A fratura exposta a minha sombra

Outro dia, pensando acerca do que motiva a escrita de cada um de nós, algumas lembranças me guiaram até os tempos do curso de psicologia, quando o professor de ‘teorias da personalidade’ buscava explicar como o ser humano busca diferentes maneiras de lidar com cada uma de suas vivências.

Segundo ele – embasado à época em teorias psicanalíticas – certos fatos marcantes do cotidiano necessitam ser experenciados em suas profundezas, de modo que se esgotem e o indivíduo possa, a partir de então, elaborá-los com maior facilidade. Assim, uma vez passado o impacto traumático dos acontecimentos, provavelmente se tornaria, também, mais fácil pensar e falar sobre eles.

Recordei também um diálogo que tive há dias com uma amiga escritora-psicanalista – conhecedora da teoria e da prática em sua imensidão –, em que falávamos sobre os simbolismos que os fatores do ambiente agregam às nossas vidas. Ela me fez lembrar de que a teoria psicanalítica tende a tratar os dramas e os infortúnios do homem como algo externo, indireto… é mais ou menos como ser atingido por um raio.

E, nesse sentido, para ela, a escrita inserida no contexto psicanalítico é tratada como sendo um objeto de segurança, uma vez que o indivíduo se aconchega em algo familiar que o leva a escrever, sentindo-se confortável para expor-se. Não é à toa que observamos tantos escritores solitários e que, nesse meio, a depressão seja um objeto tão comum.

Voltando ao ponto inicial de minha reflexão – as motivações da escrita –, penso que necessitamos, sim, lidar com certos conflitos ao longo da vida, seja conforme o olhar das teorias psicanalíticas ou de suas variações. Porém, quando se trata de expor sentimentos e falar do que vai no coração, alguns escritores o fazem ainda melhor quando sua fratura pessoal ainda está exposta… porque, na verdade, ela nunca será elaborada por completo.

Finalizo com outro afago dessa mesma amiga escritora-psicanalista, que – sem sombra de dúvidas – permitiu o entrelace de diversos conceitos anteriormente soltos em meu pensamento…

…”eu, particularmente, acredito que a escrita é experimentar velhos sabores, os da infância, que são insubstituíveis, tanto quanto inesquecíveis. A realidade não nos permite superar tais aromas, mas o imaginário não apenas transcreve, como nos permite, aliado à criatividade, reviver milhares de vezes, como se tivesse acontecido há pouco, porque escrever e ler são atribuições de símbolos, como beber uma xicara de café. Sempre nos leva para dentro, para o conforto da primeira vez.”

*Texto originalmente publicado na Revista Plural Solombra, em abril de 2014, pelo selo artesanal Scenarium. Conheça mais em: http://scenariumplural.wordpress.com/.

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As cartas e sua jornada: mais que premissa, uma ponte

Ao reler as páginas de um tempo não muito distante, observo que sempre tive a honra de ser presenteada com uma espécie de companhia fiel ao meu mundo… que – mesmo nos momentos mais tênues – me possibilitou viajar e ir ao encontro do afeto que eu nem sabia o quanto buscava…

E, ainda hoje, ao me permitir uma pausa ou outra em meio às insanidades do cotidiano, é nesse amuleto que procuro energias para compreender o que, de fato, toca o meu coração. Trata-se das famosas cartas – ou, mais recentemente, também chamadas de missivas –, que eu me lembro de ter escrito desde muito cedo… como uma tentativa de atribuir significado às letras que saltavam diante de meus olhos.

Com cada uma dessas pessoas, eu procurava dividir parte de um universo que tantas vezes me soava como desconhecido e amedrontador, pois o simples fato de compartilhar sentimentos e trocar vivências parecia minimizar, de certa maneira: a angústia exacerbada, a alegria contida, a timidez não explicada, a solidão mal percebida…

Eu me deixei guiar pela intuição natural, que orienta uma criança de cinco anos a divertir-se, escrevendo o próprio nome em um pedaço de papel. Meu passatempo era andar com folha    sulfite, lápis de cor e canetinhas hidrográficas, apenas para ensaiar bilhetes e pequenas cartas… coisas de menina!

