Lilás

Penso em ti quando a noite me abraça e tua aura me narra segredos do que ainda não sei. Sinto em mim a dúvida que, em vez de machucar, traz afago ao meu coração…

Tua presença-intensidade entrega-me novas chaves para abrir portas antigas… e já não me incomodam as respostas acompanhadas de pontos de interrogação.

Levo meu peito próximo ao teu se a vida pesa e – como num passe de mágica – a dor se transforma em dia seguinte, deixando para o hoje apenas o que restou de um riso largo, despretensioso de nós…

Ainda não aprendi a juntar – por conta própria – os cacos deixados pelo caminho… eles são tantos que me cansam!

Mas, ao teu lado, descobri que é possível fazer um intervalo e, em meio a essa trilha, também colher flores! Hoje mesmo, pela manhã, fui presenteada com uma linda hortênsia lilás.

Vês? Guardei para ti…

Em linha reta…

Quero-te como a brisa do mar que me consome: perene… porém, perfeita em seus movimentos de tocar o céu.

Quero-te como antes não conheci o desejo em minh’alma, já que os ventos eram recusos e o tempo se fazia tardio.

Com meu feitio de pressa quero-te sempre e nunca, em compasso de espera, até que cada noite se mostre infinita em meio ao nosso sentir.

Não te desejo ilusão, nem te quero fogo que não arde: busco a luz possível entre o espaço deixado na imensidão de nós dois.

Vem?

Ele…

Foi para aquele garoto que guardei o sorriso mais ousado que já ofereci a alguém. Talvez ele não saiba, mas ao seu lado me tornei quem, até então, eu não acreditava ser – passando de espectro a figura palpável – e encontrei um lugar que me coubesse, preenchendo os espaços…

Ao seu lado, pude caminhar sem as mãos nos bolsos e deixei a timidez para depois… para um instante qualquer, que não voltou mais. Ele me mostrou que autoconfiança é nome e sobrenome de quem conhece a terra árida da solidão e, portanto, não havia o que temer.

Ele se tornou parte do meu universo e – em alguns instantes – o mundo inteiro, também. Cicatrizou marcas agudas de tristeza e dor, trazendo-me de volta ao lugar de onde eu nunca quis sair: à essência de mim. Ele é o romance que surgiu do gosto amargo das sombras, e provou que nada – nada – pode sucumbir a um sentimento sincero de viver… de querer ser feliz.

O menino dos meus olhos se chama coração e cada pedido seu é uma ordem em meu sentir. Entrou sem pedir licença e, para ele, guardei minha palavra aberta, meu abraço mais apertado: um nó que não se desfaz por pouco, um enlace que se permitiu criar por bem…

Não posso assegurar que – quando a lua partir e o sol se puser outra vez – estaremos aqui, ainda juntos, neste ciclo que tanto me afeta-desperta-reaviva…

Só sei que hoje – em minha alma – amor é lugar seguro para andar em paz.

Entrelace

Minha cara C.,

Talvez você não saiba, mas o instante que vivenciamos na noite de ontem está – nas prateleiras da minha alma – entre os mais significativos dos últimos tempos…

O nosso breve diálogo, envolto em densas linhas de carinho e compreensão, não foi apenas a chave necessária para abrir uma porta que se fazia pesada demais para mim – sozinha –, como também providenciou um encontro diferenciado entre nós.

Pela primeira vez, após tantos anos, pude segurar em sua mão… sem medo de provocar decepções, angústias ou uma desilusão fácil. Estranhamente, eu me senti fortalecida o bastante para entender que – ainda que doesse –, seus olhos se voltariam aos meus em sinal de afeto. De uma cumplicidade que nunca se quebrou.

Percebi que evitar você – até aquele presente instante – havia sido uma fuga de mim mesma, pois o seu lugar foi o mesmo… o tempo todo! Suas mãos jamais deixaram de ser quentes… sua perspectiva nunca abdicou de ser doce… seus ensinamentos me fizeram ser melhor.

Eu queria muito ter o dom de compreender o que virá no dia depois de amanhã, já que hoje estamos aqui… e até o próximo amanhecer penso que será muito cedo para desistir, agora que tenho você…

Deixo-te um beijo com a promessa de que a vontade existe. Você sabe que nunca fui boa de promessas… mas, dessa vez, não precisa duvidar…

Com todo meu carinho,

T.

