justifiquem as minhas incansáveis recorrências…

Manejo a emoção no abstrato por uma temível ansiedade de que ela se transforme em concreta – e, então, eu precise enfim… tocá-la. Senti-la com as próprias mãos. Ao assumir os sentimentos como ainda incansáveis, será meu o que hoje pertence a um imaginário qualquer… a você, às letras, ao universo…

… estarei pronta para encarar que algumas coisas são suficientemente minhas, e só?

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Desde que o mundo começou a ser mundo…

Costumam dizer por aí que tudo muda – se transforma… Deixa de ser o que era, mas eu tenho a impressão de que nada mudou ao meu redor. Tudo continua sendo mais do mesmo… e enxergo pouco de bom neste mundo que insiste em acordar dentro dos meus olhos pela manhã…

As pessoas jogam papéis nas ruas como se o asfalto fosse o cesto de lixo de suas casas. Gritam mais alto que o outro, fazendo do diálogo uma espécie de competição voraz – de modo a descaracterizar completamente o nível da conversa.

É… Já faz algum tempo desde que o ser humano iniciou seu processo de desumanização. Banalizam-se as relações a qualquer custo, desde que isso continue gerando o lucro desejado a quem interessa. Não há inflação, isso é pura ilusão de óptica da cabeça do povo. Vocês estão alucinados, vendo coisas… Um viva à política do pão-e-círco!

O desrespeito entre pais e filhos aumenta exponencialmente. Já não há educação que supere os limites da marginalidade. E, como se não pudesse ser pior, o tom superficial com que se conduz as atitudes no dia a dia nos faz duvidar da nossa própria idoneidade: até que ponto somos verdadeiros… e onde começamos a mentir?

Tornamo-nos fantoches de nossas próprias armadilhas. Adoecemos. Surtamos em meio a um universo que vai mal… muito mal. Mas está tudo bem, obrigada, desde que eu não me esqueça de tomar aquele calmante antes de dormir. Desde que o mundo começou a ser mundo, ele se transforma, cresce e agrega a cada dia, ao mesmo tempo que também destrói, diminui e mata. Por nossa causa. Porque tornamo-nos coniventes e permitimos que assim seja.

Somos não apenas personagens dentro de um cenário, mas autores de todo um enredo, que se rasga aos poucos… sem dó!

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Transição em desaviso

“Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora;
e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.”

[Virginia Woolf ]

Eu não sei ao certo com que idade comecei a escrever mais frequentemente… talvez beirasse os vinte… e poucos! Tudo o que lembro são linhas de um tempo ainda em transição.

A adolescência se configurou para mim como um período muito intenso, de emoções bastante confusas e emaranhadas… Talvez, por esse motivo, ao adentrar os vinte anos eu já me sentisse cansada de alinhavar sentimentalidades – e almejasse algo novo para o meu círculo de vivências…

Passei a falar de mudanças e transformações em meus textos como se não houvesse amanhã… querendo de fato que o coração entendesse o que era desejo: modificar o ambiente que me cercava, o outro, a vida… mas, acima de tudo, a mim mesma.

De descontente, passei a inconformada… e fui em busca do que jamais havia conhecido – até então – no íntimo que me habitava.

Como já era esperado, mais falei do que vivi, mais escrevi do que experienciei. Contudo, creio que cada detalhe tenha sido absolutamente valioso, pois percebi que tecer diálogos sobre mudanças significa, de algum modo, torná-las possíveis…

Meus escritos de hoje expõem menos voracidade diante das metamorfoses que a vida – inevitavelmente – vai nos trazendo… Aos poucos, aprendi a deixar o tempo fluir sua matemática nem sempre (ou quase nunca) exata… Assim, quando menos espero, a mudança já está lá, feita, diante dos olhos – e, qual não poderia ser a surpresa, por minhas próprias mãos!

Tornei-me arquiteta do meu mundo, como se a escrita de ontem tivesse me permitido acontecer de maneira segura, servindo de alicerce para esse ser que sou. Visto um sorriso ameno, respiro fundo, como que em sinal de alívio e… escrevo em meu socorro!

