Em (pura) conexão…

Gosto quando você chega em tom de prosa-missiva-dúvida-ousadia pontuando os meus silêncios… Das horas em que insiste naquilo que há tempos deixei para trás, mesmo já me prevendo tão incerta, porque sabe que o resultado final vale a pena.

Gosto daqueles instantes em que você sussurra a verdade ensurdecedora escondida pelos outros, mas que sua alma não possui motivo algum para negar… Do momento único – transparente – no qual não preciso ser nada além daquilo que aparento diante de seus olhos, pois isso te basta… e só.

Gosto quando necessito me despir de minhas fragilidades e, naquele mesmo segundo, você me empresta suas vestes de força… na teimosia silenciosa e sábia de que um dia elas se adequem a mim!

Enfim… gosto do que imagino e sinto ao desanuviar os dias através da leveza que emana de suas palavras, que nem sempre têm um objeto específico… mas o tempo todo adentram diretamente o meu coração…

Às vezes, causamos ‘surpresa’ somente aos olhos alheios…

Inegável como a lua esconde o sol em um eclipse, eis-me aqui – escondida neste mundo arquitetado por mente e coração – fazendo com que a inexistência do toque perverso do medo oculte a realidade insossa de cada dia.

Ao longo de um razoável espaço de tempo, o fingimento me serviu de aresta à sobrevivência… Buscava uma presença fora de mim mesma, que completasse minhas ânsias e aspirações… que viesse amenizar tamanho fogo que me queimava por dentro, durante madrugadas corrosivas-insones-eternas…

Numa tentativa sôfrega de me desvencilhar do chão que mantinha meu sustento, olhava para aquele outro universo de possibilidades, ao qual desejaria para sempre me prender. Era nas pessoas – em suas histórias, vivências e afetos – que residia a minha paisagem lúdica de paixões, o meu arcabouço de loucuras possíveis e viagens imaginárias.

Talvez não houvesse nada de tão diverso ou elucidador assim, na espreita vizinha… Muito provavelmente fosse apenas mais um de meus delírios. De meus desequilíbrios torpes e indefiníveis… tão frágeis quanto a linha fina que sustenta a presença de um humano entre o céu e a terra. (Existirá este céu figurativo? Simbolismos bobos-exagerados-medíocres da nossa ingênua leviandade…)

Por inúmeras vezes, deixei minhas previsibilidades para depois, oferecendo morada a riscos e ousadias outras. Não sabia onde iria chegar… mas, certamente, compreendia que ali – no contraste bizarro envolvendo minhas origens –, o aninhamento desejado nunca se daria em paz.

Pouco a pouco, eu me desfiz dos muros que me cercavam e passei a construir pontes que pudessem me levar ao (possível) terreno ideal – um salto à frente, muitas máscaras para trás – tornando-me fiel à própria imagem. Mais uma ilusão provável? Não seria surpresa se sim… Mas a vida é esta sucessão de dias com noites nos entremeios, e é preciso segui-la como se pode. Como se entende… até que as coisas, um dia, quem sabe… mudem.

Deitei os olhos sobre minha figura no espelho, avistando-me como aquele retrato do que nunca deixei de ser: uma janela prestes a ser aberta, cujo último movimento fica detido. Um espiar por entre frestas. Dentro, apenas se imagina o lado de fora, confeccionado a partir de mim mesma…

Foi então que abracei o avesso de cada medo e dei as mãos a um futuro incerto, porém, necessário ao encantamento da alma. Não conhecia atalhos, mas – naquele instante – a voz íntima e essencial tratava de me assegurar do mais importante: o caminho de volta para casa.

Grito íntimo

“[…] se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse”

— Renata Pallottini, in ‘A Faca e a Pedra’ —

Mais uma noite chega para me visitar, enquanto observo vontades se esvaziarem de meus poros… Até mesmo o que antes se escondia atrás de um desejo, hoje não passa de mera indiferença!

Deixei guardada em uma gaveta qualquer as lágrimas de sangue outrora derramadas. Dias a fio remexendo em cicatrizes. Marcas-agruras que larguei para trás. Dilacerar: o único verbo rabiscado em minhas paredes, é o que me conta a lembrança…

Hoje, percebo minhas vísceras se manifestarem quase que apenas na folha em branco – convertida, às vezes, em tela – que me serve de pano de fundo a um voo paralelo, onde o cinza ganha sua possível nuance colorida. Um aspecto mais trágico-dramático-sensível, como sempre apreciei vivenciar…

O ambiente opaco ao meu redor, que tão pouco – ou nada –  me diz –, apela rumo à vertigem constante nestes olhos incrédulos de dor. Grito para dentro quando a voz de fora já se faz demasiado intensa. Mas, como insistente sonhadora que sou, prefiro acreditar em uma revigorada ilusão antes do fim.

