Aos olhos do poeta…

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões
[…]

(Ana Cristina César)

O poeta tomou-me o livro pelas mãos. Disse que, conforme suas crenças, de nada adiantaria percorrer uma mesma página em círculos… como se degustar suas linhas fosse uma espécie de processo elucidativo encerrado em si.

Aludida por minhas próprias razões – vazias –, não compreendi o intuito do poeta. Pensava eu que, quanto mais pudesse me debruçar sobre cada frase… cada sílaba… cada palavra: mais cedo chegaria ao entendimento desejado.

Contudo – sorte deste coração acriançado que vos fala –, o poeta avistou em meu olhar uma lassidão incomum… que já desenhava em suas rugas enfastiadas o caminho, cuja direção não solicitei abertamente, mas pela qual minha alma suplicou em profundo silêncio.

Naquele instante, o livro abdicava de ser apenas meu… e aquela página lida-relida-sorvida-saturada traduzia um universo de cicatrizes cravadas na pele… não mais contida.

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Fazer meio caminho até mim…

Ela tinha traços suaves, olhar gentil e uma voz serena que dava gosto ouvir… seu coração, no entanto, destoava… completamente exposto, batendo em ritmos insones, sempre admiráveis pela fragilidade que se impunha em seus passos sem norte. Reunia em si o bem e o mal… como se tivesse duas faces: uma metade clara e a outra escura!

Era impossível abraçar sua essência olhando-a apenas de fora…  seria preciso entrar para sabê-la, mas nem sempre havia um convite à disposição… Logo, restava imaginar o que se precipitava em seu íntimo.

O peso das escolhas feitas acabou por levá-la a resguardar-se em concha. Encolheu-se. Fechou os olhos. Represou as lágrimas. Reinventou os próprios traços à sua maneira… dentro das muitas madrugadas de silêncio pleno, quando havia angústias em erupção e ausências de diálogo.

Foram muitos anos enclausurada em si mesma… mas, num estalo, deitou-se junto ao lençol, deixando o fino tecido branco ganhar os contornos de sua derme. Vestiu-se de aconchego… suspirando pequenos goles de ar até adormecer, como se tudo que lhe incomodava – medos, angústias e inquietações – pudesse se acometer da mesma condição.

Acordou horas depois, com uma brisa terna e suave pairando em seu rosto… seu corpo parecia um enorme casulo, com a vida do lado de fora convidando-a para dançar. Estava tão leve que aceitou o convite, imediatamente. Percebeu o ambiente à sua volta com olhos de primeira vez e, finalmente, compreendeu que a mudança, há tanto almejada, não residia no externo – longe de seu alcance –, mas em cada um dos malabares que precisava equilibrar dentro de sua própria pele…

Era lá que aconteciam todos os mistérios que necessitava desvendar para, finalmente, saber-se.

E, como nunca antes, sentia-se disposta… em ousadia e movimento.

Quando a vida me escapa entre os dedos…

“Porque os dias sem ela que virão não fazem sentido para mim. Eu não serei capaz de enxergá-los sem ela. E mesmo agora, que a amparo, que quase a carrego, sei que é ela quem me ampara e é ela quem me carrega. Que só sabemos andar juntas. E que, sem ela, me faltarão pernas.”

[Eliane Brum, In: Uma Duas, p. 153]

Desajeitadamente, ela percorre cada mínimo espaço da casa, buscando sem sucesso um lugar para chamar de seu. Sempre havia sido assim, mas nos últimos dias se mostrava clara a tensão presente: como encarar a rotina com uma tempestade a fluir diante dos olhos?

Em atos impensados e sucessivos… escancara cortinas, deixando o sol ardente penetrar os poros dos cômodos! Tenta encontrar vida onde não há eco que lhe responda. Insiste! A teimosia lhe faz crer que, em qualquer momento, será capaz de ouvir um ‘sim’…

Ensaia barulhos em tom de fingimento, apenas para causar ruídos… na esperança de que nasça uma inquietação! Ouve o tic-tac do relógio – que só faz somar as horas -, sem oferecer as soluções palpáveis do tempo…

Já em estado de desespero, por conceber somente o silêncio… deita-se sobre ela, e sacode o corpo frágil completamente, como quem suplica por uma reação! A ideia de perda faz eclodir no íntimo a angústia. Confessa seu medo e as lágrimas se confundem com suor… denotando um cansaço-medo-luta que exaure.

Juntas, tentam um pouco além… e só não sucumbem à morte, pois se precisam mais que água e ar.

Amar um sonho…

ridículos
como Pessoa
e suas cartas

somos nós
nosso vazio
e nossas marcas

aquele chorou rios
ela sofreu horrores

ao falarmos de amor
todos somos
amadores

[Kleber Bordinhão]

Eu não tenho a certeza de que você não me quer – e isso te faz ser meu todos os dias.