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participaram as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

Construto de mim…

“Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida…”

— Chico Buarque —

Já há algum tempo, ao abrir os olhos pela manhã, sinto como se múltiplas vozes passassem a habitar junto a mim o cenário que me cerca… Desde o instante em que preparo um simples café, até quando me coloco pronta a ir às ruas, para desvendar seus mistérios e entender o fascínio que os diferentes caminhos despertam na alma humana, é como se eu nunca estivesse realmente sozinha ao longo do dia.

E penso que nunca estou, de fato… Basta colocar as pontas dos pés para fora da cama, que uma gama de outros eus convida-se a adentrar minha paisagem, sem pedir muita licença, afinal, tornou-se um costume encontrar-me afobada, em meio àquele velho e conhecido astral traduzido em uma espécie de “não sei por onde começar, mas vou assim mesmo”…

Eis que me faço vestir, então, ao menos uma roupagem para cada determinada nuance cotidiana. Sou muitas dentro de uma só – e penso que, justamente por isso, chego a inflar devido ao tanto que não me caibo. Viro-me do avesso. Dou cambalhotas. Pulo em um pé só. Aprendo a fazer piruetas inimagináveis. (Sobre)vivo. Respiro, enfim.

É como participar de uma grande peça de teatro de fantoches – mas, confesso: mesmo após tantos anos, ainda não defini (em terapia) se faço o papel das marionetes ou se atuo como quem as manipula.

Quando a noite chega, retorno à beira de minha cama tão exausta, que é quase impossível despir-me de uma só vez de todas as vestimentas que usei durante as horas que se passaram.

Meus pensamentos se ordenam apenas em forma de silêncio – já que não há sequer forças para algo além disso. Deixo-me simplesmente cair em sono profundo, até que um possível dia seguinte se faça…

… e novos personagens também me habitem…

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Trago comigo um emaranhado de saudades…

“Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto (…)”

[Caio Fernando Abreu]

Minha querida G.,

Ainda não se passaram vinte e quatro horas completas desde que retornei ao meu suposto aconchego… E, já que nossa afinidade dispensa segredos, confesso: minha bagagem ficou por inteiro aí com você. Eu não queria voltar, mas cá estou, em meio a este eterno trânsito interno de desejos e obrigações …Talvez a alma nunca me acostume a essa realidade dura dos fatos, mesmo fingindo muito bem se adequar…

A chegada foi envolta por reencontros amistosos, como de praxe, ainda que New Jersey se mantenha em mim, feito batida estridente de um relógio antigo… É impossível ignorar as lembranças que aprenderam a fazer morada aqui dentro. Hoje a saudade dói muito… Amanhã um pouco menos. Depois de amanhã, quem sabe…?

Aproveitei a estrada de volta para casa e tentei acertar o meu ritmo interior… Tarefa insana? Não me furto a ela… Encontrei no íntimo o antigo e o recente, dividindo o mesmo espaço no pulsar do coração. Amanhã já recomeço a desenhar as tarefas cotidianas e, você sabe… necessito pensar enquanto me permito tal feito!

Definitivamente, o tempo lá fora não corre da mesma maneira que no meu imaginário… E acho bom que seja assim, pois me permito viajar de volta aos lugares que amo, sem precisar de passagem de ida… Visito os cafés apreciados ao final da tarde… corro os olhos pelas livrarias imensas a alucinarem a minha paz… Percorro mundos familiares ao meu universo: ruas, árvores, restaurantes, parques, caminhos… sim, caminhos… de algum modo, eles aplainam o meu ser não-linear.

Ensaio longos suspiros ao abraçar na memória os lugares que envolvem o seu cenário: esquinas e tracejados tão caros e reconfortantes que hoje já me pertencem tanto… Muitas de minhas entregas a você ainda reverberam por aqui, mas acredito que juntas possamos, agora, entender melhor as entrelinhas de cada um dos meus enredos!

Não queria que você visse em mim uma imagem diferente da que tentei delinear durante todos esses anos. Entendo que a verdade talvez se mostrasse preferível, mas há mistérios que necessitam se manter ocultos, ao menos até conseguirmos revelar sua essência a nós mesmos. Foi um alívio contar a você tantas lágrimas e virar páginas fundamentais dentro da minha (nossa) história. Compartilhando o meu mundo, tenho a clareza necessária para seguir caminhando…

Espero que, ao retornar do aeroporto, você tenha reparado que deixei, junto ao aroma no travesseiro, uma parte do meu coração – talvez a mais verdadeira… Entreguei meu passado em suas mãos, para que você e New Jersey cuidem com carinho deste legado.

