Entre uma possibilidade e outra… agosto!

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia
fui ficando

por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

| Mia Couto, in: “Raiz de Orvalho e Outros Poemas” |

Agosto já soma seus dez dias, envolvidos por um sol escaldante que percorre manhãs e tardes, quase sem exceção. Confesso sentir falta da temperatura fria-amena e das gotas de chuva que costumavam nos visitar nesta época, mas toda a chance que há, por ora, é aguardar

O mês de número 08 – como é chamado no calendário civil – tende a me trazer de volta as oportunidades pausadas em julho… Retomam-se os trabalhos, as aulas… pessoas chegam de viagem, há o planejamento para o fadado segundo semestre… enfim, espera-se que a vida siga o seu fluxo rotineiro… já é uma excelente premissa!

Eu gosto desse tempo porque ele me traz lembranças de recomeço… e é particularmente natural em mim o amor pelas novas chances, pela metamorfose… por desconstruir e iniciar tudo outra vez, em roupagem inédita…

Fiz diversos planos para agosto, mas o primordial deles é refinar a presença neste espaço… Caminhar com liberdade em meio às palavras – meu instrumento, meu meio e meu fim. Dialogar com o outro – vocês – e, claro, comigo… Conforme ouvi outro dia, não ser uma uma fraude diante daquilo que me é mais autêntico

Vamos começar?

Os dias de maio…

Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.

| Carlos Drummond de Andrade, in ‘A Falta que Ama’ |

Maio chegou até mim oferecendo uma xícara de chá de hibiscos… me fez o convite a sentir o prazer das coisas esquecidas – com uma calma incomum, rara…

Virei a página do calendário, deparando-me com este mês e seu leque de possibilidades… preencher de música o ambiente, de modo a distrair a alma de seus deslizes incontidos… passar os olhos sobre as centenas de livros guardados na estante e trazê-los ao agora, ao hoje que me resta…

Maio é este conjunto de dias sem grandes premissas em meu íntimo, mas que – a despeito disso – consegue inserir em sua passagem uma leveza… um carisma… uma despretensiosidade inexistente em qualquer outro mês.

Parece-me como um período de revigorar energias, repensar conceitos e, justamente por esse fato, tudo pode acontecer… ou não!

Sento-me aqui, diante da tela em branco, a praticar o exercício que mais me tem sido comum nos últimos dias: observar o ar entrando e saindo de meus pulmões… perceber que a vida é um sopro que cabe na palma de nossas mãos e – por tal fragilidade – pode se esvair dentro do instante presente…

Fez-se abril…

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘O Nome das Coisas’

Alguns meses se passaram sem que eu me pusesse a dissertar sobre seus dias… Assuntos outros tocaram minha derme com maior veemência e, talvez por isso, eu tenha me afastado um pouco da ideia de me basear no Chronos para oferecer certo ritmo a cada manhã…

Escapei das horas como criança que esconde o rosto atrás das próprias mãos, envolta em melindres e elocubrações. Guardei meu relógio a sete chaves, buscando fugir de um tempo que escorria de meus poros, em tom alarmante e abusivamente cego.

Eis que chegou abril, com suas datas promissoras e enunciados festivos… Como não poderia ser diferente, avistei o novo mês chegar sorrindo… Ele não habita minha alma como todos os outros: é um tempo tão meu!

Seus dias abraçaram serenamente o canto silencioso de meus lábios… sem exigências, sem condenações. Natural, sensível… resgatando-me de volta à ternura de cada premissa.

Fez-se abril… e já me sinto genuinamente em paz, outra vez!

Adormeceu novembro…

“(…) Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.”

[ Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Dia do Mar’ ]

Eu gosto de pontuar datas – é um ritual que, com o passar dos anos, tornou-se intrínseco à minha natureza – como se eu precisasse desse marco para sentir que estou viva, em movimento… em direção a algo que, a qualquer instante, tem a possibilidade de se modificar.

Ouço uma ou duas pessoas próximas me dizerem que isso não faz sentido algum – que mudam os meses, mas os ciclos simplesmente continuam… e nada se modifica – o que para mim soa como tamanho estranhamento, pois já me acostumei a celebrar tal passagem como se fosse o meu próprio renascimento.

E ontem me peguei, novamente, preparando-me para o início deste que é o último mês do calendário gregoriano de 2015. A bem da verdade, não havia me dado conta dos dias de novembro de maneira propriamente dita – sinto que precisei ser outra para depois voltar a me pertencer realmente…

Mas, quando a minha voz interior – aquela que faz conexão direta com a alma – questionou-me quais seriam as minhas primeiras linhas de dezembro, eu não hesitei na resposta: as palavras fluiriam normalmente, sem empecilhos.

Novembro adormeceu de modo muito natural em minha derme. Simplesmente fechou os olhos e se foi… seguiu seu fluxo para que outras folhas em branco pudessem ser preenchidas…

… mas deixando suas devidas impressões, cicatrizes e premissas de um tempo outro – que ainda não sei…

Outro mês, outra vida? Acho que não…

“Quero te dizer que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões.”

[Lygia Fagundes Telles]

… o mês de maio se espreguiçou diante de minha sombra na semana passada, numa tentativa sôfrega de fazer corpo e espírito entenderem que abril havia chegado ao fim… eu tenho dificuldade em lidar com despedidas, finais e rupturas – nunca fui muito boa nisso – e, em se tratando de abril, o mês de minha alma, seria ousadia pedir que o sentimento fosse qualquer outro.

Enxerguei o novo mês caminhando entre as beiradas da rotina e, despretensiosamente, convidei-o a tomar uma xícara de café em minha companhia. Juntos – os dias e eu – acreditei que pudéssemos formar um belo conjunto de sons e tonalidades… Deixei de lado minha resistência contra os novos passos, e parti em meio à fluidez que, por si só, perpassa o caminho.

Maio aterrissou por aqui, já pedindo para ficar um pouco mais… para se esticar no entrelace da correria insana de nossos dias, como quem suplica por um espaço único – diverso – sutilmente simples em sua forma de existir. Instantes que vieram para ser o que são… e isso talvez já signifique muito.

Não sei ao certo o que as próximas manhãs trarão da perspectiva para a minha janela, mas estou pronta a me propor uma espécie de continuidade… Atrelar pausas a um cotidiano que nem sempre oferece brisas de calmaria. Ser inteira ao reviver cada metade que não pôde satisfazer meu íntimo até então.

Dou boas-vindas a maio porque preciso saudar o novo que me interpela, ciente de meus desejos e vontades – e firme nesse limiar de ir ao meu encontro todos os dias… tarefa não muito fácil, mas que renovo a cada outro mês que meu coração alcança…