Aniversariar…

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles

Seria um tanto insensato dizer que não me prendo a certos marcos do calendário… Essas datas, de algum modo, delineiam a minha existência e concedem uma entonação concreta ao cotidiano.

As lembranças inscritas no pergaminho da história que construo me fazem pisar em solo firme e estar atenta a uma realidade nem sempre digesta a um primeiro olhar… mas, acima de tudo, reconhecer-me em minha própria pele.

São dias meus… vividos intensa e exclusivamente por meu corpo, por minha alma. Cicatrizes imersas em uma trama inegável – intransferível. Muitos podem querer traduzir-entender-julgar-conhecer, numa tentativa falível de ‘existir pelo outro’…

Contudo, não é preciso ser demasiadamente sábio para compreender que cada coração possui a sua própria marcha… um ritmo intrínseco a si – jamais exposto. Bastante atenuado perto do que – de fato – existe do lado de dentro.

Hoje completo mais um ciclo de memórias. Vivências outonais se fecham diante de minha janela, trazendo novos olhares…

Quais serão eles? Talvez ainda seja cedo para supor, mas… o meu maior desejo é de continuidade. Permanecer no caminho que escolhi sem dar por mim e que, por intuição, levou-me ao lugar mais próximo de minha essência, até o instante presente.

Ser fiel ao sonho… Aniversariar não só hoje, mas todos os dias, em um contínuo fluxo de renovação.

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Abril, o mês dos meses…

Vem vindo o abril tão belo em sua barca de ouro!
Um copo de cristal inventa as cores todas do arco-íris.
Eu procuro
As moedinhas de luz perdidas na grama dos teus olhos verdes,

E até onde, me diz,
Até onde irá dar essa veiazinha aqui?
(Abril é bom para estudar corpografia!)

[Mário Quintana, “Primeiro poema de abril”]

Quem já teve a oportunidade de trocar algumas palavras comigo, rapidamente ou de maneira mais prolongada, certamente deve saber o quanto minha alma se afina com o mês de abril.

Não se trata apenas da feliz coincidência de ser a época do meu aniversário, mas sim porque – ao que me parece – esses dias trazem consigo um ritmo próprio. Uma cadência ritmada de acontecimentos e surpresas. Cores que se transformam desde o instante da chegada do outono, que timidamente vai marcando aos poucos sua presença pelos arredores do cotidiano.

É certo que no Brasil as estações já deixaram de ser bem delimitadas há tempos – nem eu pretendia que assim o fossem. Mas o meu inconsciente, ao sentir que em algum lugar próximo “supostamente deveria ser outono…”, anima-se em festa e cantarola uma melodia de celebração, até que maio decida entrar em cena.

Abril é período de comemorar o aniversário de pessoas muito queridas – tanto da família como do círculo de amigos. Torna-se impossível passar ileso em meio a tantos aniversários, reuniões, eventos e encontros… Isso sem falar da comilança, que também é presença certeira em cada uma das festividades em questão… A gente tenta amenizar o prejuízo da balança ao caminhar ou se exercitar mais (risos)…

Este mês também se faz agitado em termos de trabalho, afinal, o Carnaval já foi embora e não há mais desculpas para a preguiça… Março ainda deixa sinais de certo esmorecimento, mas abril chega dando seu recado: é hora de produzir!

É também o período de idealizar novos projetos pessoais, retomar metas abandonadas e colocar o movimento em prática. As pessoas parecem estar mais amenas, também, em meio aos dias que se seguem… Relações fluem com intensidade branda, promovendo certa espécie de escuta ao outro – tão rara em nossa rotina…

Enfim… Talvez esta seja só a minha visão utópica acerca de um mês que me é muito querido. E tudo bem se for apenas isso. Em certos momentos, uma perspectiva pessoal acaba por energizar com maior motivação e incentivo do que aquele panorama concreto – e, por vezes, tão cruel – que nos é trazido à tona pela vida lá fora, todos os dias…

Precisamos do sonho para nos distanciar um pouco do cinza que a realidade insiste em nos fazer ver. E, afinal de contas, a gente merece mesmo este gosto de devaneio, de passeio no parque, de pipoca doce no meio da tarde, de caderno novinho em folha, de nuvem colorida que faz brotar a inspiração…

Abril chegou feito poesia sem dono no quintal aqui de casa… Que os versos sejam daquele que tiver a coragem de (trans)bordar seus desejos mais íntimos.