Não há mais motivos para fingir coisa alguma – e o significado dessa liberdade é tão grande que não caberia em palavras… São pretéritos que elucidam o meu jeito de viver e agir… E a partir disso ganho novos ares para desenhar o meu próprio destino.

Com enorme carinho, afeição e gotas salgadas de silêncio…

T.

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

(…) das certezas que paralisam…

—– … diante do espelho, admite a falha – máscaras tão bem feitas a compor o personagem – a cegueira se revela e a mágoa aflora estabelecendo uma fronteira entre o que é real ou inventado. Coração sangra, mas avisa “sobreviva”. —–

[Lunna Guedes]

A tarde vem me contar serena o seu prenúncio e, na companhia de uma xícara de café, penso em como as memórias vão constituindo os dias e possibilitam a construção de uma perspectiva refinada sobre mim mesma. São questões que, às vezes, passam despercebidas em meu cotidiano tão comum – mas que impactam bem mais do que eu sequer poderia supor….

Até um tempo atrás, lembro que, quase todas as manhãs, eu observava a minha imagem frente ao espelho do corredor entre os quartos e a sala – e, num ritual já bastante conhecido, ensaiava devaneios sobre os aprendizados que haviam participado da minha rotina por aqueles dias…

Como num passe de mágica sorrateiro, a primeira intuição a perpassar meu olhar era: “hoje sou um pouco mais sábia do que ontem… se tivesse que atravessar o mesmo cenário neste exato instante, eu o faria de maneira completamente diversa… por que esse ‘feeling’ não percorreu minha mente quando mais precisei?”…

Foram momentos subsequentes desenhando suposições e “batendo na mesma tecla”… Eu realmente acreditava me tornar mais evoluída e sábia com o passar do tempo e, assim, seria quase lógico agir com maior serenidade diante de uma situação que – em contexto anterior – tudo o que tinha conseguido me causar era espanto.

Mas, bem no fundo, sei que as coisas não são tão lineares assim… Tanto que, de umas semanas para cá, venho desistindo de pôr meu corpo diante do espelho, como já havia se tornado tão comum e intrínseco a cada despertar… Busco até passar correndo pelo corredor, apenas para não me remeter à recordação de que aquele espaço existe de forma concreta ao meu olhar.

Um lampejo de compreensão interior despretensioso propôs ao coração um novo passeio – por lugares até então desconhecidos. Deixou de fora seus medos. Sua necessidade de ser o que nunca foi. E caminhou, então, a apenas deleitar as sensações de cada segundo, sem todo aquele fervor por entender a essência de cada detalhe…

A alma fez uma releitura sutil daquele pensamento acimentado – e eu deixei de querer me tornar uma complexa conhecedora do mundo. No lugar de afirmações, somente dúvidas. Muitas delas… junto à incerteza que promove o movimento. Às imperfeições que, de maneira mais do que convidativa, permitem que eu perca o sublime medo de errar.

Hoje, isenta das barreiras que eu mesma tinha me imposto, observo certos cenários por outros ângulos… Por novas perspectivas. Tudo o que compreendo hoje é que estou nesse processo – que não é novo, nem antigo… é apenas meu.

… reinvento-me a cada tilintar das horas… mas o que de fato eu sei?

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

Vez ou outra, é preciso respirar alguns silêncios…

“… tudo o que vemos ou parecemos
não passa de um sonho
dentro de um sonho …”

[Edgar Allan Poe]

Há um tempo – considerável – e isto já não precisa mais ser um segredo -, a menina tem se perdido vagarosamente por aí, em cantos sombrios de medo… Não sabe bem quem ela é – nem de onde veio, muito menos qual caminho deseja seguir a partir do lugar em que se encontra.