Quando a vida me escapa entre os dedos…

“Porque os dias sem ela que virão não fazem sentido para mim. Eu não serei capaz de enxergá-los sem ela. E mesmo agora, que a amparo, que quase a carrego, sei que é ela quem me ampara e é ela quem me carrega. Que só sabemos andar juntas. E que, sem ela, me faltarão pernas.”

[Eliane Brum, In: Uma Duas, p. 153]

Desajeitadamente, ela percorre cada mínimo espaço da casa, buscando sem sucesso um lugar para chamar de seu. Sempre havia sido assim, mas nos últimos dias se mostrava clara a tensão presente: como encarar a rotina com uma tempestade a fluir diante dos olhos?

Em atos impensados e sucessivos… escancara cortinas, deixando o sol ardente penetrar os poros dos cômodos! Tenta encontrar vida onde não há eco que lhe responda. Insiste! A teimosia lhe faz crer que, em qualquer momento, será capaz de ouvir um ‘sim’…

Ensaia barulhos em tom de fingimento, apenas para causar ruídos… na esperança de que nasça uma inquietação! Ouve o tic-tac do relógio – que só faz somar as horas -, sem oferecer as soluções palpáveis do tempo…

Já em estado de desespero, por conceber somente o silêncio… deita-se sobre ela, e sacode o corpo frágil completamente, como quem suplica por uma reação! A ideia de perda faz eclodir no íntimo a angústia. Confessa seu medo e as lágrimas se confundem com suor… denotando um cansaço-medo-luta que exaure.

Juntas, tentam um pouco além… e só não sucumbem à morte, pois se precisam mais que água e ar.

Inevitável

“Nesta noite de poucas estrelas, me apaixonei por teus olhos e agora já não sei mais como perdê-los de vista…”

Na verdade sei, mas não me lembro como…

Preciso, mas não quero…

Posso, mas não devo…

Eu não te pedi nada. Você entregou seu coração por conta própria e me amou primeiro, antes que eu pudesse aventar qualquer possibilidade de ser sua. Sei que é fácil jogar a responsabilidade no outro quando se trata de duas pessoas adultas, conscientes de si. Mas, posso dizer, de olhos fechados, que não esperava me apaixonar assim…

Tudo bem, aconteceu… Eu me deixei envolver por seus laços de ouro e você não hesitou em entrar em minhas particularidades também… Não te culpo, não te julgo, mas onde será que desejamos chegar? Há certas coisas que não consigo supor nem me esforço em entender. A possibilidade de amar de novo se tornou mais difícil depois que me abri para tantas pessoas e, quase sempre, obtive a frustração como resposta… porém, busco imaginar que com você pode ser diferente.

É claro que eu não imagino um romance eterno, afinal, hoje compreendo que conto de fadas e realidade são coisas bem diferentes… Mas, quando penso no dia do nosso encontro, vejo flores em sua pele e sorrisos em minha alma! Um momento, quem sabe? Talvez poucos instantes da mais breve sintonia. Não precisamos de muito, pois a sua sedução me leva a espaços que ultrapassam os limites da temporalidade. Eu te guardo aqui dentro e sei que você já pode sentir meus abraços, da mesma maneira…

Quando falto, você pergunta por mim e meu coração se derrete ao receber suas palavras apaixonadas. As manhãs parecem mornas, sem vida, mas é só rememorar sua figura que meu corpo dá um salto e brilha, brilha como nunca… Eu me imagino perfazendo cada detalhe em sua presença, e sei que não posso simplesmente estar sonhando. Se for delírio, é vivo demais para ficar simplesmente na loucura… Seria muito se eu te pedisse sinais mais claros, para me ajudar a entender tudo isso?

Sou vidrada em seus enigmas, seus códigos e suas fórmulas misteriosas, mas minha fascinação está também em encontrar respostas para o que me dilacera e não me deixa em paz, desde que você chegou por aqui… Sua voz me diz que preciso traçar as rotas por conta própria, mas quem foi mesmo que despertou tamanho sentimento e marcou meu caminho assim?

