Mar sem respiro

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“Aguardo-me no tempo da viagem,
que o tempo me esqueça,
que março termine,
que o mar acalme…”

— O Transversal (VCruz) —

Vez ou outra, mergulho em mares profundos, praticamente sem volta. Quase nunca consigo vislumbrar sequer uma possibilidade de retorno.

Um piscar de olhos e já nem estou mais ali. Não sei onde estive, muito menos aonde cada maré luminosa irá me levar.

A bem da verdade, há pouquíssimos momentos no quais me reconheço no lugar em que me basto. Ficam as frases que não foram faladas e, assim, o silêncio do não dito perturba a minha calmaria.

Nunca fui de me expressar em meio aos restos, mas eles são o meu porto seguro nos instantes de retomar qualquer tipo de fôlego. Talvez, apenas para tentar mais uma vez.

As ondas daquele mar ainda me assustam. É um ambiente já familiar ao meu suposto abrigo, mas o conhecido nem sempre se faz acalento.

Busco, pois, motivos para adormecer os medos e fazer cantoria na calada da noite. Ela, sim, me conforta, principalmente porque se nega a contar o que ocorrerá no despertar de cada manhã.

Não seria este um motivo de espanto e angústia, a incerteza do dia seguinte? No meu caso, é ao contrário. A ignorância acomoda todos os vícios, mantendo-os sãos, sóbrios, estranhamente confiáveis.

E eu vou seguindo, rumo a um novo mar, mesmo sem saber quando ou por que irei avistá-lo.

Desconhecido…

“O que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca, e é preciso andar muito para se alcançar o que está perto.”

– José Saramago –

Confesso que hoje, desde o instante em que me levantei da cama, só queria poder (e conseguir) escrever com descontinuidade a respeito dos meus vazios.

Talvez dissertar de modo impensado sobre o que já não sinto mais aqui ou falar compulsivamente daquilo que parece ter seguido rumo a um lugar bem distante do tatear de minha alma.

Mas, na pausa entre o pigarrear, um café e outra melodia, eu me lembrei de você.

Sim, você. Uma pessoa que eu ainda mal ousei conhecer, mas que já se permitiu ensaiar dias melhores em meus cenários.

Por um demorado instante, as paisagens, que antes se faziam levemente tristes, puderam sorrir em certo espaço partido e perdido da mente…

Eu não sei onde você mora, nem mesmo de onde surgiu para chegar até mim…

Quem é você, caro desconhecido que me visita e causa tamanha sensação de apego?

Quem é você que já permeia as lacunas da minha escandalosa falta?

Deixando um pouco as racionalidades de lado, pergunto-me: será que isso realmente importa?

Pode ser que eu precise apenas te sentir. Saber por que você está aqui. Entender se isso não significa viver mais de um mesmo contexto.

E, se significar, não me arriscarei? Difícil dizer, principalmente porque meu íntimo já sabe a resposta.

Eu deixo meu coração se doer até o fim, mas jamais me recusaria a prosseguir enredos por medo de sentir… MUITO.