Existem pontos de interrogação em sua morada… muitos deles. Se ela pudesse escrevê-los, faria cada sinal de um tamanho – de tão diferentes que se organizam em sua embaçada lembrança…

É como se as horas passassem mas, de alguma maneira insólita, tudo permanecesse desconfortavelmente igual. Na linguagem comum – inodoro, incolor e insípido – feito a água em sua forma original. Ela acrescentaria, ainda, o adjetivo ‘insosso’… porque é assim que também vêm transcorrendo os dias aos seus olhos, principalmente de uns meses para cá.

Talvez o fato crucial não tenha a ver com o ambiente externo, com o que surge do outro e tantas vezes provoca rupturas inevitáveis – mas sim consigo mesma. Com a imagem que avista a cada manhã em frente ao espelho – e que tão pouco lhe diz sobre sua essência.

A menina não se reconhece mais nas curvas que a roupa desenha em seu corpo. Não encara o sorriso com a autenticidade que lhe era comum até um período atrás. O máximo que consegue abstrair de sua existência são as sentimentalidades – estas, se assim pudesse traduzir, confusas à mesma proporção que um novelo de lã emaranhado em suas diversas linhas…

Mesmo sangrando, à flor da pele – a dor nascida em seu peito ainda se faz colorida – não apenas multiforme e insana. Deixou de haver uma continuidade no sentir da menina: ela apenas vive o que pode… cada detalhe do que consegue aguentar.

E, confessa a si mesma – apenas no instante de encontro com seu travesseiro – tudo tem sido pesado demais. Excessivamente agressivo. Uma carga desnecessária aos seus ombros que, apesar de parecerem suportar qualquer fardo, são frágeis e pequenos para aguentar certas farpas alheias…

Mas por que esta seria, então, uma dor colorida, se tudo se faz supostamente tão amargo e latejante? Ao que a menina responde – com seu ar ingênuo e um tanto inócuo de virilidades:

… “porque voar é mais fácil do que viver com os pés no chão”…

Em meio a algumas pausas em que ela se permite esvaziar suas farsas – para fugir do caos -, os anos passeiam sob a luz da janela de seu quarto… Ela vê cada dia chegando e indo embora, como se tivesse adentrado aquele seu espaço apenas para uma visita crua. Sem vínculos nem afinidades: apenas figuração.

E a menina devaneia, no contexto da mente brincalhona que aprendeu a sustentar ao longo da jornada – às vezes até leve, quando se esquece das esquisitices que permeiam o resto de seu mundo:

“…. talvez também seja próprio da vida chegar sempre assim mesmo, de visita… e é nossa missão – como humanos – respirar alguns silêncios para continuar delineando passos…

… dias…

… anos…

… uma existência inteira a se descobrir, apesar das pulsões contrárias”…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

Águas mornas…

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

[Vinícius de Moraes – “Ausência”, In: Antologia Poética]

Nas madrugadas insones e angustiantes que perfazem naturalmente o meu cotidiano, eu lembro como se fosse hoje a primeira vez em que pude delinear seu contorno nu… Latente. Pulsante em mim.

Não foi um instante arquitetado e talvez – justamente por isso – eu tenha me surpreendido em demasia. Você me convidou ao ato como se ele sempre houvesse existido em nós. Deixei-me, pois, conduzir pelo seu instante…

Atuei diante daquela paisagem como a protagonista de um sonho e de todas as sensações que me perfaziam havia tempos, permitindo-me a luxuria de uma noite infindável, porque certas coisas o nosso íntimo decifra sem explicações – regras ou normas.

Um misto de plenitude e intensidade, duradouro até meados do dia seguinte, pois eu não conseguia me desfazer das lembranças impressas por sua derme em meu sentir…

Não existia ali somente o corpo – éramos duas almas líricas que haviam se unido “desde sempre”, em perfeita sintonia.

A temperatura borbulhante dos detalhes permeou cada encontro que sucedeu aquelas horas de estreia catártica. Foram meses de querer mais… Promessas de uma vida… Sementes plantadas na esperança de frutos que viessem tão saborosos quanto sua vertigem…

O tempo passou e, como todas as histórias que me foram contadas ao longo da vida, esta também teve o seu fim. Uma pausa mal dada, eu diria… Marcando o coração com o gosto amargo da distância do que se queria tão próximo.

Não sei bem como se deu o momento – mas compreendo sim que algo mais forte fez com que eu te perdesse. E quase que imediatamente me soltei de mim.

