Doce afinidade…

Ontem você me encontrou no meio da rua e me trouxe de volta pra casa. Eu te pedi apenas um grão de areia, um pedaço de chão… mas você me ofereceu em retorno um território inteiro de lembranças e saudades.

Foi como estar dentro do abraço de antes, ao qual nunca deixei de pertencer, metade-inteira-fraqueza-inquietante…

Você sempre me soube, e ontem não foi diferente… Aquela mesma figura afetuosa adentrou minha alma com seus olhos de raio-x, oferecendo respostas àquilo que eu nem havia perguntado, e silenciando cada uma de minhas insistentes e levianas dúvidas…

Uma doçura mesclada com imponência perfaz as metáforas do seu caminho, e diante dessa singeleza me reverencio, pois foram seus gestos tênues que plantaram em mim a semente da realidade, elemento sempre tão frágil aos meus olhos…

Hoje o dia amanheceu mais claro, e mais bonito também… Confesso: estava com enorme saudade de enxergar a vida assim!

Quando você vem me encontrar outra vez?

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Viver: verbo infinitivo

Não faz muito tempo… foi ontem! Conversávamos na cozinha durante um processo lúdico de edição, que invariavelmente se desdobrava em terapia, para minha sorte… O riso corria solto sempre que eu me deparava com o verbo em sua forma infinitiva: bastante frequente ao idioma falado em Portugal e, portanto, familiar a você, que residiu em Coimbra por um longo período…

Talvez seja usual a nós, seres humanos, o estranhamento diante daquilo que nos parece diferente, distante… incomum! Preferimos nos afastar a chegar mais perto e entender do que se trata… encarar uma mudança… confrontar o que se mostra habitual em nossa rotina.

Aconteceu desse modo comigo, quando fui desafiada a questionar os meus gerundismos – já tão incorporados ao dia a dia –, e me permitir trocá-los, aos poucos, por alguns infinitivos… De início, apenas para fazer graça! Logo em seguida, porque achei bonito, imponente… e, por fim, ao entender o sentido de substituir ações aparentemente intermináveis por verbos lineares e pontuais… de firme impacto em meu íntimo.

Foi assim que pude notar que – por um longo tempo, antes de te conhecer – “estive fazendo” coisas, sem comprometimento com as pessoas, situações ou comigo mesma… E sua presença organizou certos espaços, para que eu me dispusesse a enxergar a existência com outros olhos… com a leveza de quem pode estar em continuidade sem carregar pesos que não lhe pertencem mais.

E, a cada manhã, viver torna-se verbo infinitivo no instante em que o sol nasce em minha janela…

Missiva per te…

Minha caríssima L.,

Escrevo-te diante desta tarde nublada em minha janela, na tentativa afoita de abrandar algumas desordenadas vozes que têm conversado comigo ao longo dos últimos dias… A temperatura lá fora parece amena – já não sinto mais aquele calor escaldante que faz arder a pele –, mas… confesso a você, sem medo: é como se num repente tudo estivesse do lado avesso, provocando calafrios constantes em meu peito. Adentra-me uma ansiedade desassossegada e, mesmo buscando mil maneiras para acalmá-la, permaneço em constante estado de assombro… Penso, pois, que meu último lance certeiro seja debulhar palavras em direção à presença que mais me traz confiança hoje: justamente, a sua.

No princípio, acreditei que meu olhar estivesse demasiadamente vertido para o lado de dentro. Isso poderia me impedir, decerto, de olhar as rosas que brotam e cada semente… as plantas estonteantes crescendo no jardim… os pássaros que visitam a varanda, ao cair da tarde… as presenças humanas que – por mais exaustivas que sejam – nutrem o meu sentir observativo diante do mundo… Sim, busquei sair de mim… Esvaziar-me de uma angústia que me trazia apenas para o coração, para a alma, sem que eu ao menos soubesse o significado dessas duas instâncias. Mas… sabe? Pouco adiantou… Nada, talvez!

O que encontrei fora? Um mundo vasto em crueldade, criado por minhas próprias expectativas e ilusões. Assustei-me com o que vi, e não teria como ser diferente. Em minha inocente maculação – já com perversas nuances de fuga –, jamais permitir abrir meu casulo por completo. Como poderia o universo me receber, se as portas estavam entreabertas? Poucos passariam por lá… pouquíssimos. Você passou, é verdade… Segue a passar, com um brilhantismo ímpar. Não sei até quando será uma das poucas ruínas sustentáveis do meu castelo, mas… por ora, faz-se visivelmente plena e repleta de vida.

