Em linha reta…

Quero-te como a brisa do mar que me consome: perene… porém, perfeita em seus movimentos de tocar o céu.

Quero-te como antes não conheci o desejo em minh’alma, já que os ventos eram recusos e o tempo se fazia tardio.

Com meu feitio de pressa quero-te sempre e nunca, em compasso de espera, até que cada noite se mostre infinita em meio ao nosso sentir.

Não te desejo ilusão, nem te quero fogo que não arde: busco a luz possível entre o espaço deixado na imensidão de nós dois.

Vem?

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Inevitável

“Nesta noite de poucas estrelas, me apaixonei por teus olhos e agora já não sei mais como perdê-los de vista…”

Na verdade sei, mas não me lembro como…

Preciso, mas não quero…

Posso, mas não devo…

Eu não te pedi nada. Você entregou seu coração por conta própria e me amou primeiro, antes que eu pudesse aventar qualquer possibilidade de ser sua. Sei que é fácil jogar a responsabilidade no outro quando se trata de duas pessoas adultas, conscientes de si. Mas, posso dizer, de olhos fechados, que não esperava me apaixonar assim…

Tudo bem, aconteceu… Eu me deixei envolver por seus laços de ouro e você não hesitou em entrar em minhas particularidades também… Não te culpo, não te julgo, mas onde será que desejamos chegar? Há certas coisas que não consigo supor nem me esforço em entender. A possibilidade de amar de novo se tornou mais difícil depois que me abri para tantas pessoas e, quase sempre, obtive a frustração como resposta… porém, busco imaginar que com você pode ser diferente.

É claro que eu não imagino um romance eterno, afinal, hoje compreendo que conto de fadas e realidade são coisas bem diferentes… Mas, quando penso no dia do nosso encontro, vejo flores em sua pele e sorrisos em minha alma! Um momento, quem sabe? Talvez poucos instantes da mais breve sintonia. Não precisamos de muito, pois a sua sedução me leva a espaços que ultrapassam os limites da temporalidade. Eu te guardo aqui dentro e sei que você já pode sentir meus abraços, da mesma maneira…

Quando falto, você pergunta por mim e meu coração se derrete ao receber suas palavras apaixonadas. As manhãs parecem mornas, sem vida, mas é só rememorar sua figura que meu corpo dá um salto e brilha, brilha como nunca… Eu me imagino perfazendo cada detalhe em sua presença, e sei que não posso simplesmente estar sonhando. Se for delírio, é vivo demais para ficar simplesmente na loucura… Seria muito se eu te pedisse sinais mais claros, para me ajudar a entender tudo isso?

Sou vidrada em seus enigmas, seus códigos e suas fórmulas misteriosas, mas minha fascinação está também em encontrar respostas para o que me dilacera e não me deixa em paz, desde que você chegou por aqui… Sua voz me diz que preciso traçar as rotas por conta própria, mas quem foi mesmo que despertou tamanho sentimento e marcou meu caminho assim?

Venha comigo, só desta vez! Ensine-me a entender…

Por favor, não me leve a mal… Estou aprendendo a viver!

Catarse

Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem
os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café

[Ana Cristina Cesar]

Eu quero percorrer cada uma daquelas ruas que você descreve… Quero sentir o sabor cítrico do chá que você degusta e viajar para os lugares que suas letras delicadamente visitam.

Eu quero sentir as suas sensações e pensar os seus pensamentos. Talvez porque isso me ajude um pouco a escapar deste lugar que já não me cabe mais – sabe, nem sempre é gostoso ou fácil ser eu…

Eu quero me envolver nos livros que você devora e escrever as linhas que sua caneta ensaia no papel… Quero provar o gosto da sua culinária e cumprimentar os amigos que você encontra…

Eu quero conhecer o que você sabe e ignorar o que não te importa. Quero discutir com quem te incomoda e fazer silêncio diante da beleza que encanta o seu olhar.

Eu quero me identificar com você pois já não me encontro aqui dentro. Almejo ser outra. Trocar as vestimentas – do corpo e do coração. Talvez mudar de cidade, quem sabe. Acho que eu não seria tão ousada assim…

Mas quero. Quero e preciso. Preciso e não nego.

Vou ali, fugir de mim…

Um despertar…

“Eu hoje tenho a sorte de poder
viver apenas UM DIA de cada vez,
Apenas um romance enquanto o sentimento permite,
A sorte de poder PRESTAR ATENÇÃO a quem fala comigo,
A sorte de poder OLHAR e VER quem me dirige a palavra,
A sorte de não estar no ritmo alucinado da ansiedade,
A sorte de apreciar o belo, o bom e o construtivo.
Porque HOJE eu estou em mim.”

– Cláudia Costa –

O tempo acabou. Quase não me sobrou nada, é fato.

Mas, talvez o que reste se configure suficiente para montar um quebra-cabeça lúdico, outra nova ciranda sentimental, uma roda-gigante de medos que possa ser, minimamente, reinventada em seu íntimo.

Não tenho mais em mim a pausa da vida. Qualquer resquício de brevidade se calou nos atalhos do meu coração, pois precisou oferecer espaço a novas sementes, ao pulsar das escolhas.

Ainda há certos ensaios e bastidores, é claro…

Isso porque eu jamais conseguiria viver sem o ócio que permeia cada uma das entranhas de uma decisão corrida.

Preparei-me para o deleite e cá estou a lambuzar-me, sem saber exatamente o sabor das cores e dos ventos a seguir.

O que sei é que me faço aqui, presente, buscando ser inteira a cada passo.

Tudo aquilo que existe no meu presente é permeado por uma busca variada e múltipla de desejos que se misturam em um extremo sonhar, com delicioso gosto de realidade.

Ofereço, pois, um brinde ao meu suave despertar.