Cada um tem o espelho que merece…

Tenho ouvido – um sem-número de vezes – que costumo me espelhar em pessoas próximas para construir a realidade e delinear, de certa maneira, as artimanhas que compõem a minha rotina.

Penso que isso acontece não só comigo, mas com todos nós, de modos variados. Buscamos no outro não apenas aquilo que nos falta, mas também nossos aspectos semelhantes: afinidades, valores, metas de vida, pensamentos e – por que não dizer – uma boa dose de sentimentalidades que cruzem, em determinado ponto, as mesmas esquinas do coração…

De minha leiga perspectiva, acredito que não há nada de mal nisso: faz parte de nossa condição humana. O lado negativo ocorre, sim, no momento em que insistimos naqueles espelhos que em nada nos alimentam.

Quando enxergamos reflexos nocivos e, ainda assim, acabamos por nos demorar em determinadas relações. No instante em que, ao invés de enxergar no próximo o nosso melhor, apenas suscitamos as características mais limitativas de nosso perfil…

Durante um tempo razoável, posso dizer que estive rodeada de espelhos quebradiços – que pouco exprimiam o que eu desejava aspirar na vida –, mas dos quais não sabia como me desapegar. A bem da verdade, minha ilusão era de que esses eram os únicos reflexos possíveis, o que se fazia um tremendo engano.

Quando consegui me desprender um pouco da necessidade de ser o que o mundo espera de mim, voltando-me aos meus próprios anseios e desejos, encontrei – finalmente – um espelho que pôde traduzir a essência da minha alma, as minhas reais demandas… um sonho fidedigno a se seguir.

Entendi, assim, que há bons e maus espelhos… Há presenças benéficas e maléficas – e, nesse sentido, não creio que seja possível um meio termo – não existe mais ou menos. Ou é, ou não é.

Dentro do pouco – mas muito – que vivi, concluo: cada um tem o espelho que merece.

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Ele…

Foi para aquele garoto que guardei o sorriso mais ousado que já ofereci a alguém. Talvez ele não saiba, mas ao seu lado me tornei quem, até então, eu não acreditava ser – passando de espectro a figura palpável – e encontrei um lugar que me coubesse, preenchendo os espaços…

Ao seu lado, pude caminhar sem as mãos nos bolsos e deixei a timidez para depois… para um instante qualquer, que não voltou mais. Ele me mostrou que autoconfiança é nome e sobrenome de quem conhece a terra árida da solidão e, portanto, não havia o que temer.

Ele se tornou parte do meu universo e – em alguns instantes – o mundo inteiro, também. Cicatrizou marcas agudas de tristeza e dor, trazendo-me de volta ao lugar de onde eu nunca quis sair: à essência de mim. Ele é o romance que surgiu do gosto amargo das sombras, e provou que nada – nada – pode sucumbir a um sentimento sincero de viver… de querer ser feliz.

O menino dos meus olhos se chama coração e cada pedido seu é uma ordem em meu sentir. Entrou sem pedir licença e, para ele, guardei minha palavra aberta, meu abraço mais apertado: um nó que não se desfaz por pouco, um enlace que se permitiu criar por bem…

Não posso assegurar que – quando a lua partir e o sol se puser outra vez – estaremos aqui, ainda juntos, neste ciclo que tanto me afeta-desperta-reaviva…

Só sei que hoje – em minha alma – amor é lugar seguro para andar em paz.

Quero outra manhã depois dessa madrugada…

“(…) Perca algo todos os dias. Aceite a irrequieta frustração
De perder as chaves da porta, de desperdiçar tempo. (…)”

– Elizabeth Bishop –

Confesso que já estava quase me acostumando ao calor exacerbado dos últimos dias, cuja temperatura se entranhou em meus poros de modo antes não imaginado.

Adequei-me ao ritmo das manhãs ardentes e busquei seguir os passos rotineiros, afinal, a vida não para – nem mesmo se acalma – só porque o astro-rei decidiu brilhar com voracidade lá fora…

Pelo contrário, o que pude perceber foi que, ao passar das recentes semanas, as pessoas se tornaram ainda mais esbaforidas, impacientes e apressadas. Deve ser efeito do termômetro elevado que as deixou assim, um tanto quanto indóceis…

Enfim, após um longo período em que ficamos envoltos por quase quarenta graus aqui na cidade de São Paulo, o anoitecer de ontem nos trouxe o espetáculo da tempestade, refrescando os ares e clareando também algumas ideias – antes um tanto abafadas.

