Pequeno intervalo antes do fim…

Neste instante, em que me revelo com olhos de ressaca – a mim mesma, diante do espelho – observo-me inerte, apesar de saber que existe apenas uma opção… Sinto-me como uma borboleta saindo do casulo – simbolicamente frágil – abrindo as asas, sem estar pronta para o voo… meus pés descalços se cansaram de percorrer cada canto da casa em busca de abrigo.

Revisito tudo. Provo do sabor da sua saliva ao beijar sua boca – gosto amargo, café frio no fundo da xícara – não me excito com seu toque translúcido a invadir minhas entranhas. Nossos diálogos já não têm sentido e ficam cada vez mais distantes… a vontade de fugir desta casa se mostra evidente, porque estar em sua presença é sinônima de solidão…

Já se faz tarde para nós dois e a madrugada rasgou meus passos antes que eu pudesse te entregar este ponto final. Acho que não era para ser assim… mas, já que estou aqui, preciso continuar a cena até sua última gota. Falar de uma vez, expurgar os sentidos, trazer-te à tona neste cenário junto à minha pele… Pôr um fim à esquete e permitir que o público retorne às suas casas após o espetáculo devidamente assistido.

Mas, que público é esse? Somos apenas nós dois… sempre fomos tão sozinhos em nossos desenlaces… nos sorrisos tortos que insistimos em deixar pelo caminho. Até nas brigas, quase nunca deixamos um rastro sequer de dor… Fora – porque dentro tudo range… e sufoca… e sangra… mas ligamos tão pouco para o que realmente sabemos um do outro, que a distância se mostra imperiosa aos nossos olhos, deixando sobrar apenas a ausência que vestimos.

Meu corpo continuou aqui dia após dia, mas a alma há muito traçou outros caminhos e passou pela porta… agora, só me resta seguir os rastros e recolher migalhas pelo chão!

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Do avesso ao concreto…

“Cada um descobre o seu anjo
tendo um caso com o demônio.”

[Mia Couto]

Olhando um pouco para dentro, percebo – ao longo dos anos – que eu fui acumulando avessos…

A cada passo pelas ruas por onde caminho – que parecem tortas aos meus olhos – reencontro temas que insistem em meu íntimo. Recuso. É aí que eles se repetem, no momento de distração… quando escrevo. Transbordam como um grito que me nego a ouvir.

É como se, através dos ecos e repetições, eu implorasse ao universo que me cerca uma espécie de continuidade que não consigo traçar por conta própria. Uma rota que ainda não descobri – ou que, decerto, não me permiti traçar…

Algo a que posso chamar de angústia pede para ir embora – diz que não é mais este o seu lugar e abre espaço para um respiro, mas eu recuo por inteiro. Meu corpo se abala. Permanece ali – imóvel, aguardando comandos inexistentes de minha parte.

Há uma alma que sangra… Dói… Agita-se em pedaços espatifados pelos cantos, mas eu ainda não sei dizê-la em palavras. Todas as tentativas são confusas e começo a encontrar aí, talvez, alguns motivos que justifiquem as minhas incansáveis recorrências…

Manejo a emoção no abstrato por uma temível ansiedade de que ela se transforme em concreta – e, então, eu precise enfim… tocá-la. Senti-la com as próprias mãos. Ao assumir os sentimentos como ainda incansáveis, será meu o que hoje pertence a um imaginário qualquer… a você, às letras, ao universo…

… estarei pronta para encarar que algumas coisas são suficientemente minhas, e só?

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Desde que o mundo começou a ser mundo…

Costumam dizer por aí que tudo muda – se transforma… Deixa de ser o que era, mas eu tenho a impressão de que nada mudou ao meu redor. Tudo continua sendo mais do mesmo… e enxergo pouco de bom neste mundo que insiste em acordar dentro dos meus olhos pela manhã…

As pessoas jogam papéis nas ruas como se o asfalto fosse o cesto de lixo de suas casas. Gritam mais alto que o outro, fazendo do diálogo uma espécie de competição voraz – de modo a descaracterizar completamente o nível da conversa.

