Doce afinidade…

Ontem você me encontrou no meio da rua e me trouxe de volta pra casa. Eu te pedi apenas um grão de areia, um pedaço de chão… mas você me ofereceu em retorno um território inteiro de lembranças e saudades.

Foi como estar dentro do abraço de antes, ao qual nunca deixei de pertencer, metade-inteira-fraqueza-inquietante…

Você sempre me soube, e ontem não foi diferente… Aquela mesma figura afetuosa adentrou minha alma com seus olhos de raio-x, oferecendo respostas àquilo que eu nem havia perguntado, e silenciando cada uma de minhas insistentes e levianas dúvidas…

Uma doçura mesclada com imponência perfaz as metáforas do seu caminho, e diante dessa singeleza me reverencio, pois foram seus gestos tênues que plantaram em mim a semente da realidade, elemento sempre tão frágil aos meus olhos…

Hoje o dia amanheceu mais claro, e mais bonito também… Confesso: estava com enorme saudade de enxergar a vida assim!

Quando você vem me encontrar outra vez?

… ao acaso?

Há uma canção do Legião Urbana que diz: “disciplina é liberdade”… foi uma amiga próxima que me alertou sobre a preciosidade dessas palavras, às quais eu nunca havia dado muita importância, mas que acabam por produzir mudanças muito intensas em mim, quando decido adotá-las como lema de vida…

Desde pequena, confesso não ter sido a pessoa mais disciplinada, apesar da aparência certinha, que denotava alguma delicadeza nos gestos e escolhas… Sempre deixei que um tal de destino compusesse o quebra-cabeças da minha existência, de modo a encaixar as peças conforme bem entendesse… se desse certo, ótimo! Caso contrário, era tentar e tentar outra vez, até conseguir.

A partir dessa crença baseada em happy-endings, corri riscos sem ao menos mensurar certas emboscadas, e assumi desafios bem maiores do que meu raio de alcance, o que nem sempre resultou em algo bom de verdade… Passei por consequências das mais diversas e aprendi – a duras penas – que nem tudo dá certo no final…

Tive que me render, pouco a pouco, à disciplina, anteriormente tão dispensada por mim. E, além da leveza conquistada, é inegável afirmar que – como nos ensina Legião – eu me sinto mais livre, sem precisar guardar todos os compromissos e responsabilidades na memória, no corpo e na alma…

Aprendi que delegar não é crime, que pedir ajuda é sinal de sanidade e, acima de tudo… que, para ser feliz por fora, preciso primeiro descobrir como me sentir confortável aqui dentro…

Palpite…

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

| Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas” |

Não espero mais até o dia em que as ondas deste imenso mar irão me engolir por completo… sinto-me desalojada de minha própria pele, onde já não cabem as vestes de uma alma partida ao meio – próxima a desabar.

Vivo o agora em suas repetições desarmônicas, enquanto ecos inúmeros reverberam em meu íntimo; histórias… amores… desilusões… toda uma existência gravada no filme da memória, perpassando minha mente em questão de segundos.

O tempo toma minhas mãos como se esta fosse a primeira vez… mas, embora exista recusa em acreditar, a intuição me conta: passei por aqui muito antes…

Ímpar

Na tarde de ontem – de supetão, como quem leva uma fisgada no peito e sucumbe à sombra de si mesmo – a vida me deixou outra vez à deriva… e, sem pestanejar, eu recorri abruptamente aos braços dela… Às suas palavras-gestos-formas-de-existir: tão distantes do que já conheço, mas tão próximas ao que almejo ser.

A busca não foi em vão: suas letras me encontram mesmo quando a procura se mostra incerta, feito ritmo suave que dança ininterrupto em meus pensamentos.

Se sou intensidade, suas oportunas palavras me guiam a um vazio acalentador – que não se furta a sentimentalidades nem às sutilezas da alma –, levando-me ao encontro das nebulosidades internas que, por tanto tempo, busquei esconder de mim.

Seu cenário reconfortante não é adivinha, não é mistério nem privilégio: veste-se apenas tradução de um cotidiano inegável. Ela é mesmo dona de uma mística inconfundível em linhas que perfazem sua realidade encantadora, tão somente incomum. Tão somente ímpar.

Na tarde de ontem eu posso ter me perdido novamente diante do mundo, mas me encontrei de outro modo em seus olhos. Me reformatei a partir de sua perspectiva…

…e fui mais.