Entre a apatia e a morte, sou mais nascer de novo.

Eu sou essa casa vazia…

Encontro-me hoje no mesmo recinto escuro do qual nunca me retirei.

A sala silenciosa, um ambiente taciturno que faz calar as vozes de fora, mas alimenta de maneira exponencial os ruídos de dentro.

Sentimentos pardos percorrem a lembrança daquela vida pautada em tudo e nada, contrapondo o ato e pensamento num jogo sem fim.

Eu me acostumei a expor cada uma das facetas dessa agonia que hoje parece não pesar tanto. Mas o fato é que dói, dói muito. Lateja fundo em meus poros e grita nos instantes em que mais necessitaria se calar.

A memória nublada se transforma em vivência e já não há mais como separar o que é ilusão da realidade fincada pelos pés. Percebo na pele os vestígios que ainda ardem – vívidos-intensos-aguçados-volumosos – sem sentir pena alguma de me guiar até determinados cenários.

Pena é um sentimento muito pobre e vil, já me disseram.

Talvez o mais audacioso seja transitar em meio ao labirinto, desenfeitar o que é sangue puro e rumar ante um caminho sem volta. Andar pela sombra, esta tão conhecida proteção minha.

Arranha-dor

Hoje me rasguei ao meio novamente… Já não é novidade para mim, muito menos para você.

Confundi o doce com o amargo e, em questão de segundos, não consegui mais reconhecer o gosto que penetrava em minha saliva. Mergulhei em mar raso, superficial – inócuo –, que não demorou a adentrar profundezas e terrenos indesejados.

Não queria estar ali, mas você me levou até lá, com sua presença inóspita e seu desafio inadequado… arrastei-me ao porão de suas imundices. E me debulhei em lágrimas.

Pelo dito, pelo não-dito e por todas as dores que ficaram engasgadas em meio à garganta e o coração. Pelo violino que você tocou ao pé dos meus ouvidos, desdenhando ao fato de que ele arranhava notas ao contrário e, com isso, perfurava minha alma.

Preferi me calar… não refutar, afinal, você jamais entenderia. Sussurraria algo ameno para mudar de assunto, porque você só sabe fugir… é apenas isso que você conhece. É tão somente a fuga que te move à vida.

Enquanto brinco de me desmanchar, você finge respirar uma espécie de ar seguro. E seguimos, até que não se lance a voz à imensidão.

Translúcida

Observo o som do tilintar de meus dedos no teclado do note, que denuncia: a tarde já está no meio e o movimento foi quase nulo por aqui… A não ser pelo detalhe das sombras, que trazem um enrijecimento qualquer ao meu sentir, poderia notar-me pálida, opaca – feito os segundos que não se percebem passar no relógio – aguardando tão somente a indiferença para seguir existindo do mesmo modo… como sempre. Até ontem eu possuía todo um discurso pronto à mão, mas hoje meu olhar apenas rasteja através daquelas palavras que ficaram por dizer.

Sangue Vivo

Caminho e atrás de mim caminham as estrelas
até seu próximo amanhã
o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço
amortecem meus passos, avivam meu sangue.

Não iniciei a trilha, ainda
não vejo nenhum jazigo
caminho até mim mesmo, até
meu próximo amanhã
caminho e atrás de mim caminham as estrelas

[ Adonis, In: Poemas ]

Há em mim esta insuficiência que enlouquece e dilacera… Devora-me a ideia de que serei outra – alheia ao meu íntimo – durante uma vida inteira e, contudo, precisarei habitar um mesmo corpo até o final dos meus dias…

Ontem mesmo descobri uma verdade irrefutável aos olhos e, ao mesmo tempo, tão dolorida ao coração! Não queria de fato que fosse assim… mas, nada posso fazer para conter-me diante das provas que arrefecem tal perspectiva.

O fato é que descobri que tenho muito menos a dizer-te do que imaginava. Não são as palavras que me sufocam… não! Elas simplesmente não existem. Fizeram-se ausentes desde o momento primeiro, quando te avistei inerte próximo à minha figura…

Depois de você, dezenas de ramificações vieram para substituir – ou, se assim posso arriscar dizer, fazer surgir – o significado grandioso da sua existência em mim. Foram essas pessoas, sim, que produziram qualquer espécie de essência em meu discurso… A elas sempre tive muito a dizer e, quando o silêncio se fez maior, pude calar sem peso na consciência.

Retirar-me do cenário não é difícil quando há um diálogo anterior. Uma troca que me prove que, um dia – bem ali – existiu presença… ao contrário de você, que esteve ao largo das minhas paixões e, inclusive, dos desafetos.

Você não foi nada. Talvez nunca seja nada… Nem o seu disfarce te cabe, pois quando aprendeu a usá-lo, já se fazia tarde demais…

Coloque as máscaras em cima da mesa. Eu permanecerei aqui, conforme disse, a residir nesse mesmo insólito corpo… inegavelmente.