É… Já faz algum tempo desde que o ser humano iniciou seu processo de desumanização. Banalizam-se as relações a qualquer custo, desde que isso continue gerando o lucro desejado a quem interessa. Não há inflação, isso é pura ilusão de óptica da cabeça do povo. Vocês estão alucinados, vendo coisas… Um viva à política do pão-e-círco!

O desrespeito entre pais e filhos aumenta exponencialmente. Já não há educação que supere os limites da marginalidade. E, como se não pudesse ser pior, o tom superficial com que se conduz as atitudes no dia a dia nos faz duvidar da nossa própria idoneidade: até que ponto somos verdadeiros… e onde começamos a mentir?

Tornamo-nos fantoches de nossas próprias armadilhas. Adoecemos. Surtamos em meio a um universo que vai mal… muito mal. Mas está tudo bem, obrigada, desde que eu não me esqueça de tomar aquele calmante antes de dormir. Desde que o mundo começou a ser mundo, ele se transforma, cresce e agrega a cada dia, ao mesmo tempo que também destrói, diminui e mata. Por nossa causa. Porque tornamo-nos coniventes e permitimos que assim seja.

Somos não apenas personagens dentro de um cenário, mas autores de todo um enredo, que se rasga aos poucos… sem dó!

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Transição em desaviso

“Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora;
e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.”

[Virginia Woolf ]

Eu não sei ao certo com que idade comecei a escrever mais frequentemente… talvez beirasse os vinte… e poucos! Tudo o que lembro são linhas de um tempo ainda em transição.

A adolescência se configurou para mim como um período muito intenso, de emoções bastante confusas e emaranhadas… Talvez, por esse motivo, ao adentrar os vinte anos eu já me sentisse cansada de alinhavar sentimentalidades – e almejasse algo novo para o meu círculo de vivências…

Passei a falar de mudanças e transformações em meus textos como se não houvesse amanhã… querendo de fato que o coração entendesse o que era desejo: modificar o ambiente que me cercava, o outro, a vida… mas, acima de tudo, a mim mesma.

De descontente, passei a inconformada… e fui em busca do que jamais havia conhecido – até então – no íntimo que me habitava.

Como já era esperado, mais falei do que vivi, mais escrevi do que experienciei. Contudo, creio que cada detalhe tenha sido absolutamente valioso, pois percebi que tecer diálogos sobre mudanças significa, de algum modo, torná-las possíveis…

Meus escritos de hoje expõem menos voracidade diante das metamorfoses que a vida – inevitavelmente – vai nos trazendo… Aos poucos, aprendi a deixar o tempo fluir sua matemática nem sempre (ou quase nunca) exata… Assim, quando menos espero, a mudança já está lá, feita, diante dos olhos – e, qual não poderia ser a surpresa, por minhas próprias mãos!

Tornei-me arquiteta do meu mundo, como se a escrita de ontem tivesse me permitido acontecer de maneira segura, servindo de alicerce para esse ser que sou. Visto um sorriso ameno, respiro fundo, como que em sinal de alívio e… escrevo em meu socorro!

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participaram as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

Construto de mim…

“Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida…”

— Chico Buarque —

Já há algum tempo, ao abrir os olhos pela manhã, sinto como se múltiplas vozes passassem a habitar junto a mim o cenário que me cerca… Desde o instante em que preparo um simples café, até quando me coloco pronta a ir às ruas, para desvendar seus mistérios e entender o fascínio que os diferentes caminhos despertam na alma humana, é como se eu nunca estivesse realmente sozinha ao longo do dia.