Às vezes, causamos ‘surpresa’ somente aos olhos alheios…

Inegável como a lua esconde o sol em um eclipse, eis-me aqui – escondida neste mundo arquitetado por mente e coração – fazendo com que a inexistência do toque perverso do medo oculte a realidade insossa de cada dia.

Ao longo de um razoável espaço de tempo, o fingimento me serviu de aresta à sobrevivência… Buscava uma presença fora de mim mesma, que completasse minhas ânsias e aspirações… que viesse amenizar tamanho fogo que me queimava por dentro, durante madrugadas corrosivas-insones-eternas…

Numa tentativa sôfrega de me desvencilhar do chão que mantinha meu sustento, olhava para aquele outro universo de possibilidades, ao qual desejaria para sempre me prender. Era nas pessoas – em suas histórias, vivências e afetos – que residia a minha paisagem lúdica de paixões, o meu arcabouço de loucuras possíveis e viagens imaginárias.

Talvez não houvesse nada de tão diverso ou elucidador assim, na espreita vizinha… Muito provavelmente fosse apenas mais um de meus delírios. De meus desequilíbrios torpes e indefiníveis… tão frágeis quanto a linha fina que sustenta a presença de um humano entre o céu e a terra. (Existirá este céu figurativo? Simbolismos bobos-exagerados-medíocres da nossa ingênua leviandade…)

Por inúmeras vezes, deixei minhas previsibilidades para depois, oferecendo morada a riscos e ousadias outras. Não sabia onde iria chegar… mas, certamente, compreendia que ali – no contraste bizarro envolvendo minhas origens –, o aninhamento desejado nunca se daria em paz.

Pouco a pouco, eu me desfiz dos muros que me cercavam e passei a construir pontes que pudessem me levar ao (possível) terreno ideal – um salto à frente, muitas máscaras para trás – tornando-me fiel à própria imagem. Mais uma ilusão provável? Não seria surpresa se sim… Mas a vida é esta sucessão de dias com noites nos entremeios, e é preciso segui-la como se pode. Como se entende… até que as coisas, um dia, quem sabe… mudem.

Deitei os olhos sobre minha figura no espelho, avistando-me como aquele retrato do que nunca deixei de ser: uma janela prestes a ser aberta, cujo último movimento fica detido. Um espiar por entre frestas. Dentro, apenas se imagina o lado de fora, confeccionado a partir de mim mesma…

Foi então que abracei o avesso de cada medo e dei as mãos a um futuro incerto, porém, necessário ao encantamento da alma. Não conhecia atalhos, mas – naquele instante – a voz íntima e essencial tratava de me assegurar do mais importante: o caminho de volta para casa.

Grito íntimo

“[…] se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse”

— Renata Pallottini, in ‘A Faca e a Pedra’ —

Mais uma noite chega para me visitar, enquanto observo vontades se esvaziarem de meus poros… Até mesmo o que antes se escondia atrás de um desejo, hoje não passa de mera indiferença!

Deixei guardada em uma gaveta qualquer as lágrimas de sangue outrora derramadas. Dias a fio remexendo em cicatrizes. Marcas-agruras que larguei para trás. Dilacerar: o único verbo rabiscado em minhas paredes, é o que me conta a lembrança…

Hoje, percebo minhas vísceras se manifestarem quase que apenas na folha em branco – convertida, às vezes, em tela – que me serve de pano de fundo a um voo paralelo, onde o cinza ganha sua possível nuance colorida. Um aspecto mais trágico-dramático-sensível, como sempre apreciei vivenciar…

O ambiente opaco ao meu redor, que tão pouco – ou nada –  me diz –, apela rumo à vertigem constante nestes olhos incrédulos de dor. Grito para dentro quando a voz de fora já se faz demasiado intensa. Mas, como insistente sonhadora que sou, prefiro acreditar em uma revigorada ilusão antes do fim.

Entre a apatia e a morte, sou mais nascer de novo.

Os meus olhos se abrem e… sou outra!

Não conseguiria afirmar com precisão o ponto em que as coisas mudaram: até ontem, o céu nublado pesava absurdamente sobre minhas entranhas. As ruas atropelavam qualquer tentativa de passo vagaroso, enquanto o corpo parecia pender ao chão, num total desequilíbrio de mim. Mãos, braços, pernas e pés se mesclavam a um desgosto inerente em meu âmago… O que se fazia mais denso – de fato – eu não sei.