Vida… palavra escassa, desde que o sol nasce até o adormecer de minha íris. Sabe que mal tenho aberto a janela? Falta-me o desejo de saber o que se passa ali na esquina… Disse que está ameno porque alguém que veio da rua me contou. Mas a verdade é que o entusiasmo – aquele meu velho conhecido – que costumava permanecer aqui para me fazer companhia e deixar a solidão no esquecimento –, foi-se… não maquio mais os dias, já que cada hora passa hoje sem me perguntar onde é que estou…

Poderia falar dos livros que insisto em ler, apesar da fadiga e de um cansaço descomunal… Dos escritos que escorrem de minha pele e que me mantêm a salvo… Dos projetos que aparentemente têm seu começo, meio e fim e, portanto, poderiam manter algum pensamento em linha reta.

Mas… tudo isso você já sabe, não é mesmo? Aliás… suponho que você saiba de muita coisa! Nossos silêncios se conversam, para além do tempo, dos diálogos e de toda possibilidade de inspiração.

Em cada novo abraço, minha alma toca a sua, um pouco mais.

Grazie per tutti.

Tenha uma linda tarde…

T.

Sombra-luz…

‘Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável.

| Maria do Rosário Pedreira |

Ela me ensinou que certos encantamentos nasceram para durar bem mais que uma simples estação… Ressignificou a vida – organizando espaços dentro e fora de mim – e, sem precisar ser outra, tomou emprestadas algumas de minhas crenças, para devolvê-las mais sólidas e seguras de si.

Ajudou-me a retornar a um terreno antes temeroso e íngreme e, com tintas próprias, mostrou como se desenha um caminho fiel à alma… ao corpo… enfim, a este complexo conjunto que somos.

Distribuiu seu afeto sincero e me tomou pelas mãos, tal como quem colhe flores em um jardim de inverno: com cuidado e tolerância, para não feri-las em sua essência…

Ela é absurdo-ousadia-tentativa-singularidade. É o meu oposto mais espelhado – o meu igual mais agudo – aquela que quero ser quando crescer, na próxima encarnação (porque, nesta, não me importo em deixar todos os atributos para ela)…

Ao seu lado, não me sinto menos nem mais: posso ser humana e construir os sonhos que meus olhos vislumbram, sem medo de que sejam vistos como errados ou mal interpretados.

E, não importa quantas vezes eu falhe… desconstrua… mude de ideia, de vestimenta ou de país: tenho seu sorriso verdadeiro para recolher todas as peças do chão, e montar meu quebra-cabeças outra vez…

Diálogos de uma nota só…

Ao longo de uma vida inteira, penso que me acostumei a tecer diálogos durante horas a fio, na companhia do outro já conhecido, com quem desnudava minha alma… às vezes, sentada em um café ou outro lugar qualquer, imerso em tranquilidade. 

Detalhe por detalhe… treinei a expressão de minhas angústias e ansiedades. Muito do que eu sabia, ou que ainda se mostrava inconsciente em mim – de repente, como num sopro – vinha à tona… perante ouvidos que se ofereciam atentos, acolhedores e munidos de respostas, mesmo que paliativas, para as mais alucinantes dores.

Em paralelo, ali também se mostrava um tempo de escutar. De se fazer presença. Receber o que surgia do outro lado, sem pré-julgamentos, evitando atropelar falas ou querer emitir opiniões que não haviam sido solicitadas… Um aprendizado mútuo e contínuo, que se dava pelo singelo exercício de ser humano.

Seja pela velocidade cotidiana ou pela obrigatoriedade das tarefas diárias, o passar dos anos tornou escasso esses diálogos. Alguns amigos se mudaram de cidade, país… muitos se casaram, tiveram filhos! Certas relações que eu tinha como “amizades” se findaram, evidenciando as chegadas e partidas da vida com ainda maior precisão…

Gosto de pensar que não deixei as trocas de lado: tão somente precisei me adequar às demandas que a rotina impõe – e que me são vitais… embora não seja nem um pouco fácil me adaptar a esses novos ventos.

Em determinado momento, senti que as conversas mudaram de tom… e hoje tenho aquilo a que carinhosamente chamo de diálogo de uma nota só. Por vezes, uma única palavra – simples – é capaz de despertar todo um universo em meu íntimo…

Já não se faz necessário ter horas inteiras de conversas para preencher o vazio, pois o potencial de um olhar, em alguns instantes, realiza a conexão essencial entre almas afins.

Pela atitude, e nem sempre apenas pelo discurso, o outro me toma pelas mãos, conduzindo-me a enfrentar o desconhecido – que a ele não se faz tão assustador assim – amansando possibilidades.