E penso que nunca estou, de fato… Basta colocar as pontas dos pés para fora da cama, que uma gama de outros eus convida-se a adentrar minha paisagem, sem pedir muita licença, afinal, tornou-se um costume encontrar-me afobada, em meio àquele velho e conhecido astral traduzido em uma espécie de “não sei por onde começar, mas vou assim mesmo”…

Eis que me faço vestir, então, ao menos uma roupagem para cada determinada nuance cotidiana. Sou muitas dentro de uma só – e penso que, justamente por isso, chego a inflar devido ao tanto que não me caibo. Viro-me do avesso. Dou cambalhotas. Pulo em um pé só. Aprendo a fazer piruetas inimagináveis. (Sobre)vivo. Respiro, enfim.

É como participar de uma grande peça de teatro de fantoches – mas, confesso: mesmo após tantos anos, ainda não defini (em terapia) se faço o papel das marionetes ou se atuo como quem as manipula.

Quando a noite chega, retorno à beira de minha cama tão exausta, que é quase impossível despir-me de uma só vez de todas as vestimentas que usei durante as horas que se passaram.

Meus pensamentos se ordenam apenas em forma de silêncio – já que não há sequer forças para algo além disso. Deixo-me simplesmente cair em sono profundo, até que um possível dia seguinte se faça…

… e novos personagens também me habitem…

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Trago comigo um emaranhado de saudades…

“Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto (…)”

[Caio Fernando Abreu]

Minha querida G.,

Ainda não se passaram vinte e quatro horas completas desde que retornei ao meu suposto aconchego… E, já que nossa afinidade dispensa segredos, confesso: minha bagagem ficou por inteiro aí com você. Eu não queria voltar, mas cá estou, em meio a este eterno trânsito interno de desejos e obrigações …Talvez a alma nunca me acostume a essa realidade dura dos fatos, mesmo fingindo muito bem se adequar…

A chegada foi envolta por reencontros amistosos, como de praxe, ainda que New Jersey se mantenha em mim, feito batida estridente de um relógio antigo… É impossível ignorar as lembranças que aprenderam a fazer morada aqui dentro. Hoje a saudade dói muito… Amanhã um pouco menos. Depois de amanhã, quem sabe…?

Aproveitei a estrada de volta para casa e tentei acertar o meu ritmo interior… Tarefa insana? Não me furto a ela… Encontrei no íntimo o antigo e o recente, dividindo o mesmo espaço no pulsar do coração. Amanhã já recomeço a desenhar as tarefas cotidianas e, você sabe… necessito pensar enquanto me permito tal feito!

Definitivamente, o tempo lá fora não corre da mesma maneira que no meu imaginário… E acho bom que seja assim, pois me permito viajar de volta aos lugares que amo, sem precisar de passagem de ida… Visito os cafés apreciados ao final da tarde… corro os olhos pelas livrarias imensas a alucinarem a minha paz… Percorro mundos familiares ao meu universo: ruas, árvores, restaurantes, parques, caminhos… sim, caminhos… de algum modo, eles aplainam o meu ser não-linear.

Ensaio longos suspiros ao abraçar na memória os lugares que envolvem o seu cenário: esquinas e tracejados tão caros e reconfortantes que hoje já me pertencem tanto… Muitas de minhas entregas a você ainda reverberam por aqui, mas acredito que juntas possamos, agora, entender melhor as entrelinhas de cada um dos meus enredos!

Não queria que você visse em mim uma imagem diferente da que tentei delinear durante todos esses anos. Entendo que a verdade talvez se mostrasse preferível, mas há mistérios que necessitam se manter ocultos, ao menos até conseguirmos revelar sua essência a nós mesmos. Foi um alívio contar a você tantas lágrimas e virar páginas fundamentais dentro da minha (nossa) história. Compartilhando o meu mundo, tenho a clareza necessária para seguir caminhando…

Espero que, ao retornar do aeroporto, você tenha reparado que deixei, junto ao aroma no travesseiro, uma parte do meu coração – talvez a mais verdadeira… Entreguei meu passado em suas mãos, para que você e New Jersey cuidem com carinho deste legado.

