Translúcida

Observo o som do tilintar de meus dedos no teclado do note, que denuncia: a tarde já está no meio e o movimento foi quase nulo por aqui… A não ser pelo detalhe das sombras, que trazem um enrijecimento qualquer ao meu sentir, poderia notar-me pálida, opaca – feito os segundos que não se percebem passar no relógio – aguardando tão somente a indiferença para seguir existindo do mesmo modo… como sempre. Até ontem eu possuía todo um discurso pronto à mão, mas hoje meu olhar apenas rasteja através daquelas palavras que ficaram por dizer.

Pequeno intervalo antes do fim…

Neste instante, em que me revelo com olhos de ressaca – a mim mesma, diante do espelho – observo-me inerte, apesar de saber que existe apenas uma opção… Sinto-me como uma borboleta saindo do casulo – simbolicamente frágil – abrindo as asas, sem estar pronta para o voo… meus pés descalços se cansaram de percorrer cada canto da casa em busca de abrigo.

Revisito tudo. Provo do sabor da sua saliva ao beijar sua boca – gosto amargo, café frio no fundo da xícara – não me excito com seu toque translúcido a invadir minhas entranhas. Nossos diálogos já não têm sentido e ficam cada vez mais distantes… a vontade de fugir desta casa se mostra evidente, porque estar em sua presença é sinônima de solidão…

Já se faz tarde para nós dois e a madrugada rasgou meus passos antes que eu pudesse te entregar este ponto final. Acho que não era para ser assim… mas, já que estou aqui, preciso continuar a cena até sua última gota. Falar de uma vez, expurgar os sentidos, trazer-te à tona neste cenário junto à minha pele… Pôr um fim à esquete e permitir que o público retorne às suas casas após o espetáculo devidamente assistido.

Mas, que público é esse? Somos apenas nós dois… sempre fomos tão sozinhos em nossos desenlaces… nos sorrisos tortos que insistimos em deixar pelo caminho. Até nas brigas, quase nunca deixamos um rastro sequer de dor… Fora – porque dentro tudo range… e sufoca… e sangra… mas ligamos tão pouco para o que realmente sabemos um do outro, que a distância se mostra imperiosa aos nossos olhos, deixando sobrar apenas a ausência que vestimos.

Meu corpo continuou aqui dia após dia, mas a alma há muito traçou outros caminhos e passou pela porta… agora, só me resta seguir os rastros e recolher migalhas pelo chão!

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.