Terá você, um dia, verdadeira e intragável morada também para si?

Cartas a alguém que não vai ler, 04

Hoje meu coração amanheceu partido ao meio. O sol se faz iluminado lá fora, com seus raios a aquecer cada passo dos homens que transitam pelas ruas. Mas, aqui dentro de mim, tudo o que surge é a exaustão fria, mesclada a um grande sentimento de ruptura indigesta…

Percebo meu corpo embalado por um imenso gole de ar, para o qual não houve preparo: apenas susto. Penso que certos instantes da vida não nos permitem ensaios – cabe-nos tão somente experenciá-los como possível for, delineando as agruras que percorrem a pele.

Adormeci regada por um sem-número de frases indóceis e despertei silêncio… entremeado pelas poucas palavras tortas que restaram de solidão.

Sim, hoje seria um daqueles dias em que seu colo poderia me servir de abrigo para falar de amor. De despedida, talvez… De uma série de aprendizados jamais em vão, mas que – por um singelo instante – mostram-se densos, e soam mais confortáveis quando divididos.

Olho de soslaio para a vida, e ela – em sua sabedoria irônica – convida-me a esperar pelo amanhã… Vem comigo?

Cartas a alguém que não vai ler, 03

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

[…]

– Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas” –

Deparo-me com seus traços que se encaixam tão perfeitamente em minha derme e, nesses instantes, torna-se inevitável observar-te em nuances de aproximação e distância… Transmuto-me em fugas para que você não me encontre, ainda que o meu maior desejo persista em ser delineada por seus olhos.

Em outros tempos, quando a fala é escassa e eu percebo o nó amargando o seu peito, é como se você se tornasse tão pequeno que pudesse caber dentro da palma de minha mão… E, por te enxergar tão frágil, amanso minhas defesas… Deixo para depois o que jamais poderia ser lançado no momento presente. Caminho ao seu lado, mesmo que seu coração desconheça a entrega.

Não nego, porém, que essa sua presença (ausente) – por tantas vezes – me faça sentir desconfortável, distante de mim… O que sou quando estou com você, além de um planejamento de ideias mal traçadas? Um esboço que não se enquadra? Um evitar-dizer…?

Alivia-me pensar que, talvez, a hora do encontro apenas ainda não tenha chegado… Se um dia ela virá, eu também não sei, mas ao menos hoje eu a vislumbro, porque a quero! Preciso dessa vivência… Quero-te avesso e espelho, faces de uma mesma moeda, para descobrir aquilo que ainda estranho em meus próprios espaços.

Você não é a resposta, nem mesmo o atalho… Mas dizem que uma origem – ou raiz sólida – pode vir a gerar belos frutos… ainda que as páginas sejam revisitadas tempos depois!

Falso Self

“Olho em volta e me reconstruo de novo, saindo e voltando de um lugar que eu não sei onde é. Páginas em branco e silêncio de mim. Linhas tortas que ainda não vêm. Uma hora elas chegam, eu sei, elas hão de chegar vivas traçando caminhos de arco-íris, daqueles que eu aprendi a tirar da cartola – como um dia me ensinou o poeta.”

[Silvia Badim]

Não sei ao certo em que instante acontece de nos misturarmos ao ambiente – a tal ponto de não mais ser possível definir.o que é de dentro e o que é de fora… Só sei que, quando abri os olhos, minha derme já estava mesclada ao chão, assumindo papéis que hoje não compreendo como esvaziar de mim…

Enquanto caminho despretensiosamente pelas ruas, lembro-me desse alguém que fui – até pouco tempo atrás… menos misturada… menos sujeita a obrigatoriedades… -, e de certa maneira busco os resquícios para que essa essência retorne até mim… um pouco isenta das contaminações que tanto me impugnam o íntimo no dia a dia.

Pouco a pouco, percebo que, quanto mais responsabilidades assumo no mundo lá fora, menos consigo ser eu aqui, onde – de fato – me importa… Visto máscaras, assumo riscos, engulo longos goles de saliva para, em seguida, respirar fundo, numa espécie de tentativa de… sobreviver!

E, em meio a esse estranho círculo vicioso, compro livros que jamais irei ler, assumo dívidas que nunca conseguirei pagar, coloco para dentro alimentos que meu estômago não comporta, assumo prazos que não serei capaz de cumprir, topo trabalhos que não tenho potencial para fazer, crio vínculos desnecessários, deixo de escrever as linhas que me fervem, abstenho-me dos meus desfrutes… da minha alegria, do meu descanso de corpo e alma.

Estabeleço, enfim, uma não-vida, fingindo que está tudo bem…

Eu não sei em que ponto deixei que as coisas se perdessem assim, mas confesso que quero muito… muito (me) encontrar!