A gente se encontra, enrola os fatos, dissimula o que poderia ser… e o que nunca foi.

Mas inventa modos desconcertados de dizer que ama, já que o sentimento é, por vezes, tudo o que se há.

E ama, sim. Muito. Outro nome que não seja amor se faz inexistente.

Mas há o medo… Ah, o medo… Este tolo que pensa nos enganar. Até engana – quando o sonho e o real se mesclam em facetas quase intocáveis.

Contudo, mesmo sentindo medo, não abdico de você. Aprendi a não desistir de nós.

Porque, enquanto eu te esperar, você se manterá vivo. Aqui dentro, talvez lá fora. Em miragem ou no palpável, eu faço você existir para mim.

Sei que provavelmente tudo isso não passa de uma grande besteira. Entretanto, se a gente se leva a sério demais, desaprende também o que é brincar de viver.

Nas tardes acaloradas – momentos em que meu corpo quase se desmancha pela brisa quente -, eu te olho e, por um momento, penso:

“- Ah, se ele pudesse ser meu! …”

E sigo andando, porque ainda não é. Mas a simples ânsia de tocar você me faz dar mais um passo, e outro, e mais um…

Pois, quando finalmente der certo, pode ser que perca a graça. É muito meu, isto: a vida toda treinei lidar melhor com probabilidades do que com verdades.

Já fiz um trato com o coração: se eu não encontrar seus braços, sinto que ao menos terei chegado mais perto de mim mesma.

Um surto pelo excesso…

Não sei ao certo em que momento me permiti afundar nesta tragédia sem fim…

De repente, vi-me envolta por monstros, sem forma nem cor – apenas tato.

O bom senso se afastou de mim, largou-me em uma paragem outra do caminho. Fui tentando seguir sozinha, mas a covardia falou mais alto, deixando-me isenta de um solo sequer.

Já não pude me guiar, nem conduzir a palavra sagrada à razão profana. As emoções suprimiram o riso nervoso e também a lágrima sincera, fazendo-me lesa de minhas próprias percepções.

E eu andei, sim, da maneira que me era conhecida. Não para onde gostaria de ter caminhado, segura dos fatos, e sim a lugares que permitiram a minha entrada – ainda que forçada.

Esbarrei em portas trancadas que se abriram de supetão, num escombro de voz. Arrombei maçanetas e não quis muito saber o que havia do outro lado.

Tão somente prossegui de cara lavada, afinal, fé era um dos poucos artifícios que me restavam depois de sucumbir aos vícios…

Afoguei a melancolia num mar de solidão. Transformei tristeza em raiva e me alimentei do inchaço das horas.

Sufocada por meus próprios braços, lutei com unhas e dentes para provar que era verdade o que eu nem mesmo conhecia. Já não seria possível sentir amor vivendo assim.

Naquele instante, morri – entremeada por uma loucura nunca antes sentida. Parti deste mundo insano por perceber, enfim, a total incoerência dos fatos.

Talvez um dia eu resolva voltar, embarcando em certo trem que me leve a estações mais serenas de outra vida. Ou, fique ali mesmo, sabe-se lá onde esse ‘ali’ reside.

Mas, por hoje, decreto a morte. Um surto pelo excesso.

Uma parte de mim se vai e eu não desejo pôr absolutamente nada em seu lugar.

Sutilezas e canções

Talvez eu não tenha nascido música, mas a canção nasce todos os dias dentro de mim.

Senti vontade de compor certos versos que tilintassem fundo no íntimo dos viventes.

Na alma dos que caminham ao redor sem que, sequer, possamos perceber, mas em sua base existencial se configuram tão humanos quanto a nossa própria essência.

Nasceu em mim, pois, o desejo de me soltar em um blues, de propor um jazz despretensioso, para sentir os embalos daquela desconhecida canção.

Busquei acordes leves na guitarra e pude imaginar o corpo se expandindo em música, como se sempre tivesse sido parte de um ritmo, de uma batida despropositada…

Por fim, após um passeio nitidamente rápido pela magia de outros instrumentos musicais, arrisquei o sonho de tatear o piano que ficava no quarto dos fundos.

Confesso ainda estar um pouco tímida, pelo raro contato que tínhamos, mas a sede curiosa por sua sonoridade falou um tanto mais alto em meu coração.

Sentei-me na bancada densa e pude, então, degustar as notas que se confundiam e misturavam entre os dedos.

Flutuei entre um ‘fá sustenido’ e um ‘si maior’, enfeitando-me de ‘do-re-mi’.

A partir de tal instante, o prazer da sutileza harmoniosa entre os sons adentrou o caminho das minhas memórias… e nunca mais fui só.