Em (pura) conexão…

Gosto quando você chega em tom de prosa-missiva-dúvida-ousadia pontuando os meus silêncios… Das horas em que insiste naquilo que há tempos deixei para trás, mesmo já me prevendo tão incerta, porque sabe que o resultado final vale a pena.

Gosto daqueles instantes em que você sussurra a verdade ensurdecedora escondida pelos outros, mas que sua alma não possui motivo algum para negar… Do momento único – transparente – no qual não preciso ser nada além daquilo que aparento diante de seus olhos, pois isso te basta… e só.

Gosto quando necessito me despir de minhas fragilidades e, naquele mesmo segundo, você me empresta suas vestes de força… na teimosia silenciosa e sábia de que um dia elas se adequem a mim!

Enfim… gosto do que imagino e sinto ao desanuviar os dias através da leveza que emana de suas palavras, que nem sempre têm um objeto específico… mas o tempo todo adentram diretamente o meu coração…

Desenhando borboletas no céu…

Não sei dizer se ela é um personagem dentro de uma história, ou uma história inteira inserida em um personagem…

Só posso afirmar – sem dúvida – que, desde que passei a espreitá-la, bem do canto da minha janela, a vida se tornou mais doce. A existência ganhou alguma espécie de cor, em constante mutação!

Ela desenha borboletas nos meus sonhos diurnos e agrega singeleza às realidades que surgem pela madrugada…

Não há tempo no seu espaço, nem distância no seu tamanho: ela é e existe desde sempre – para sempre –, em um ideal apaixonado por essência.

Cada mínima letra é escrita por mim com o maior cuidado do mundo, pois sei que passará pelos olhos iluminados dela… esse poema que escolheu nascer em pétalas de flor e se espalhar em sutileza mágica-concreta-sublime por onde passa…

Ainda que nossos olhos não a toquem, sua presença se faz certeira em abraços que percorrem os caminhos feito pólen dentro de um jardim em constante primavera.

A suave brisa de suas palavras emana uma pureza tão surreal que o coração se pergunta se aquilo tudo é mesmo verdade… Pode existir alguém intenso-sereno-observador-fantástico assim?

Os dias de maio…

Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.

| Carlos Drummond de Andrade, in ‘A Falta que Ama’ |

Maio chegou até mim oferecendo uma xícara de chá de hibiscos… me fez o convite a sentir o prazer das coisas esquecidas – com uma calma incomum, rara…

Virei a página do calendário, deparando-me com este mês e seu leque de possibilidades… preencher de música o ambiente, de modo a distrair a alma de seus deslizes incontidos… passar os olhos sobre as centenas de livros guardados na estante e trazê-los ao agora, ao hoje que me resta…

Maio é este conjunto de dias sem grandes premissas em meu íntimo, mas que – a despeito disso – consegue inserir em sua passagem uma leveza… um carisma… uma despretensiosidade inexistente em qualquer outro mês.

Parece-me como um período de revigorar energias, repensar conceitos e, justamente por esse fato, tudo pode acontecer… ou não!

Sento-me aqui, diante da tela em branco, a praticar o exercício que mais me tem sido comum nos últimos dias: observar o ar entrando e saindo de meus pulmões… perceber que a vida é um sopro que cabe na palma de nossas mãos e – por tal fragilidade – pode se esvair dentro do instante presente…

Palpite…

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

| Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas” |

Não espero mais até o dia em que as ondas deste imenso mar irão me engolir por completo… sinto-me desalojada de minha própria pele, onde já não cabem as vestes de uma alma partida ao meio – próxima a desabar.

Vivo o agora em suas repetições desarmônicas, enquanto ecos inúmeros reverberam em meu íntimo; histórias… amores… desilusões… toda uma existência gravada no filme da memória, perpassando minha mente em questão de segundos.

O tempo toma minhas mãos como se esta fosse a primeira vez… mas, embora exista recusa em acreditar, a intuição me conta: passei por aqui muito antes…

Vozes…

Fecho meus olhos… sorvo o último gole de café que restou na xícara e deixo que o coração me conduza à realidade onde há vozes que ferem o ponto invisível desta trama, dilacerando friamente o que antes se mostrava regenerado. Incólume.

Vou ao chão, enquanto observo desordens massacrantes invadirem meus poros, sem brechas. Sem restar aquela que um dia eu fui…

Burburinhos atropelam meus vícios… entontecem meus extremos – como se estes já não fossem densos o suficiente no íntimo desta vida em que busco existir. São barulhos inatingíveis, que talvez nunca cessem…

Provavelmente apenas cheguem assim – de solavanco – a me espancar com verdades ingratas-amargas-surradas…

Quanto mais vozes ouço, mais facilmente ensurdeço, e tão maior se torna a saudade do antigo silêncio de mim… dessa pausa amiga, que não agride… dessa graciosa aliança entre lábios meus.

