A sustentável leveza da dúvida…

Eu nada sei sobre notas musicais afinadas, dias ordenados no calendário, nem mesmo horas que se seguem – uma após a outra – no tilintar dos relógios…

Pouco entendo acerca dos voos tranquilos que os pássaros dançam à beira da minha janela, em uma calmaria que me assusta e admira, por sua incompreensível dimensão mágica.

Nunca me foram claras as razões deste universo amplo a me cercar: apenas sei que ele me é oferecido a cada segundo em múltiplas vertentes, com suas cores imensuráveis e suas possibilidades certeiras…

Não suspeito das veias que correm no sangue dos humanos com quem me deparo, mas causa estranhamento aos meus olhos, sim, o modo como este pulsar se traduz em palavras, gestos e posicionamentos.

Não conheço o futuro… me esqueci do passado… e no presente me sustento apenas por uma série de dúvidas e inefáveis inquietações.

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(…) das certezas que paralisam…

—– … diante do espelho, admite a falha – máscaras tão bem feitas a compor o personagem – a cegueira se revela e a mágoa aflora estabelecendo uma fronteira entre o que é real ou inventado. Coração sangra, mas avisa “sobreviva”. —–

[Lunna Guedes]

A tarde vem me contar serena o seu prenúncio e, na companhia de uma xícara de café, penso em como as memórias vão constituindo os dias e possibilitam a construção de uma perspectiva refinada sobre mim mesma. São questões que, às vezes, passam despercebidas em meu cotidiano tão comum – mas que impactam bem mais do que eu sequer poderia supor….

Até um tempo atrás, lembro que, quase todas as manhãs, eu observava a minha imagem frente ao espelho do corredor entre os quartos e a sala – e, num ritual já bastante conhecido, ensaiava devaneios sobre os aprendizados que haviam participado da minha rotina por aqueles dias…

Como num passe de mágica sorrateiro, a primeira intuição a perpassar meu olhar era: “hoje sou um pouco mais sábia do que ontem… se tivesse que atravessar o mesmo cenário neste exato instante, eu o faria de maneira completamente diversa… por que esse ‘feeling’ não percorreu minha mente quando mais precisei?”…

Foram momentos subsequentes desenhando suposições e “batendo na mesma tecla”… Eu realmente acreditava me tornar mais evoluída e sábia com o passar do tempo e, assim, seria quase lógico agir com maior serenidade diante de uma situação que – em contexto anterior – tudo o que tinha conseguido me causar era espanto.

Mas, bem no fundo, sei que as coisas não são tão lineares assim… Tanto que, de umas semanas para cá, venho desistindo de pôr meu corpo diante do espelho, como já havia se tornado tão comum e intrínseco a cada despertar… Busco até passar correndo pelo corredor, apenas para não me remeter à recordação de que aquele espaço existe de forma concreta ao meu olhar.

Um lampejo de compreensão interior despretensioso propôs ao coração um novo passeio – por lugares até então desconhecidos. Deixou de fora seus medos. Sua necessidade de ser o que nunca foi. E caminhou, então, a apenas deleitar as sensações de cada segundo, sem todo aquele fervor por entender a essência de cada detalhe…

A alma fez uma releitura sutil daquele pensamento acimentado – e eu deixei de querer me tornar uma complexa conhecedora do mundo. No lugar de afirmações, somente dúvidas. Muitas delas… junto à incerteza que promove o movimento. Às imperfeições que, de maneira mais do que convidativa, permitem que eu perca o sublime medo de errar.

Hoje, isenta das barreiras que eu mesma tinha me imposto, observo certos cenários por outros ângulos… Por novas perspectivas. Tudo o que compreendo hoje é que estou nesse processo – que não é novo, nem antigo… é apenas meu.

… reinvento-me a cada tilintar das horas… mas o que de fato eu sei?

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.