Não há mais motivos para fingir coisa alguma – e o significado dessa liberdade é tão grande que não caberia em palavras… São pretéritos que elucidam o meu jeito de viver e agir… E a partir disso ganho novos ares para desenhar o meu próprio destino.

Com enorme carinho, afeição e gotas salgadas de silêncio…

T.

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.

Quero outra manhã depois dessa madrugada…

“(…) Perca algo todos os dias. Aceite a irrequieta frustração
De perder as chaves da porta, de desperdiçar tempo. (…)”

– Elizabeth Bishop –

Confesso que já estava quase me acostumando ao calor exacerbado dos últimos dias, cuja temperatura se entranhou em meus poros de modo antes não imaginado.

Adequei-me ao ritmo das manhãs ardentes e busquei seguir os passos rotineiros, afinal, a vida não para – nem mesmo se acalma – só porque o astro-rei decidiu brilhar com voracidade lá fora…

Pelo contrário, o que pude perceber foi que, ao passar das recentes semanas, as pessoas se tornaram ainda mais esbaforidas, impacientes e apressadas. Deve ser efeito do termômetro elevado que as deixou assim, um tanto quanto indóceis…

Enfim, após um longo período em que ficamos envoltos por quase quarenta graus aqui na cidade de São Paulo, o anoitecer de ontem nos trouxe o espetáculo da tempestade, refrescando os ares e clareando também algumas ideias – antes um tanto abafadas.

A madrugada, assim, prometia ser mais amena e propiciar um sono tranquilo, talvez reparador, sem exigir presença tão obrigatória de ventiladores, ares-condicionados ou janelas demasiadamente abertas…

Mas o fato é que acordei mais cedo do que pretendia nesta manhã de sábado que nem se arriscou a insinuar qualquer raio de sol. Após uma razoável dimensão de idas e vindas do sono, rendi-me ao despertar, já que por ora os pesadelos haviam se feito suficientemente densos.

Penso que o corpo se acostumou a remexer-se involuntariamente na cama entre os lençóis, buscando posição adequada para repousar em meio aos ares intensos e acalorados que percorriam o quarto…

O metabolismo – ou seja qual for o nome que se dê a tudo aquilo que reside aqui dentro – deve ter estranhado a mudança meteorológica repentina e não acreditou, nem se conformou com a leveza que foi tomando conta do ambiente.

Preparei minha xícara de café quente, acompanhada de torradas com geleia. Um menu especial para o sábado, que pede aromas delicados no instante em que o amanhecer se faz mais cinzento…

Ainda que o cenário parecesse contribuir à singeleza do momento, não foi bem assim que ocorreu… Procurei em diversos lugares, mas não vislumbrei disposição para reunir uma boa dose de palavras arraigadas em minha alma no dia de hoje.

Tudo que existe e parece palpável é uma intuição pedindo silêncio – no aguardo de nuances que promovam a continuidade dos fatos.

Quanto não surgem elementos recíprocos para toda a ansiedade que já me é conhecida e familiar, o íntimo se vê perdido – tal qual tivesse sido abandonado em um canto qualquer das esquinas. Devo, talvez, recuperá-lo para acalentar suas lacunas, ao passo que estas não podem ser preenchidas de imediato.

Dou boas-vindas à minha manhã e permito que ela guie os passos com serenidade, equilibrando de certo modo a tensão vivenciada nas horas que se passaram.

Não há resposta alguma que se mostre visível ao meu olhar, mas enquanto existir aqui dentro tamanho sentimento, permanecerei à terna espera daquilo que invariavelmente faz o coração sorrir…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

É meia-noite no fim da página…

“Então somos adultos…
Quando isso aconteceu?
Como podemos parar?”

Quando menina, eu costumava pensar que, ao me tornar adulta, não precisaria mais conviver com as grosserias e indelicadezas advindas da sinceridade das crianças que me cercavam.

