Eu, sabática em mim…

“Comprei um espelho enorme. Acho que nunca tive um espelho tão grande. Consigo me ver inteira.” 

Li o trecho acima no blog da Dora, em plena manhã nublada de segunda-feira, e – inesperadamente – ele conseguiu traduzir muito do que estava borbulhando nos entremeios da minha alma… o texto do qual a frase faz parte falava de um assunto que não tinha relação alguma com o gatilho disparado em mim. Mas é comum a gente procurar uma coisa e acabar achando outra.

Já faz algum tempo que os fatos não se dão de maneira igual por aqui… eu não comprei um espelho novo de verdade, mas tenho me oferecido de presente pequenos feitos simbólicos que puderam – pouco a pouco – modificar o rumo dos acontecimentos.

E, do mesmo jeito que “mudaram as estações”, há algumas que já não me bastam mais. Deixo de me conformar com o simples bater das horas, sem que o sentir estale em meu coração. O desgaste me exaure, o estresse me faz abominar a loucura dos dias… é preciso uma pausa!

Hoje, diante desta preguiça que me parece maior que o universo… de uma inércia que me soa tão indesejada, quando começo a listar as mil coisas que tenho para fazer… enfim, constato: quero e preciso de um tempo sabático. Segundos… minutos… dias… meses, apenas para mim. Eu, meu universo e a solidão – nada egoísta – de tão somente existir.

Não sei ao certo como seria possível viabilizar esse tempo, já que o mundo real nos demanda olhos abertos, coração pulsante e – tantas e tantas vezes – abdicar de sonhos momentâneos pela sobrevivência a médio prazo. Mas, nem por isso, deixo de lado a vontade latente que arde em meu peito.

Alimento o ímpeto de estar – agora mesmo, e sempre que possível – em um local ameno, tranquilo, com minha xícara de café e meus livros… talvez caderno e caneta ao alcance das mãos, tela do Word em branco… para que as ideias não se percam por um momento sequer, flutuando do imaginário ao real em questão de um rompante. Sem compromisso com o fim.

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O meu outono…

Existem pessoas que – não importa quanto tempo passe – acabam por ganhar o significado de verdadeiras estações em nossa alma…

Eu poderia falar do ser-primavera, que me encantou desde o primeiro instante… ou da menina-inverno, que nunca me negou um sorriso, até mesmo em seus dias mais frios. Poderia também contar sobre o senhor-verão, memória constante em devaneios, estejam meus olhos abertos ou fechados.

Contudo, nesta tarde amena – em que as horas se alongam e eu sinto os pensamentos voarem, distantes… –, o coração aponta para um certo outono de mim. Para alguém que já perpassou outras temperaturas e nuances… mas que semeou características muito suas – únicas – em meu peito.

O meu outono é atemporal-arredio-avesso… Não o consagro como uma estação das mais fáceis e convidativas, ainda que se mostre tão suave-sedutor em suas feições.

Chega sem avisar – bagunça todos os meus espaços – e me guia a um percurso (quase) sem volta, desprovido de sentidos racionais… Junto ao meu outono, quem se faz comandar é apenas uma espécie de emoção fulgaz, anteriormente jogada às traças, recompondo-se para buscar qualquer coisa de abrigo.

Adentro o sótão de suas folhas caídas, amassadas… jogadas ao léu! Busco o colorido que se sobreponha aos rasgos deixados pelo suor dos anos… recolho os cacos de seu coração notoriamente partido e, finalmente, eu o aceito como morada.

Somos apenas dois, agora… o meu outono e eu, nesta trilha que nem sempre surge serena em seus passos. Mas caminho com ele, na tentativa de não sucumbir ao medo: deixando que as cicatrizes se fechem, uma vez mais… até que estejamos prontos, muito em breve, para a próxima estação.

Enquanto a alma permanece em suspenso…

“E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.”

| Ana Jácomo |

Rasguei minhas vestes diante de ti – como se de fato não houvesse uma parede branca entre nós –, à procura de um alento que abrandasse o eco de minhas ilusões…

Saí pelas ruas a esmo e me expus ao sol, sem atentar para o ardor de seus raios, pois precisava me sentir viva… e o simples fato de notar a pele se desmanchando em calor – pela alta temperatura – já foi o suficiente para me chamar de volta para mim.

Talvez pelo fato de notar que já me sabes antes mesmo de nascerem minhas próprias intuições, caminho em tua direção sem fazer uso das máscaras que costumam percorrer meus entremeios… Sou o que sou e… diante da naturalidade de teus gestos, consigo compreender o que as vozes aqui dentro me dizem.

É como se as ideias pudessem se clarear e as muitas facetas em mim coexistissem, sem medo… Hoje me despi porque precisava… o grito não nasceu para permanecer em meu íntimo e encontrei em teu silêncio uma maneira de sobrevivência aos meus impulsos mais genuínos.

Ancoro meu sonho na tua realidade… e caminho melhor desde então!

Das sensações que me invadem…

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in “Odes”
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Gosto do sentimento que nasce enquanto percorro as ruas temperadas por um clima ameno, tão ou mais familiar que minha própria alma…

Decerto, o desejo era estar absorta no aconchego do meu apartamento, mas uma vez que isso não é possível, busco apreciar as paisagens que tocam gradativamente o olhar.

Não há quase pessoas em volta; é como se a vinda de uma leve garoa e do tempo aparentemente fresco tivesse levado cada um para dentro de seu próprio casulo

Temperaturas mais frias combinam com tardes enroladas no edredon, filme antigo passando na TV, pipoca, livros espalhados pela cama, chá de frutas silvestres e, claro, um bloco de notas repousado sobre o criado-mudo, para quando a inspiração vier…

A impressão que tenho é de que cada uma dessas delícias insiste em fazer morada em meu íntimo, levando-me a crer que, enquanto o corpo caminha entre as esquinas e desvia a atenção para fora, a alma já está em algum lugar bem distante daqui, olhando preferencialmente para dentro…

Usufruo o deleite de não precisar apressar o passo. O andar se faz sereno e eu levo meu copo de café nas mãos, como se estivesse envolta por uma paisagem europeia, rústica – em que as folhas caem da árvore e conversam longamente com o asfalto urbano…

Talvez seja muita pretensão de minha parte afirmar que o clima tornou a a ser nosso amigo e se manterá assim pelos próximos dias, mas não posso negar que tal afirmação compõe uma das minhas vontades mais sinceras…

É como disse uma grande amiga minha: desde o último sábado, quando a temperatura decidiu oferecer sua trégua, eu me enclausurei em meus espaços, quase como uma velhinha inglesa que apenas deseja degustar sua xícara de chá… Afinal, para que eu desejaria mais?

Aprecio muito quando as horas oferecem o melhor de si em minha direção.

E, ultimamente, tudo o que também almejo é me demorar suficientemente em cada uma delas