‘Detalhes Intimistas’, o livro…

“A escrita de Tatiana Kielberman é, antes de tudo, um olhar atento ao espelho, onde aprecia o próprio reflexo, como se fosse uma lagarta à espera de sua metamorfose… e, enquanto espera, observa suas formas dentro das fôrmas, que é o próprio universo onde se movimenta, enquanto avança de substância em substância.
Neste livro, sua escrita soa como a última batida do relógio no qual se dá corda diariamente. A porta que se fecha com um trinco — pelo lado de dentro — em busca da certeza da solidão. A respiração intensa que se faz quando o pulmão precisa de mais ar…”

| Lunna Guedes, editora da Scenarium Plural |

“O tempo acabou.
Quase não me sobrou nada, é fato.
Mas, talvez o que reste se configure suficiente para montar um quebra-cabeça lúdico, outra nova ciranda sentimental, uma roda-gigante de medos que possa ser, minimamente, reinventada em seu íntimo.”

– Tatiana Kielberman –

Uma publicação artesanal do selo Scenarium Plural
52 páginas – em papel marfim fosco 75g
Capa em papel couchê 180g

Costura oriental 15 x 21

Valor: R$ 35,00
Encomendas por e-mail:
tatikielber@yahoo.com.br
Exemplares limitados.

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Coração crepuscular

Hoje eu vi um coração desenhado no céu, entre nuvens. Qualquer outra pessoa que observasse a mesma paisagem, talvez nada enxergasse… mas a mim aquela figura era toda sorrisos!

Já passava das seis e a noite caía feito um manto de luz a cobrir meus olhos, enquanto o breu anunciava lentamente as batidas do tempo…

Tudo estranhamente em seu devido lugar… apenas um punhado de ausências e outra meia dúzia de angústias, sobre as quais decidi – por bem – me debruçar em outro instante.

O coração transfigurado dialogou com meu íntimo, mostrando-se não apenas como um sinal aleatório… trouxe, em si, o significado de que – em certos dias – a vida pode pulsar com maior tranquilidade entre céu e terra.

Hoje não te quero presente,

Sua resposta ao meu silêncio provoca barulhos ensurdecedores em mim. Não tenho pés firmes no chão para sustentar o peso de seu corpo insano – que pensa sair ileso de todas as situações – e nem pretendo manter a salvo em meu cerne os seus ruídos de podridão. Quero expurgar de mim a fome, a sede… a cura para um mal que não cede. Vou rasgar das paredes o seu nome, trancar as portas de casa e escurecer tudo ao meu redor. Hoje, não te quero presente nem em lembrança, pois se nunca te avistei em sonho, não será na minha realidade que te permitirei entrar.

Em linha reta…

Quero-te como a brisa do mar que me consome: perene… porém, perfeita em seus movimentos de tocar o céu.

Quero-te como antes não conheci o desejo em minh’alma, já que os ventos eram recusos e o tempo se fazia tardio.

Com meu feitio de pressa quero-te sempre e nunca, em compasso de espera, até que cada noite se mostre infinita em meio ao nosso sentir.

Não te desejo ilusão, nem te quero fogo que não arde: busco a luz possível entre o espaço deixado na imensidão de nós dois.

Vem?

Enquanto se aproximam os dias…

Tenho desejo de gritar a voz dos mudos: aquela que se cala ao crepitar da noite, uivando por dentro em teimosia. Uma vontade mais forte que eu – aquela que não se permite ser ínfima… apenas chama! – e, no vai-e-vem de batalhas pessoais, trava um duelo seguro com seu próprio reflexo… Quero desopilar da garganta o que ainda não sei – o que não me foi dito e jamais pretendi saber –, mas que, no entanto, é tão límpido e claro quanto a água que me mata a sede. Preciso dar um fim nessa busca que se encerra em si mesma. Sentir jorrar o sangue de uma alma nunca cicatrizada… Sucumbir, até que a última gota não mais consiga me tocar. Perecer… em meio a um ar que já não respira por mim.

Sábia quietude…

Outro dia, eu te disse despretensiosamente – em meio aos nossos diálogos acompanhados de café – que você costuma me oferecer muitos conselhos em silêncio… e, mais curioso que isso: eu tenho a estranha mania de segui-los!

