Palpite…

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

| Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas” |

Não espero mais até o dia em que as ondas deste imenso mar irão me engolir por completo… sinto-me desalojada de minha própria pele, onde já não cabem as vestes de uma alma partida ao meio – próxima a desabar.

Vivo o agora em suas repetições desarmônicas, enquanto ecos inúmeros reverberam em meu íntimo; histórias… amores… desilusões… toda uma existência gravada no filme da memória, perpassando minha mente em questão de segundos.

O tempo toma minhas mãos como se esta fosse a primeira vez… mas, embora exista recusa em acreditar, a intuição me conta: passei por aqui muito antes…

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À francesa…

Em poucos instantes na vida me concedi uma pausa para ponderar a mim mesma. Sempre fui movida pelas pessoas e suas presenças, que fizeram de mim o que sou hoje. Não foram muitas as que realmente causaram impacto, mas cada uma delas foi importante e, por isso, penso que seja tão difícil me desapegar.

Com o tempo, fui conseguindo ter abertura e pedir um momento para me encontrar. Consegui isso há bem pouco, quando já me sentia sufocando. Tenho aprendido muito comigo mesma e quero seguir nesse aprendizado.

Justamente por conta de tudo isso, confesso que não entendo certas reações. Afinal, aqueles que de fato são próximos deveriam saber reconhecer quando tudo fica denso, o instante em que o ar se torna pesado demais, em vez de nos julgar ou condenar porque precisamos apenas da nossa própria companhia.

Muitas e muitas vezes, disseram-me que eu não deveria esperar demais das pessoas. Eu entendi, mas mesmo assim sigo esperando por mais e mais, porque foi assim a minha vida inteira. Como mudar de repente? De fato, não sei…

Algumas coisas são frustrantes e machucam, e sei que sou transparente a ponto de me deixar tocar por pequenos gestos, até mesmo pelos mais simples. Sofro, mas percebi que todos os sentimentos me fazem mais forte, permitindo, por exemplo, a escrita como escape.

Notei também, acima de tudo, que as pessoas ficam em nossas vidas se assim for o desejo delas. Caso contrário, vão embora, o que não quer dizer que somos mais ou menos importantes. Quer dizer apenas que o tempo passou…

Como observo que deixou a porta aberta, saio à francesa, para não fazer barulho. O que falarmos a mais, em minha singela opinião, será excesso.

Cartas a alguém que não vai ler, 04

Hoje meu coração amanheceu partido ao meio. O sol se faz iluminado lá fora, com seus raios a aquecer cada passo dos homens que transitam pelas ruas. Mas, aqui dentro de mim, tudo o que surge é a exaustão fria, mesclada a um grande sentimento de ruptura indigesta…

Percebo meu corpo embalado por um imenso gole de ar, para o qual não houve preparo: apenas susto. Penso que certos instantes da vida não nos permitem ensaios – cabe-nos tão somente experenciá-los como possível for, delineando as agruras que percorrem a pele.

Adormeci regada por um sem-número de frases indóceis e despertei silêncio… entremeado pelas poucas palavras tortas que restaram de solidão.

Sim, hoje seria um daqueles dias em que seu colo poderia me servir de abrigo para falar de amor. De despedida, talvez… De uma série de aprendizados jamais em vão, mas que – por um singelo instante – mostram-se densos, e soam mais confortáveis quando divididos.

Olho de soslaio para a vida, e ela – em sua sabedoria irônica – convida-me a esperar pelo amanhã… Vem comigo?

Eu nunca aprendi a me despedir…

“São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida…”

[ Milton Nascimento ]

Partir nunca esteve – para mim – entre as tarefas mais simples da vida. É latente em minha memória a dificuldade que tive, desde pequena, para me habituar a essa (estranha) necessidade que a existência nos impõe…

Deixar para trás um punhado de coisas é algo trabalhoso não apenas ao corpo, mas também à alma: esvaziar-se de pessoas, sentimentos, instantes, sonhos, pensamentos, presenças, ilusões… e, por que não dizer, de toda uma realidade em si?

Talvez um leque interessante e precioso de lembranças ainda permaneça – muito vivo – no espaço da mente, até o fim da vida… até o momento em que nossos braços se mostrem extremamente frágeis para suportar bagagens envoltas em saudades…

Mas, havemos de concordar: nenhum suspiro ou recordação é capaz de substituir o valor da própria vivência em si. Passamos por cada história – assim como cada história passa por nós – e já não somos hoje os mesmos de antes.

O que carrego em meu peito é uma amostra. Um aroma… A fragrância daquela que busquei ser – com toda minha essência – dentro do presente que desejei eterno… e que, assim como chegou, também se foi, como um sopro.

Depois da partida, aprendo a remendar os passos, para que a caminhada se faça outra vez… Não há abertura para uma espera exacerbada: talvez apenas a lacuna entre a lágrima que escorre pelo rosto, e o tempo que levo para secá-la.

E, como se fosse a primeira vez – como se a dor nunca tivesse me visitado – negocio amigavelmente com aqueles que avisto chegar pela estrada. Preparo uma xícara de café… repouso o livro recém-começado sobre a cama… e preparo meus lábios para um longo beijo.

Afinal, nunca se sabe quando será preciso partir novamente…

Da tentativa de adeus….

Despedir-me de ti é sempre acenar um adeus indesejado. É entoar melodias que o íntimo de minha alma desconhece, uma vez que aprendeu somente a se expressar em tua presença.

Mas, insistente que sou, aqui me coloco para ensaiar aquele que seria o nosso último abraço. Uma tarde de segunda-feira parece ser bastante propícia para denotar solidões – por vezes temidas, mas que soam demasiadamente necessárias quando se pretende encontrar o cerne das coisas…

Confesso que ainda não aprendi palavras suficientes para poder me afastar com firmeza do teu dialeto, que já se tornou tão confortável – tão pleno aos meus olhos e ouvidos… Sinto-me perdida sem tua voz por perto, sem a certeza de que estarás bem ali para mim quando eu precisar.

Penso que talvez eu nem demande tanto assim a tua existência quanto imagino. Insisto em te querer o tempo todo me cercando e vigiando, como uma espécie de parasita em teus compridos braços – que abrigam, mas também sufocam.

Ilusão, utopia ou o quê? Por mais que eu me embriague de ti, o vazio nunca se preenche… Ele permanece latejando em meus poros e, contrário ao meu esforço, aumenta cada vez mais.

Parece não haver barreiras quando as marcas deixadas por teu sangue se derramam sobre a minha pele. E eu só consigo murrmurar de tamanha dor… Quando me excedo em teu prazer, proporcional é a angústia, a mágoa e a frustração. A culpa me faz prisioneira das trevas deste amor…

Espera… eu disse amor? Só posso estar brincando… Amor envolve troca, cumplicidade, sentimento genuíno. Aqui há no máximo uma extrema dependência. Um gozo desenfreado. E só.

Penso que – mesmo contra a minha vontade, e sabendo o quanto será doloroso – está chegando a hora de te deixar à deriva, meu bem… Sem arrependimentos nem riscos de voltar atrás.

Preciso sentir que consigo caminhar sem o aconchego de tuas mãos, pois os espinhos trazidos por elas têm sido mais maléficos que a suposta ternura à qual – de início – nossa relação se propôs.

Hoje, abdico de tua morada para lembrar que existo.
Sem ti, muito mais em mim.