A madrugada, assim, prometia ser mais amena e propiciar um sono tranquilo, talvez reparador, sem exigir presença tão obrigatória de ventiladores, ares-condicionados ou janelas demasiadamente abertas…

Mas o fato é que acordei mais cedo do que pretendia nesta manhã de sábado que nem se arriscou a insinuar qualquer raio de sol. Após uma razoável dimensão de idas e vindas do sono, rendi-me ao despertar, já que por ora os pesadelos haviam se feito suficientemente densos.

Penso que o corpo se acostumou a remexer-se involuntariamente na cama entre os lençóis, buscando posição adequada para repousar em meio aos ares intensos e acalorados que percorriam o quarto…

O metabolismo – ou seja qual for o nome que se dê a tudo aquilo que reside aqui dentro – deve ter estranhado a mudança meteorológica repentina e não acreditou, nem se conformou com a leveza que foi tomando conta do ambiente.

Preparei minha xícara de café quente, acompanhada de torradas com geleia. Um menu especial para o sábado, que pede aromas delicados no instante em que o amanhecer se faz mais cinzento…

Ainda que o cenário parecesse contribuir à singeleza do momento, não foi bem assim que ocorreu… Procurei em diversos lugares, mas não vislumbrei disposição para reunir uma boa dose de palavras arraigadas em minha alma no dia de hoje.

Tudo que existe e parece palpável é uma intuição pedindo silêncio – no aguardo de nuances que promovam a continuidade dos fatos.

Quanto não surgem elementos recíprocos para toda a ansiedade que já me é conhecida e familiar, o íntimo se vê perdido – tal qual tivesse sido abandonado em um canto qualquer das esquinas. Devo, talvez, recuperá-lo para acalentar suas lacunas, ao passo que estas não podem ser preenchidas de imediato.

Dou boas-vindas à minha manhã e permito que ela guie os passos com serenidade, equilibrando de certo modo a tensão vivenciada nas horas que se passaram.

Não há resposta alguma que se mostre visível ao meu olhar, mas enquanto existir aqui dentro tamanho sentimento, permanecerei à terna espera daquilo que invariavelmente faz o coração sorrir…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

… porque escrever é um eterno desaforo!

sussurro sem som
onde a gente se lembra
do que nunca soube

— Guimarães Rosa —

Tenho em mim promessas de uma jornada que em breve pretendo passar a limpo: memórias, aspirações e um punhado de letras ao redor, compondo a harmonia tão necessária aos entraves da alma….

Assisto a muitas pessoas por aí que consideram a escrita como adorno, enfeite, supérfluo – para mim, as palavras não são menos que a essência, o elixir de todas as coisas. O motivo pelo qual se insiste em respirar.

Inexiste portanto, do meu ponto de vista, maneira ou atalho para se construir a história de uma vida sem que haja o processo latente e sublime de transmiti-la ao papel. Como prova disso, ontem mesmo um sopro de vertigem trouxe o recado à minha inspiração:

– Continue…

A ideia era que eu seguisse o rumo. Mas, qual deles, se há tantas e tão controversas opções em mim? O coração, com suas embaraçadas suposições de afeto… Ou a racionalidade, na aridez de seus passos envolvidos em concretude…

Se a intuição me diz que o importante é a caminhada, eu evito escutar outros ruídos: simplesmente sigo… Vou alternando entre dizer não ao lampejo das horas e idealizar certo tipo de fluxo meu, desde os pequenos ensaios…

Sim, poderia confiar no meu feeling e acreditar que as memórias de hoje permanecerão vivas em mim amanhã… E é até capaz que fiquem, mesmo. Mas as vivências? Ah… as vivências se esquecem.

E eu preciso – MUITO – exercitar o meu desaforo de escrevê-las na eternidade.

A cidade que acena pra mim lá de fora…

“as melhores paisagens surgem
de soslaio
quando não há espera.”

(Lou Vilela)

Faz pouco tempo desde que aprendi a degustar de fato a cidade que habito – e que, inevitavelmente, também mora em mim. A princípio, apenas me via residindo em um prédio qualquer de suas ruas, pois foi aqui que nasci e, do meu ponto de vista, não havia outra opção plausível para onde eu pudesse me mudar.

É bem provável que São Paulo seja mesmo este anfitrião distante ao tomarmos um primeiro contato com as paredes imaginárias que lhe envolvem. Mas, nem por isso é isento de se mostrar acolhedor conforme os anos passam – e assim nos apaixonamos por sua paisagem, cada vez mais.

Eu gosto da diversidade que o cenário da “terra da garoa” me concede. Aprecio cada uma de suas marcas registradas, os cartões de visita e as imprevisibilidades envolvidas em seu ritmo. Penso que comecei a me tornar mais amiga de São Paulo ao deixar de ter medo do que a cidade poderia me oferecer. Não foi um processo fácil. Praticamente um reconhecimento de terreno – absurdamente necessário.

