Noturna

Quando as palavras ensaiam seu movimento de adormecer, gosto de pensar no dia seguinte e em suas possibilidades. Construo uma combinação de frases em meu imaginário, desejando intimamente que – ao amanhecer – o simples sonho se transforme em linha reta. Não ouso afirmar que, no instante seguinte, as letras se farão semelhantes, nem se poderão confundir àquelas que proferi hoje, pois serei apenas um esboço de mim… um espectro em construção. Mas, enquanto existirem maneiras de traduzir aquilo que chamo de ‘meu indizível’ – inclusive na pausa –, não deixarei qualquer passo para depois!

Desalinhos…

Quero assistir o sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer e quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar

[Preciso me encontrar – Cartola]

Hoje eu saí de mim para não mais voltar… escrevi esse punhado de deslizes, antes que o tempo fosse breve demais e as palavras subitamente decidissem escapar entre meus olhos. Noto, cada vez que me sento aqui, o quão fugidias elas estão, nestes tempos em que nada se prende.

As coisas apenas se afastam, num sopro. Quando dou por mim, tudo trocou de lugar… a impressão que fica – bem lá no íntimo, onde as conversas e diálogos se dão apenas entre alma e coração – é que sempre é tarde demais quando chega o tempo de olhar para minhas “ardências primárias”… que se fazem infantis, de tão óbvias, mas são absurdamente necessárias.

Estas linhas não têm a função de salvar vidas… escrevo apenas para deixar nesse rastro de papel o pouco que sobrou de mim… O que está sangrando, porque em mim existe essa espécie de abismo natural.

Procuro de modo leviano e, por que não dizer, desastroso, algo que seja genuinamente meu, em meio a tantas incertezas que invadem o ambiente a me cercar. E as indagações se repetem, em coro: “Já fez? Agora? Amanhã? Como? Temos pressa! Urgente! Vamos! Não é possível!”

Ufa! Tarde demais.

Sim…