Tomo a liberdade de utilizar a palavra “crianças”, como se este fosse um terceiro elemento alheio a mim, porque em pouquíssimos momentos me senti como tal. Sempre fui fechada, um tanto mais séria e de poucos amigos, numa espécie de isolamento que automaticamente me direcionava ao mundo adulto.

Mas o fato é que eu achava que, quando envelhecessem, as pessoas se tornariam mais amenas. Em minha mente, aquele olhar de reprovação se transformaria em algo mais dócil, tolerante e compreensivo. A agressividade advinda dos pequenos me assustava – e era como se eu nunca pudesse ser parte integrante do grupo deles.

Do mesmo modo, sempre que assistia aos filmes de contos de fada, acreditava que na vida adulta fosse acontecer igual no meu mundo. Um belo dia, eu conheceria alguém que me pediria em casamento – simples assim, do dia para noite. E seríamos felizes para sempre.

Neste momento, vocês podem me perguntar: e a bruxa malvada, os monstros… onde entram? Como criança boba e ingênua que era, pensava estar vivendo essa parte do pesadelo ali mesmo, na infância. Para mim, todas as malvadezas que precisassem surgir o fariam naquele instante, e mais tarde – adulta – eu ficaria livre de perigo.

Sim… Eu levianamente me pautei na ideia de que a vida começaria quando me tornasse adulta. No tardar das horas… Quando as sombras e os medos já estivessem bem distantes de mim, numa espécie de lugar inalcançável.

Mas, você vê? Adulta que sou hoje – ou pelo menos tento ser -, as pessoas que estão à minha volta não parecem menos cruéis. Eu mesma me vejo sendo rude comigo e diante dos outros em diversas horas, e isso não é novidade. Apenas evidenciei com o tempo o que já existia em mim quando criança.

A sinceridade que permeia o universo infantil se perde com o passar dos anos, é fato. Poucos são os que se mantêm autênticos e fieis a si próprios ao expor suas ideias ao mundo. Mas eu aprendi que adultos podem ser tão ou mais intolerantes, desrespeitosos e esmagadores do que as crianças.

Basta olhar pela janela e ver que finais completamente felizes e pessoas boazinhas só existem mesmo nos contos de fadas. E, mesmo assim, correndo o risco de extinção…

Talvez amanhã a minha crença se modifique, mas por hoje penso que o melhor é tentar dormir. Esquecer que não me tornei o que queria. Deixar de lado a ideia de que há um pote de ouro me esperando além do arco-íris.

Já se faz meia-noite no fim desta página e tudo o que me restou até agora foi a solidão…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

A menina que um dia eu fui…

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

—– Cecília Meireles —–

Olho para trás e nada me basta. Não há sombras nem tempestades que pareçam suficientes para acalentar todo este espaço vazio que insiste em adentrar o meu peito.

Ouço vozes, como se cada uma daquelas pessoas ainda estivesse por aqui, circulando entre os cômodos da casa… Elas me cumprimentam agradavelmente. Sabem meu nome, compreendem a minha história – mas eu estranhamente as desconheço. É como se nunca tivessem feito parte de mim.

Rememoro a saudade do tempo em que eu costumava sonhar longamente… Não aqueles sonhos curtos, que se esvaem em questão de segundos. Esses parecem cercear apenas o território dos adultos…

Em vez disso, aprecio a lembrança da ilusão suave de uma mente fértil: que se demora nos desejos, por não haver outra realidade palpável para si durante o breve instante.

Ao tomar nas mãos – em devaneio – a boneca de infância que nunca tive, abraço a vontade nutrida por um amanhã melhor. Mais ameno e confortável. Menos triste, talvez. Mas… assim como a boneca, este dia também não chegou. Ao menos, não como eu vislumbrava…

Hoje os dias passam e eu continuo avistando as pegadas que deixei pelo caminho. Com base em cada marca, traço uma curva para o destino que almejo, já que – além dele – pouco ou nada me pertence.