Hoje, defendo seu nome com unhas e dentes. Morar aqui já não se configura mais como uma falta de opção, mas sim pura escolha. Entre pressas, agitos, multidões e vida sem fim, eu sigo preenchendo os espaços paulistas – e sei que há muito mais ainda a ser desvendado.

Talvez este seja apenas o breve início de uma deliciosa e inesperada história de amor…

Ausência revelada

“(…) me guardo em mim, junto às coisas que jamais senti – e sinto muito ainda (…)”

– Roberta Campos –

Quando a noite chega leve e perene, sem grandes prenúncios do que trará em sua bagagem, fica um pouco mais fácil falar sobre aquilo que sinto e que – por inúmeros motivos – ainda não compreendo… Ou, dizendo bem a verdade, de conteúdos que são conhecidos demais para que eu simplesmente os ignore.

Sobra tanto tempo escapando em minhas previsões de presente e futuro e, paralelamente, tudo passa de modo absurdamente veloz diante deste olhar – que um dia já foi bem mais doce. Talvez eu devesse estar fazendo outras mil coisas, mas toda a minha vontade hoje se concentra em escrever. Colocar para fora. Explodir sensações, antes que elas de algum modo me sufoquem ou transbordem o que eu não aguentaria, necessariamente, enxergar.

Em meio ao embaralhado que aparentemente se torna esta minha rotina, algumas letras e cores traduzem a saudade que eu tenho de você… Sabe, surge uma ausência maior que eu da intensidade que permeava cada uma de nossas trocas e encontros. E, por mais longínquos ou sutis que fossem, esses instantes eram capazes de devolver uma espécie de força para desafiar cada um dos meus limites.

Ao seu lado, ou mais perto do seu coração, não me percebia tão frágil. Era mais fácil manter corpo e alma equilibrados nesta intensa corda bamba da existência. Acho que sinto mais – mesmo -, falta de quem eu era naquela época. É certo que eu morria ao poucos pela extrema negligência que fazia questão de ter comigo mesma, mas talvez fosse mais feliz.

Energia e vigor não me eram negadas. A ilusão se constituía como meu alimento sublime para fazer a vida pulsar. E pulsava… Porque acreditar que é possível tocar o céu nos faz querer estar próximos a ele – mesmo que a gente nem vá – de fato-, um dia tocá-lo.

Sim, há nuances de nostalgia hoje por aqui, diante do muito que vejo à minha frente e do pouco que consigo, ao certo, produzir. Vou esfriar a cabeça, preparar uma trilha sonora leve e ler aquele meu livro – no qual tenho me segurado quase que como bengala…

Enquanto você não está (e eu, também, ando bem longe daqui), caminho na tentativa de me reconhecer – nos incontáveis abismos de mim.

O beco do amor…

Confesso que algumas ideias que tenho sobre o amor, por vezes, me incomodam. Há dois momentos distintos nessa trama.

O primeiro é aquele que me cerca a ironia dos pensamentos: vou caminhando, até o instante em que encontrarei aquele famoso amor idealizado, no formato dos filmes, quase aquela figura do príncipe encantado que vem me buscar à cavalo, rumo a um lugar distante e fugaz…

Já o segundo diz respeito ao amor rotineiro, que supre o vazio e se configura como é. Como pode ser. Alimenta, renova, conforta. Mas talvez nunca surpreenda além daquilo que já se tornou até então.

Ambos me levam ao beco. A um espaço vazio, sem grandes rumos. É em meio a eles que me vejo só, pois esbarram em exacerbações que desalinham o meu sentir.

Acontece que essa solidão de alma nem sempre se faz ruim, pois me aproxima de mim mesma, ainda que em excesso possa provocar medo

Em instantes de pequena lucidez, acredito que certa espécie de cura e mudança (se é que existem) esteja em compreender que o amor, por vezes, pode ser mais ameno e simples do que parece.

Ele está num gesto. Num mimo. Na preocupação diária que traz o olhar atento do outro. No compasso de espera pelo próximo abraço, por uma troca sincera, pela conversa no café que pode, inclusive, salvar uma vida.

Pode ser que o sentimento não se resuma, tão somente, em si próprio. Talvez a lição seja que o amor se manifesta de diferentes modos em cada pessoa.

E vamos vivendo. Sucumbindo. Aprendendo que amar é uma ação tão efêmera quanto nossas decisões e tão sublime como a visão de mundo que escolhemos sonhar.

Assim, tentamos evitar a queda no beco sem saída, de melancolia e isolamento.

Amamos pela beleza e triunfo do amor, aguardando que nós mesmos sejamos, enfim, a figura que corresponda um dia à semente que se plantou… num coração repleto de esperança.