Senti seu olhar de interrogação diante de mim, como quem quisesse – de fato – compreender o significado de minhas palavras… Mas, em seu íntimo, certamente o entendimento já havia encontrado um lugar de conforto, afinal, quietude e silêncio são substantivos que traduzem você em um sem-número de vocabulários…

Acho que já tive a oportunidade de te confessar: apenas me encanta o relacionamento com uma pessoa se ela é capaz de despertar o melhor e o pior que tenho em mim. O melhor, que me lembre para onde voltar nos momentos difíceis, de descrença… E o pior, para que eu nunca me sinta completa, a ponto de arriscar interromper minha construção interior.

Através de seus sábios conselhos calados – porém, imensos em amplitude e sabedoria – você não só me redime de possíveis falhas, pelas quais aprendi a me culpar “a troco de nada”… mas também me mostra que há uma infinidade de caminhos que não percorri. Apenas porque não me possibilitei dar o passo à frente.

Eu sei que todas essas verdades encontrariam um modo de chegar ao seu coração, ainda que não fossem expostas em palavras…  Mas, quem foi mesmo que incentivou o extravase pela escrita?

Cá estou…

Excerto

Hoje amanheci aturdida por angústias… Os ponteiros do relógio pareciam girar em ordem contrária e a alma se deslocava de lá para cá, frente a um mar de devaneios. A grande dúvida imersa na solidão de mim: como caminhar? Eis que um sussurro busca a calmaria em meu íntimo, trazendo em sua essência a resposta tão aguardada: fazer o caminho… fazer o caminho… fazer o caminho…

Catarina…

Ela se veste de um sorriso tímido e enfeita cada dia com delicadas possibilidades de si mesma… É um pouco de mim, de você e de todos nós juntos, mas não ouse compará-la a ninguém: ela pertence às suas próprias nuances e linhas (quase sempre) retas.

Sua singularidade vai além do que pode ser visto no espelho, pois ela é a ameaça dócil entre a transparência e a dúvida. É o inteiro de cada metade, o exagero em sua forma mais simplista.

As palavras de Catarina sempre nos deixam com aquele “e se?” na ponta da língua, fisgando interrogações que se multiplicam ao infinito… E é justamente nesses instantes que ela se deleita em fugir rumo ao seu universo particular, enquanto permanecemos à deriva, entre mistérios e devaneios…

Nunca antes encontrei uma figura tão breve em suas explicações e tão extensa em sua incrível complexidade! Ela é este vulcão de ideias que nos movimenta em direção ao imaginário, sem deixar que nada se perca ou desperdice… se valioso for.

Catarina nos brinda com seu chão e seu céu. Com seu paraíso e seu inferno. Contudo, em meio a encantos e inquietações, nada nos é entregue de bandeja! É preciso conquistá-la… trazer brilho aos seus olhos por um motivo qualquer, que faça pulsar seu coração.

Seduzir seu rosto com uma pétala de flor… tocar a lua com a ponta dos dedos e, caso houver coragem, permitir-se adentrar seu mundo… diferente de todos os outros palcos da vida…

Noturna

Quando as palavras ensaiam seu movimento de adormecer, gosto de pensar no dia seguinte e em suas possibilidades. Construo uma combinação de frases em meu imaginário, desejando intimamente que – ao amanhecer – o simples sonho se transforme em linha reta. Não ouso afirmar que, no instante seguinte, as letras se farão semelhantes, nem se poderão confundir àquelas que proferi hoje, pois serei apenas um esboço de mim… um espectro em construção. Mas, enquanto existirem maneiras de traduzir aquilo que chamo de ‘meu indizível’ – inclusive na pausa –, não deixarei qualquer passo para depois!

Translúcida

Observo o som do tilintar de meus dedos no teclado do note, que denuncia: a tarde já está no meio e o movimento foi quase nulo por aqui… A não ser pelo detalhe das sombras, que trazem um enrijecimento qualquer ao meu sentir, poderia notar-me pálida, opaca – feito os segundos que não se percebem passar no relógio – aguardando tão somente a indiferença para seguir existindo do mesmo modo… como sempre. Até ontem eu possuía todo um discurso pronto à mão, mas hoje meu olhar apenas rasteja através daquelas palavras que ficaram por dizer.