Meio-mundo entre parênteses

“Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.”

[Lya Luft]

Xícara de café em repouso, pensamentos à solta, ideias de um universo particular em ebulição… Permaneço à esquina do abismo, a esmiuçar silêncios para atentar ao meu próprio sussurro, numa lentidão nunca antes reconhecida…

Em meu íntimo, ouço um punhado de vozes alheias, que não se furtam a gritar cada uma das imprecisões espelhadas nesse avesso que sou… delineiam perversidades e acabam por somar desconfortos.

Sempre me incomodaram os ruídos de dentro… mas tenho encontrado presenças barulhentas em excesso, cuja liberdade de apontar o dedo ao outro se mostra absolutamente invasiva.

Enquanto sorvo mais um gole do café, busco digerir as senhoras verdades de um mundo que não se quebra… Por ora, tira-me o fôlego a sensação de que algumas coisas apenas habitam outros cenários, assim como a ansiedade pelo momento seguinte, que ainda não me pertence…

Haverá de pertencer algum dia?

Entre um pulsar e outro… letras!

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.

[Sophia de Mello Breyner Andresen, ‘Um dia branco’]

Caríssima L.,

Os dias aqui têm implorado por um sopro de identidade e, sempre que isso acontece, torna-se inevitável me remeter à sua figura…

Explico-me: apesar de qualquer ansiedade que possa invadir suas entranhas, acho admirável a placidez, a tolerância e o discernimento que você demonstra ter em meio aos fatos cotidianos… e me inspiro nessas atitudes que observo para trazer um pouco mais de objetividade, também, ao meu pensar.

Por vezes, percebo que acabo me levando pela emoção – o que ajuda em alguns casos, mas em outros pode se tornar uma grande armadilha, acima de tudo quando se tem prazos a cumprir e tarefas a completar – e, com você, aprendo a “separar o joio do trigo”, oferecendo clareza a cada situação…

É por isso que te escrevo nesta tarde de quinta-feira, quando não estamos juntas no “café entre esquinas” – como você o costuma chamar – mas, ainda assim, sua presença se mantém viva em todos os espaços aos quais dirijo o meu olhar…

Quero dizer-te que é uma sensação muito aconchegante ter um porto a que se dirigir, quando o barco parece quase naufragar ante a nossa perspectiva… e quando nos falta o bom senso para encontrar a melhor saída por conta própria.

Gostaria, também, que soubesse que o meu universo se tornou muito mais interessante depois que você me ajudou a descobrir por onde anda essa tal de identidade, à qual me remeto no início da carta… Talvez eu nem tivesse ciência – antes – do quanto a buscava, mas hoje entendo a falta que me fazia. Ter um norte, em certos momentos, é tudo o que se precisa para dar o primeiro passo.

E você me auxilia a construir e desvendar esse mundo completamente encantador, por meio de leituras, escritas, trocas, cumplicidade e, acima de tudo, por me dizer que é possível enxergar o que há por detrás das cortinas, sem medo do que virá…

Grazie.

Um brinde com gosto de café,

T.

Das tardes que encontro em ti…

“Se em um instante se nasce e em um instante se morre,
um instante é o bastante para uma vida inteira.”

[Cecilia Meireles]

Já passa das cinco da tarde e eu quase consigo enxergar as pessoas ensaiando uma espécie de repouso lá fora… as ruas e seus movimentos pedem descanso, enquanto o sol se esconde no horizonte, ainda que sua luz ainda permaneça visível aos meus olhos…

O calor insano de hoje me levou à exaustão – fazendo alusões àquilo que sinto quando meu corpo chega ao limite. Não se trata de uma situação muito incomum, você bem sabe… mas dias assim me permitem recordar que é preciso de uma dose extra de energia para se estar presente de corpo e alma neste planeta Terra – não tem sido fácil ser minimamente humano por aqui…

Dentro de mim, percebo que sempre há muito a fazer, mesmo que em verdade o meu desejo seja me permitir parar por um instante – contemplar cenários e, acima de tudo, relembrar partes sagradas de diálogos… Palavras que não voltam mais em tom semelhante – pois foram únicas em sua naturalidade e beleza – mas se eternizaram em minha lembrança.

É isto que fica em meu íntimo na estafa de uma terça-feira comum como hoje: você… Entre o tudo e o nada que consigo ater nas mãos, cada som emitido por sua voz reverbera em mim como nuvem – esfumaçando memórias que acalentam o coração, prometendo amanhãs de maior conforto na pele que habito…

Fico por aqui, pois hoje ainda preciso das letras para um pouco mais… Você vem ao meu encontro?