Recordo-me também dos papéis de carta… tinha uma coleção inteira, de cores e tamanhos variados. Eram uma verdadeira febre na década de 90! Junto a essa mania, vinham os adesivos – dúzias deles – que serviam de enfeite para as cartas entregues em mãos…

Com o passar do tempo, o material infantil foi substituído por canetas esferográficas, lapiseiras e folhas de fichário… Os escritos se tornaram mais densos, crescendo à medida que as emoções também se afloravam em meu íntimo.

As respostas eram as mais diversas: sorrisos, olhares, abraços… silêncios aconchegantes! Centelhas de vida se acendiam aqui dentro… e cada vez mais eu entendia por que escrever sempre foi – para mim – algo tão significativo…

Talvez muitas dessas missivas nunca foram – nem serão – lidas… talvez permaneçam apenas guardadas em um fundo de gaveta, ou junto à velha cômoda da sala de estar, como lembrança daquela garota que parecia um tanto diferente de todas as outras…

… mas que, no fundo – o tempo todo –, queria apenas ser ela mesma!

*Texto originalmente publicado na Revista Plural “Erótica” – lançada pelo selo artesanal Scenarium, no mês de dezembro de 2014. Mais informações em: scenariumplural@globo.com.

Quando o imaginário emoldura o real…

“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era,
mas acho que já mudei muitas vezes desde então…”

Lewis Carroll

Escrever é um compromisso que assumo comigo há tempos, mas sempre pensei palavras na tela ou na folha, nunca na própria pele, feito tatuagem… Talvez seja por isso que, vez ou outra, eu fique por horas inteiras observando o papel em branco, a imaginar as letras e seu percurso…

Foi como na noite de ontem, em que permaneci olhando para dentro, tendo como horizonte o lado de fora – e me perguntei, em meio aos desconfortos que embalo… onde fica o mundo de Alice? Onde foram parar as fantasias que circundam meu universo e toda aquela leveza que – um dia qualquer – se fez tão próxima a mim?

A personagem a que me refiro acima, “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, sempre simbolizou em meu imaginário uma espécie de possibilidade encantadora… Um caminho para desvendar aquilo que me gerava tamanha recusa em um primeiro momento, pelo fato de o mundo lá fora limitar – quase sempre – o meu espaço a premissas específicas e poucas.

Ler Alice em tempos outros trazia compreensão ao meu coração de garota, ainda que superficialmente, sobre por que eu teimava em impor barreiras e empecilhos mil aos meus voos, sendo que havia tanto a gritar… tanto por fazer… tanto para ser!

A impressão que eu tinha era de que Alice, apesar do medo que sentia, não se furtava a percorrer seus infinitos labirintos. Ela queria, de qualquer modo, saber o que havia do outro lado. Arriscou-se a tecer diálogos com seres que lhe transmitiram estranheza em um primeiro momento, mas que depois se tornaram seus grandes parceiros de desafios.

Guiando minha perspectiva um pouco para trás, sinto que transitei a vida toda seguindo os passos de Alice. Quis ter sua ousadia. Sua audácia. Um jeito desajeitado, uma confiança desconfiada de si mesma, do outro e do ambiente que a cerca, mas que não abdica nunca de ouvir e atender a própria intuição.

Hoje, olho atenta para Alice e sinto que ela também me observa de volta. Espera um pouco mais do meu pulsar. Quer que eu desabroche as lições que, na teoria, pareço ter tomado para mim ao observá-la… Em muitos momentos, sinto o desejo genuíno de tirar as histórias do papel e finalmente vivenciá-las. Desprender o sentimento da ilusão e torná-lo palpável…

… mas, será que há mesmo uma fiel separação entre imaginário e realidade? E onde fica, afinal, o meu tão sonhado mundo de Alice em meio a esta trama?