Venha comigo, só desta vez! Ensine-me a entender…

Por favor, não me leve a mal… Estou aprendendo a viver!

Quando é amor…

“(…) Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir embora (…)”

— Titãs —

É amor em cada hora na qual permaneço aguardando tua chegada – tantas vezes indócil, incerta e imprecisa -, para só então permitir que brote um sorriso em meu rosto.

É amor no instante em que percebo que o dia não começa antes de ter qualquer sinal de notícias tuas. E, exasperada, quase me perco em meio a andanças e palavras, sem saber o que fazer com esta ausência.

É amor quando noto que, antes mesmo de conhecer meu nome, eu já sabia pronunciar o teu… Porque é bonito, suave e tantas vezes mais encantador sentir os lábios balbuciarem algo que me direcione a ti.

É amor no segundo em que a nossa sincronia se faz evidente – inegável e intrínseca a cada manhã. Quando repetimos as mesmas frases sem perceber, e o pensamento converge tanto que até nos assusta.

É amor quando me vejo desesperada ao te perder de vista, mesmo que seja por questão de minutos. É perceber-me dependente de tuas marcas, de teus passos ousados e arredios – mas que, de algum modo, não se furtam a me dar a mão.

É amor em todo anoitecer – quando, antes mesmo do cansaço chegar, eu te ganho de presente, em embalagem de fita dourada. Os meus olhos se confundem com os teus e só nos resta, pois, consolidar aquilo que nasceu para ser um.

É amor no lampejo do tempo… Na lacuna em que as definições já não bastam, deixando espaço para que todo o sentimento sublime entre nós se expresse em forma de paz…

Águas mornas…

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

[Vinícius de Moraes – “Ausência”, In: Antologia Poética]

Nas madrugadas insones e angustiantes que perfazem naturalmente o meu cotidiano, eu lembro como se fosse hoje a primeira vez em que pude delinear seu contorno nu… Latente. Pulsante em mim.

Não foi um instante arquitetado e talvez – justamente por isso – eu tenha me surpreendido em demasia. Você me convidou ao ato como se ele sempre houvesse existido em nós. Deixei-me, pois, conduzir pelo seu instante…

Atuei diante daquela paisagem como a protagonista de um sonho e de todas as sensações que me perfaziam havia tempos, permitindo-me a luxuria de uma noite infindável, porque certas coisas o nosso íntimo decifra sem explicações – regras ou normas.

Um misto de plenitude e intensidade, duradouro até meados do dia seguinte, pois eu não conseguia me desfazer das lembranças impressas por sua derme em meu sentir…

Não existia ali somente o corpo – éramos duas almas líricas que haviam se unido “desde sempre”, em perfeita sintonia.

A temperatura borbulhante dos detalhes permeou cada encontro que sucedeu aquelas horas de estreia catártica. Foram meses de querer mais… Promessas de uma vida… Sementes plantadas na esperança de frutos que viessem tão saborosos quanto sua vertigem…

O tempo passou e, como todas as histórias que me foram contadas ao longo da vida, esta também teve o seu fim. Uma pausa mal dada, eu diria… Marcando o coração com o gosto amargo da distância do que se queria tão próximo.

Não sei bem como se deu o momento – mas compreendo sim que algo mais forte fez com que eu te perdesse. E quase que imediatamente me soltei de mim.

As águas de um romance tórrido – que costumavam latejar em minha pele de ardor e paixão, com uma naturalidade bastante apreciada – simplesmente se amornaram… E não houve quem as pudesse reaquecer.

Busquei inúmeras maneiras de resgatar o acalento de seus braços, ainda que notoriamente obtivesse nenhum sucesso… Sem esse enredo eu me via apenas como parte, já que na minha concepção o todo estava bem ali: em você.

Aos poucos, pude retomar a tão almejada paz de espírito. Tratei de devolver certa espécie de serenidade ao meu interior, reconstruindo o que havia se quebrado num repente. Em contrapartida, deixei de ser aquela alma vibrante de prazer…

Gradativamente me adaptei ao morno. Ao singelo. A uma existência isenta de paixão – mas também com menor risco de dor ou abandono.

Ainda hoje, admito a falta abrupta de sentir arder a pele por sua presença.