Aniversariar…

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles

Seria um tanto insensato dizer que não me prendo a certos marcos do calendário… Essas datas, de algum modo, delineiam a minha existência e concedem uma entonação concreta ao cotidiano.

As lembranças inscritas no pergaminho da história que construo me fazem pisar em solo firme e estar atenta a uma realidade nem sempre digesta a um primeiro olhar… mas, acima de tudo, reconhecer-me em minha própria pele.

São dias meus… vividos intensa e exclusivamente por meu corpo, por minha alma. Cicatrizes imersas em uma trama inegável – intransferível. Muitos podem querer traduzir-entender-julgar-conhecer, numa tentativa falível de ‘existir pelo outro’…

Contudo, não é preciso ser demasiadamente sábio para compreender que cada coração possui a sua própria marcha… um ritmo intrínseco a si – jamais exposto. Bastante atenuado perto do que – de fato – existe do lado de dentro.

Hoje completo mais um ciclo de memórias. Vivências outonais se fecham diante de minha janela, trazendo novos olhares…

Quais serão eles? Talvez ainda seja cedo para supor, mas… o meu maior desejo é de continuidade. Permanecer no caminho que escolhi sem dar por mim e que, por intuição, levou-me ao lugar mais próximo de minha essência, até o instante presente.

Ser fiel ao sonho… Aniversariar não só hoje, mas todos os dias, em um contínuo fluxo de renovação.

Do que não se diz…

Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.

[ Franz Kafka ]

Hoje não vim falar de suas letras perenes, nem da sagacidade que emana de cada um de seus gestos… Escrevo este punhado de frases – ligeiramente tortas, meio sem jeito – porque algo maior desencadeia uma profunda gratidão em mim:

…o seu silêncio.

Uma quietude que abranda minha própria voz, fazendo com que eu me ouça com a devida atenção, antes de deixar que a ansiedade conduza a palavra seguinte.

Aquela leve pausa para que o sentimento verdadeiro se expresse, sem amarras… isento dos véus ferozes que a rotina exige.

Um cerrar de lábios que não se faz rude… muito pelo contrário: é terno… suave como uma brisa que chega ao olhar para trazer conforto, oferecendo ares de sossego.

Tranquilidade misteriosa imersa em sensatez, como se nela tudo coubesse… como se dentro de sua mente todas as viagens fossem possíveis, em questão de segundos…

Ao mesmo tempo, falo aqui de um silêncio que não agrega nenhuma espécie de julgamento ou dedos em riste… Há tão somente a discrição de ser quem se é.

Admiro a sabedoria com que sua alma repousa a fala em um comedimento que não arrebata. Não invade, nem ameaça… apenas nos faz pensar. Ponderar o instante.

Olhar para dentro… esta tarefa insana que a vida já te ensinou há algum tempo, e que você – com sapiência e ternura – não se furta a dividir com quem caminha ao lado.

Através das palavras chegamos até a sua figura, é certo… Mas é pela breve ausência delas que você nos permite conhecer… e (re)construir.

A fratura exposta a minha sombra

Outro dia, pensando acerca do que motiva a escrita de cada um de nós, algumas lembranças me guiaram até os tempos do curso de psicologia, quando o professor de ‘teorias da personalidade’ buscava explicar como o ser humano busca diferentes maneiras de lidar com cada uma de suas vivências.

Segundo ele – embasado à época em teorias psicanalíticas – certos fatos marcantes do cotidiano necessitam ser experenciados em suas profundezas, de modo que se esgotem e o indivíduo possa, a partir de então, elaborá-los com maior facilidade. Assim, uma vez passado o impacto traumático dos acontecimentos, provavelmente se tornaria, também, mais fácil pensar e falar sobre eles.

Recordei também um diálogo que tive há dias com uma amiga escritora-psicanalista – conhecedora da teoria e da prática em sua imensidão –, em que falávamos sobre os simbolismos que os fatores do ambiente agregam às nossas vidas. Ela me fez lembrar de que a teoria psicanalítica tende a tratar os dramas e os infortúnios do homem como algo externo, indireto… é mais ou menos como ser atingido por um raio.

E, nesse sentido, para ela, a escrita inserida no contexto psicanalítico é tratada como sendo um objeto de segurança, uma vez que o indivíduo se aconchega em algo familiar que o leva a escrever, sentindo-se confortável para expor-se. Não é à toa que observamos tantos escritores solitários e que, nesse meio, a depressão seja um objeto tão comum.