Preparo uma breve pausa e observo os rompantes com que a vida me surpreende. Há certo sabor de aventura ao me olhar no espelho com tamanha verdade, quando nunca antes isso foi permitido. É corajoso – e sempre vai ser, de alguma maneira – ter que me descobrir assim, por mim mesma.

Em momentos de descuido, quando me faltam meios de alimentar os meus sonhos, a menina que um dia eu fui abraça a mulher que – em determinado tempo – desejo ser.

Elas caminham juntas, em desatino e velocidade, buscando desesperadamente recuperar momentos nossos – mas, como se recupera o gosto de um amor que não foi recebido?

Como é que se contam nos dedos os abraços abdicados, as palavras não ditas, o silêncio truncado? Como desamarrar da garganta um nó que se lacrou em torno de um choro sem fim?

Não sei se é possível – nem mesmo compreendo se vale a pena insistir em peças cujo encaixes não combinam.

Contudo, o desejo existe e faz pulsar este meu coração – colocando-me a pensar no quão incômodo seria não realizá-lo.

Então, fecho os olhos por um instante e sinto a presença daquela menina diante de mim. Por instinto ou loucura, eu a pego no colo. Enxugo suas lágrimas. Acalmo seu suspiro profundo. Entrego-a, pois, a esta mulher que – feito Fênix – surge em mim tão gentilmente. Eu a aceito…

Decerto que demorou tempos – talvez a vida inteira – para uma existir dentro da outra, mas o momento é este e as pegadas que vejo são possibilidades. Um rastro do que eu fui e ainda serei…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

Letras de saudade…

“Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já…”

– Pablo Neruda –

Meu estimado L.,

Despertei meu corpo quase como um alerta nesta manhã e, após horas insones adentrando o caminho da madrugada, eis-me aqui, diante de mais esta folha de papel em branco.

Escrevo-te algumas palavras delineadas em prosa, porque de fato não compreendo outro modo mais convincente de chegar ao teu coração. Deixo aqui minhas linhas soltas, de pouco sentido, apenas para expressar que hoje, delicadamente, lembrei-me de ti.

Para dizer a verdade, tua imagem sempre se mantém acesa em meio ao intenso cenário que vive na lembrança. Mas, nesta quarta-feira ensolarada, momento em que a brisa quente acaba por pretender sufocar certas emoções, senti o desejo especial de me remeter às tuas memórias.

Muito tempo se passou, eu bem sei. Nem posso afirmar com veemência que teus olhos ainda saltam ao se atentarem a mim. Talvez hoje eu seja, tão somente, uma distante e suave recordação.

Eu disse suave? Quanta pretensão! De leve ou enternecedor, aqueles dias não tiveram nada… Mas, enfim, afastamo-nos para que cada um seguisse o seu rumo, não é, meu querido? Eu nem poderia supor que te esquecer fosse tão fácil assim…

Ok, isso também não se deu como um processo simples, e confesso ter acordado exageradamente eufemista hoje. Contudo, estou aqui – eis a maior prova de que o tempo se constitui mesmo, de certa maneira, como uma revigorante experiência de aprendizado.

Há que ser tolerância com os sentimentos alheios e, de tua parte, houve sempre imensa compreensão diante de todos os meus percalços.

Por esses e outros inúmeros motivos, serei eternamente grata a ti e aos teus ensinamentos, independente dos traumas, das lágrimas – de qualquer pesar.

Despeço-me aqui, imaginando tuas mãos que costumavam afagar tão docemente os meus cabelos…

Quem sabe um dia, sem mais nem menos, corpo e alma peçam bis?

Com todo meu amor,

T.

*Este post  faz parte do projeto “Caderno de Notas”, do qual participo ao lado das escritoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Letícia Alves, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes e Thelma Ramalho. O tema da semana é: “Essa é minha carta ao mundo…”.