Contudo, também já não me queimo mais…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

Amar um sonho…

ridículos
como Pessoa
e suas cartas

somos nós
nosso vazio
e nossas marcas

aquele chorou rios
ela sofreu horrores

ao falarmos de amor
todos somos
amadores

[Kleber Bordinhão]

Eu não tenho a certeza de que você não me quer – e isso te faz ser meu todos os dias.

A gente se encontra, enrola os fatos, dissimula o que poderia ser… e o que nunca foi.

Mas inventa modos desconcertados de dizer que ama, já que o sentimento é, por vezes, tudo o que se há.

E ama, sim. Muito. Outro nome que não seja amor se faz inexistente.

Mas há o medo… Ah, o medo… Este tolo que pensa nos enganar. Até engana – quando o sonho e o real se mesclam em facetas quase intocáveis.

Contudo, mesmo sentindo medo, não abdico de você. Aprendi a não desistir de nós.

Porque, enquanto eu te esperar, você se manterá vivo. Aqui dentro, talvez lá fora. Em miragem ou no palpável, eu faço você existir para mim.

Sei que provavelmente tudo isso não passa de uma grande besteira. Entretanto, se a gente se leva a sério demais, desaprende também o que é brincar de viver.

Nas tardes acaloradas – momentos em que meu corpo quase se desmancha pela brisa quente -, eu te olho e, por um momento, penso:

“- Ah, se ele pudesse ser meu! …”

E sigo andando, porque ainda não é. Mas a simples ânsia de tocar você me faz dar mais um passo, e outro, e mais um…

Pois, quando finalmente der certo, pode ser que perca a graça. É muito meu, isto: a vida toda treinei lidar melhor com probabilidades do que com verdades.

Já fiz um trato com o coração: se eu não encontrar seus braços, sinto que ao menos terei chegado mais perto de mim mesma.

Ausência revelada

“(…) me guardo em mim, junto às coisas que jamais senti – e sinto muito ainda (…)”

– Roberta Campos –

Quando a noite chega leve e perene, sem grandes prenúncios do que trará em sua bagagem, fica um pouco mais fácil falar sobre aquilo que sinto e que – por inúmeros motivos – ainda não compreendo… Ou, dizendo bem a verdade, de conteúdos que são conhecidos demais para que eu simplesmente os ignore.

Sobra tanto tempo escapando em minhas previsões de presente e futuro e, paralelamente, tudo passa de modo absurdamente veloz diante deste olhar – que um dia já foi bem mais doce. Talvez eu devesse estar fazendo outras mil coisas, mas toda a minha vontade hoje se concentra em escrever. Colocar para fora. Explodir sensações, antes que elas de algum modo me sufoquem ou transbordem o que eu não aguentaria, necessariamente, enxergar.

Em meio ao embaralhado que aparentemente se torna esta minha rotina, algumas letras e cores traduzem a saudade que eu tenho de você… Sabe, surge uma ausência maior que eu da intensidade que permeava cada uma de nossas trocas e encontros. E, por mais longínquos ou sutis que fossem, esses instantes eram capazes de devolver uma espécie de força para desafiar cada um dos meus limites.

Ao seu lado, ou mais perto do seu coração, não me percebia tão frágil. Era mais fácil manter corpo e alma equilibrados nesta intensa corda bamba da existência. Acho que sinto mais – mesmo -, falta de quem eu era naquela época. É certo que eu morria ao poucos pela extrema negligência que fazia questão de ter comigo mesma, mas talvez fosse mais feliz.

Energia e vigor não me eram negadas. A ilusão se constituía como meu alimento sublime para fazer a vida pulsar. E pulsava… Porque acreditar que é possível tocar o céu nos faz querer estar próximos a ele – mesmo que a gente nem vá – de fato-, um dia tocá-lo.

Sim, há nuances de nostalgia hoje por aqui, diante do muito que vejo à minha frente e do pouco que consigo, ao certo, produzir. Vou esfriar a cabeça, preparar uma trilha sonora leve e ler aquele meu livro – no qual tenho me segurado quase que como bengala…

Enquanto você não está (e eu, também, ando bem longe daqui), caminho na tentativa de me reconhecer – nos incontáveis abismos de mim.