Voltando ao ponto inicial de minha reflexão – as motivações da escrita –, penso que necessitamos, sim, lidar com certos conflitos ao longo da vida, seja conforme o olhar das teorias psicanalíticas ou de suas variações. Porém, quando se trata de expor sentimentos e falar do que vai no coração, alguns escritores o fazem ainda melhor quando sua fratura pessoal ainda está exposta… porque, na verdade, ela nunca será elaborada por completo.

Finalizo com outro afago dessa mesma amiga escritora-psicanalista, que – sem sombra de dúvidas – permitiu o entrelace de diversos conceitos anteriormente soltos em meu pensamento…

…”eu, particularmente, acredito que a escrita é experimentar velhos sabores, os da infância, que são insubstituíveis, tanto quanto inesquecíveis. A realidade não nos permite superar tais aromas, mas o imaginário não apenas transcreve, como nos permite, aliado à criatividade, reviver milhares de vezes, como se tivesse acontecido há pouco, porque escrever e ler são atribuições de símbolos, como beber uma xicara de café. Sempre nos leva para dentro, para o conforto da primeira vez.”

*Texto originalmente publicado na Revista Plural Solombra, em abril de 2014, pelo selo artesanal Scenarium. Conheça mais em: http://scenariumplural.wordpress.com/.

A literatura que sou…

Humildemente – e com certo traço de constrangimento, é claro – confesso que tentei engatar a leitura de três ou quatro livros diferentes dentro do último mês… todos eles devidamente escolhidos e comprados por mim, com estilos diferentes e propostas outras.

Porém, em determinado instante – lá pela página 30 –, algo parecia desandar, fazendo com que o estímulo inicial fosse deixado de lado. No início, imaginei ser um problema relacionado à minha distração ou, quem sabe, a uma falta de afinidade com o tema tratado naquelas páginas… Contudo, à medida que fui abandonando um título após o outro – sem o menor sinal de insistência – pude iniciar um diálogo interior que redefiniu, de certo modo, o rumo de minhas reflexões.

Tenho buscado, cada vez mais, criar e me identificar com um estilo próprio de escrita. Entendo que se trata de um modelo que se constrói – por vezes – durante uma vida inteira, mas no dia a dia venho me aproximando daquilo que acredito ser o meu “ideal de palavra”: o que gosto de ver escrito por mim no papel, pois reflete muito do que sou. E, nesse sentido, também, penso que se delineia o meu construto de leitura.

Se, atualmente, tenho o hábito de escrever crônicas mais intimistas – que retratam minha alma e pensamento por meio de fatos do cotidiano –, é bem provável que deseje realizar leituras compatíveis a essa estrutura. Isso não exclui a possibilidade de degustar romances, contos, novelas e outras histórias de ficção, mas enquanto me negar à busca daquilo que se faz congruente ao meu sentir, será – de fato – muito difícil terminar qualquer livro que seja…

Vou ali até a estante, então, resgatar meu precioso Rubem Alves, que sempre me aguarda com seus braços abertos e ensinamentos singulares, para que eu não me perca de vista, mesmo me desencontrando tantas vezes por aí…

Boa sorte na sua vida.

Humildemente confesso que, nem em meus maiores pesadelos, esperei ouvir essa frase rude-seca-concreta de você, que pareceu arremesar contra minha testa um enorme tijolo, sem me permitir qualquer espécie de proteção.

Eu já havia testado todos os seus limites, isso é certo. Bati a porta na sua cara, sumi sem dar notícias, mudei até mesmo de endereço sem deixar o menor sinal de vida…

Desejava provar – ao menos uma vez – o sabor insólito da inconsequência… o verbo solto… A possibilidade de cutucar a ferida sem que ela sangrasse. O típico risco sem danos no final.

Mas as cortinas se fecharam antes mesmo do espetáculo terminar… e eu nem vi o público se levantar das poltronas. Não observei aplausos. Fui retirada do meu lugar de vítima-adolescente-mimada, tendo que – num sopro – assumir a direção do (meu) mundo. Que mundo?

Do modo mais ríspido, aprendi que certas chances se esgotam antes mesmo de notarmos que elas estavam ali – o tempo todo – disponíveis para nós. Enxergamos tão pouco… Somos frívolos demais quando o poder se apresenta próximo de nossas mãos.

Boa sorte, foi o que restou de tudo o que eu tinha. E nem isso parecia ser de verdade quando meus olhos se cerraram para não ver a morte chegar.