Eis que, ao fechar os olhos por um segundo, descubro-me inteira como nunca antes me senti. Respiro profundamente e sinto o real e o ilusório juntos, caminhando de mãos dadas em meu íntimo, como se deles dependesse toda a estrutura do meu libertar… É na essência que vive Alice. E foi lá, também, que eu me permiti começar a viver…

*Este texto é parte integrante da edição da Revista Plural de agosto, “O mundo de Alice”, publicada em formato artesanal pela Scenarium Plural, em exemplares numerados de 0 a 100 – para adquirir, basta solicitar pelo e-mail scenariumplural@globo.com.

A poesia que se lê hoje em dia…

Já deixou de ser novidade que o mundo gira de maneira cada vez mais veloz e, em incontáveis momentos, o ser humano se vê atropelado por seus próprios passos.

Não raro, isso acontece até mesmo sem querer: planejamos aquela leitura tão esperada, o passeio diferente em família, encontrar um amigo que não vemos há meses e… num piscar de olhos, tudo o que havia sido programado vai por água abaixo.

O que ocorre não é falta de vontade, nem displicência: o tempo simplesmente escorre pelas nossas mãos, fazendo com que compromissos de trabalho, reuniões urgentes e imprevistos de última hora se sobressaiam em relação aos demais itens da rotina. Perdemos a noção de prazos e, uma vez que tudo se tornou tão urgente, fica difícil priorizar ou fazer escolhas.

Em meio a essa reflexão, eu me pego pensando na poesia. Sim, na poesia! Não aquela rebuscada, que se diz feita para literatos. A poesia nossa, de cada dia…

Quando foi a última vez em que você se permitiu pegar um livro aleatório em sua estante e ler — para si mesmo — um punhado de versos? Ou entrou em certa livraria, despretensiosamente, e passou alguns instantes degustando estrofes?

Garanto que, mesmo que você seja amante de leitura, poucas vezes oferece a si mesmo esse deleite. Talvez opte por comprar os novos títulos dos seus autores preferidos logo que são lançados, até mesmo pela internet — o que acaba por tirar um pouco do prazer visual que antecede a aquisição de um bem tão subjetivo como é o livro.

Em um panorama de velocidade, dinamismo e impaciência, nós — indivíduos vorazes — raramente nos damos ao luxo de parar por um instante e apreciar a beleza que o poético oferece.

Não há pausas. É preciso produzir, caminhar, seguir, trabalhar, agir. Ler? De preferência, se for algo voltado a trabalho — e rápido. Não temos tempo a perder. Mas, com isso, quanto será que também deixamos de ganhar?

A poesia compete com a televisão, com o computador, com os smartphones e, por que não dizer, com o próprio sono, que anda escasso para os humanos que se inserem na sociedade de hoje em dia. Por que ler poesia se posso usar esse tempo para dormir? É triste, mas é real.

O que me conforta e se faz um alento para a alma é saber que têm sido lançadas, recentemente, coleções com a obra poética de grandes nomes da literatura brasileira e internacional. Livros de cabeceira, quase verdadeiras enciclopédias, para quem tem olhos de ver. De sentir. De se permitir encantar.

Além disso, talvez a poesia ainda esteja a salvo em saraus, rodas de leitura, peças de teatro e, principalmente, nas mãos daqueles que separam um pequeno espaço de suas vidas — tão corriqueiras e atribuladas – para ler e escrever versos.

A poesia anda escondida em algum canto por aí nos dias de hoje… Quem se puser a encontrá-la, certamente terá um tesouro inestimável nas mãos.

*Texto escrito e publicado originalmente na Revista Plural – edição ‘Cafeína na veia’/março de 2014, que pode ser lida em www.pluralrevista.blogspot.com.