Mas… vi nascer a manhã, alheia à minha vontade. Despertei num espasmo e ela estava aqui, convidando-me a viver as horas, como se tudo existissse pela primeira vez. Nenhuma novidade concreta ao meu redor, mas qualquer coisa de fingimento – às vezes – ajuda a suportar a fúria da solidão. Fechei timidamente os olhos, como quem se prepara rumo a uma surpresa… contudo, quando os (re)abri, notei que a paisagem a me chamar não vinha do entorno. Era o coração que aguardava – talvez – ser desadormecido por um leve afago da alma…

À francesa…

Em poucos instantes na vida me concedi uma pausa para ponderar a mim mesma. Sempre fui movida pelas pessoas e suas presenças, que fizeram de mim o que sou hoje. Não foram muitas as que realmente causaram impacto, mas cada uma delas foi importante e, por isso, penso que seja tão difícil me desapegar.

Com o tempo, fui conseguindo ter abertura e pedir um momento para me encontrar. Consegui isso há bem pouco, quando já me sentia sufocando. Tenho aprendido muito comigo mesma e quero seguir nesse aprendizado.

Justamente por conta de tudo isso, confesso que não entendo certas reações. Afinal, aqueles que de fato são próximos deveriam saber reconhecer quando tudo fica denso, o instante em que o ar se torna pesado demais, em vez de nos julgar ou condenar porque precisamos apenas da nossa própria companhia.

Muitas e muitas vezes, disseram-me que eu não deveria esperar demais das pessoas. Eu entendi, mas mesmo assim sigo esperando por mais e mais, porque foi assim a minha vida inteira. Como mudar de repente? De fato, não sei…

Algumas coisas são frustrantes e machucam, e sei que sou transparente a ponto de me deixar tocar por pequenos gestos, até mesmo pelos mais simples. Sofro, mas percebi que todos os sentimentos me fazem mais forte, permitindo, por exemplo, a escrita como escape.

Notei também, acima de tudo, que as pessoas ficam em nossas vidas se assim for o desejo delas. Caso contrário, vão embora, o que não quer dizer que somos mais ou menos importantes. Quer dizer apenas que o tempo passou…

Como observo que deixou a porta aberta, saio à francesa, para não fazer barulho. O que falarmos a mais, em minha singela opinião, será excesso.

Arranha-dor

Hoje me rasguei ao meio novamente… Já não é novidade para mim, muito menos para você.

Confundi o doce com o amargo e, em questão de segundos, não consegui mais reconhecer o gosto que penetrava em minha saliva. Mergulhei em mar raso, superficial – inócuo –, que não demorou a adentrar profundezas e terrenos indesejados.

Não queria estar ali, mas você me levou até lá, com sua presença inóspita e seu desafio inadequado… arrastei-me ao porão de suas imundices. E me debulhei em lágrimas.

Pelo dito, pelo não-dito e por todas as dores que ficaram engasgadas em meio à garganta e o coração. Pelo violino que você tocou ao pé dos meus ouvidos, desdenhando ao fato de que ele arranhava notas ao contrário e, com isso, perfurava minha alma.

Preferi me calar… não refutar, afinal, você jamais entenderia. Sussurraria algo ameno para mudar de assunto, porque você só sabe fugir… é apenas isso que você conhece. É tão somente a fuga que te move à vida.

Enquanto brinco de me desmanchar, você finge respirar uma espécie de ar seguro. E seguimos, até que não se lance a voz à imensidão.

Dissabores

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

[Mário Quintana, ‘Confissão’]

Tenho feito mais silêncio que o usual: talvez por perceber que, ao deixar a voz exibir seu ritmo comum, o que reverbera causa estranhamento a quem não reside na morada que habito.

Externar meus desconfortos sem me mostrar arisca é tarefa insana, quase impossível a uma alma rebelde dentro de um corpo em constante repreensão.

A repulsa surge como resposta automática ao espaço do outro – defesa sombria a exageros que me assolam – e, a cada passo turvo, eu me delineio em conflito com aquilo que pensava acreditar até o instante presente…

Confesso: meu repertório está cada vez mais escasso para alcançar a estranha mania que as pessoas têm de palpitar acerca da quietude alheia, julgando conhecer os dramas de quem se aproxima.

Causa-me arrepios a propriedade com que se apoderam daquilo que vai dentro de qualquer ser humano, sem ao menos experimentar de suas paixões, medos, inseguranças, angústias… de seu universo, enfim.

Não é novidade que escutar a pausa que vem de fora – do próximo que está ali, à beira da esquina – pode ter um sabor amargo quando vamos ao encontro de nossas próprias incompreensões.

O espaço branco do silêncio se faz amplo: nele cabe o desgosto de toda uma existência… e mais.