As águas de um romance tórrido – que costumavam latejar em minha pele de ardor e paixão, com uma naturalidade bastante apreciada – simplesmente se amornaram… E não houve quem as pudesse reaquecer.

Busquei inúmeras maneiras de resgatar o acalento de seus braços, ainda que notoriamente obtivesse nenhum sucesso… Sem esse enredo eu me via apenas como parte, já que na minha concepção o todo estava bem ali: em você.

Aos poucos, pude retomar a tão almejada paz de espírito. Tratei de devolver certa espécie de serenidade ao meu interior, reconstruindo o que havia se quebrado num repente. Em contrapartida, deixei de ser aquela alma vibrante de prazer…

Gradativamente me adaptei ao morno. Ao singelo. A uma existência isenta de paixão – mas também com menor risco de dor ou abandono.

Ainda hoje, admito a falta abrupta de sentir arder a pele por sua presença.

Contudo, também já não me queimo mais…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

Quero outra manhã depois dessa madrugada…

“(…) Perca algo todos os dias. Aceite a irrequieta frustração
De perder as chaves da porta, de desperdiçar tempo. (…)”

– Elizabeth Bishop –

Confesso que já estava quase me acostumando ao calor exacerbado dos últimos dias, cuja temperatura se entranhou em meus poros de modo antes não imaginado.

Adequei-me ao ritmo das manhãs ardentes e busquei seguir os passos rotineiros, afinal, a vida não para – nem mesmo se acalma – só porque o astro-rei decidiu brilhar com voracidade lá fora…

Pelo contrário, o que pude perceber foi que, ao passar das recentes semanas, as pessoas se tornaram ainda mais esbaforidas, impacientes e apressadas. Deve ser efeito do termômetro elevado que as deixou assim, um tanto quanto indóceis…

Enfim, após um longo período em que ficamos envoltos por quase quarenta graus aqui na cidade de São Paulo, o anoitecer de ontem nos trouxe o espetáculo da tempestade, refrescando os ares e clareando também algumas ideias – antes um tanto abafadas.

A madrugada, assim, prometia ser mais amena e propiciar um sono tranquilo, talvez reparador, sem exigir presença tão obrigatória de ventiladores, ares-condicionados ou janelas demasiadamente abertas…

Mas o fato é que acordei mais cedo do que pretendia nesta manhã de sábado que nem se arriscou a insinuar qualquer raio de sol. Após uma razoável dimensão de idas e vindas do sono, rendi-me ao despertar, já que por ora os pesadelos haviam se feito suficientemente densos.

Penso que o corpo se acostumou a remexer-se involuntariamente na cama entre os lençóis, buscando posição adequada para repousar em meio aos ares intensos e acalorados que percorriam o quarto…

O metabolismo – ou seja qual for o nome que se dê a tudo aquilo que reside aqui dentro – deve ter estranhado a mudança meteorológica repentina e não acreditou, nem se conformou com a leveza que foi tomando conta do ambiente.

Preparei minha xícara de café quente, acompanhada de torradas com geleia. Um menu especial para o sábado, que pede aromas delicados no instante em que o amanhecer se faz mais cinzento…

Ainda que o cenário parecesse contribuir à singeleza do momento, não foi bem assim que ocorreu… Procurei em diversos lugares, mas não vislumbrei disposição para reunir uma boa dose de palavras arraigadas em minha alma no dia de hoje.

Tudo que existe e parece palpável é uma intuição pedindo silêncio – no aguardo de nuances que promovam a continuidade dos fatos.

Quanto não surgem elementos recíprocos para toda a ansiedade que já me é conhecida e familiar, o íntimo se vê perdido – tal qual tivesse sido abandonado em um canto qualquer das esquinas. Devo, talvez, recuperá-lo para acalentar suas lacunas, ao passo que estas não podem ser preenchidas de imediato.

Dou boas-vindas à minha manhã e permito que ela guie os passos com serenidade, equilibrando de certo modo a tensão vivenciada nas horas que se passaram.

Não há resposta alguma que se mostre visível ao meu olhar, mas enquanto existir aqui dentro tamanho sentimento, permanecerei à terna espera daquilo que invariavelmente faz o coração sorrir…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.