Vozes…

Fecho meus olhos… sorvo o último gole de café que restou na xícara e deixo que o coração me conduza à realidade onde há vozes que ferem o ponto invisível desta trama, dilacerando friamente o que antes se mostrava regenerado. Incólume.

Vou ao chão, enquanto observo desordens massacrantes invadirem meus poros, sem brechas. Sem restar aquela que um dia eu fui…

Burburinhos atropelam meus vícios… entontecem meus extremos – como se estes já não fossem densos o suficiente no íntimo desta vida em que busco existir. São barulhos inatingíveis, que talvez nunca cessem…

Provavelmente apenas cheguem assim – de solavanco – a me espancar com verdades ingratas-amargas-surradas…

Quanto mais vozes ouço, mais facilmente ensurdeço, e tão maior se torna a saudade do antigo silêncio de mim… dessa pausa amiga, que não agride… dessa graciosa aliança entre lábios meus.

Ímpar

Na tarde de ontem – de supetão, como quem leva uma fisgada no peito e sucumbe à sombra de si mesmo – a vida me deixou outra vez à deriva… e, sem pestanejar, eu recorri abruptamente aos braços dela… Às suas palavras-gestos-formas-de-existir: tão distantes do que já conheço, mas tão próximas ao que almejo ser.

A busca não foi em vão: suas letras me encontram mesmo quando a procura se mostra incerta, feito ritmo suave que dança ininterrupto em meus pensamentos.

Se sou intensidade, suas oportunas palavras me guiam a um vazio acalentador – que não se furta a sentimentalidades nem às sutilezas da alma –, levando-me ao encontro das nebulosidades internas que, por tanto tempo, busquei esconder de mim.

Seu cenário reconfortante não é adivinha, não é mistério nem privilégio: veste-se apenas tradução de um cotidiano inegável. Ela é mesmo dona de uma mística inconfundível em linhas que perfazem sua realidade encantadora, tão somente incomum. Tão somente ímpar.

Na tarde de ontem eu posso ter me perdido novamente diante do mundo, mas me encontrei de outro modo em seus olhos. Me reformatei a partir de sua perspectiva…

…e fui mais.

Às vezes, causamos ‘surpresa’ somente aos olhos alheios…

Inegável como a lua esconde o sol em um eclipse, eis-me aqui – escondida neste mundo arquitetado por mente e coração – fazendo com que a inexistência do toque perverso do medo oculte a realidade insossa de cada dia.

Ao longo de um razoável espaço de tempo, o fingimento me serviu de aresta à sobrevivência… Buscava uma presença fora de mim mesma, que completasse minhas ânsias e aspirações… que viesse amenizar tamanho fogo que me queimava por dentro, durante madrugadas corrosivas-insones-eternas…

Numa tentativa sôfrega de me desvencilhar do chão que mantinha meu sustento, olhava para aquele outro universo de possibilidades, ao qual desejaria para sempre me prender. Era nas pessoas – em suas histórias, vivências e afetos – que residia a minha paisagem lúdica de paixões, o meu arcabouço de loucuras possíveis e viagens imaginárias.

Talvez não houvesse nada de tão diverso ou elucidador assim, na espreita vizinha… Muito provavelmente fosse apenas mais um de meus delírios. De meus desequilíbrios torpes e indefiníveis… tão frágeis quanto a linha fina que sustenta a presença de um humano entre o céu e a terra. (Existirá este céu figurativo? Simbolismos bobos-exagerados-medíocres da nossa ingênua leviandade…)

Por inúmeras vezes, deixei minhas previsibilidades para depois, oferecendo morada a riscos e ousadias outras. Não sabia onde iria chegar… mas, certamente, compreendia que ali – no contraste bizarro envolvendo minhas origens –, o aninhamento desejado nunca se daria em paz.

Pouco a pouco, eu me desfiz dos muros que me cercavam e passei a construir pontes que pudessem me levar ao (possível) terreno ideal – um salto à frente, muitas máscaras para trás – tornando-me fiel à própria imagem. Mais uma ilusão provável? Não seria surpresa se sim… Mas a vida é esta sucessão de dias com noites nos entremeios, e é preciso segui-la como se pode. Como se entende… até que as coisas, um dia, quem sabe… mudem.

Deitei os olhos sobre minha figura no espelho, avistando-me como aquele retrato do que nunca deixei de ser: uma janela prestes a ser aberta, cujo último movimento fica detido. Um espiar por entre frestas. Dentro, apenas se imagina o lado de fora, confeccionado a partir de mim mesma…

Foi então que abracei o avesso de cada medo e dei as mãos a um futuro incerto, porém, necessário ao encantamento da alma. Não conhecia atalhos, mas – naquele instante – a voz íntima e essencial tratava de me assegurar do mais importante: o caminho de volta para casa.

Grito íntimo

“[…] se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse”

— Renata Pallottini, in ‘A Faca e a Pedra’ —

Mais uma noite chega para me visitar, enquanto observo vontades se esvaziarem de meus poros… Até mesmo o que antes se escondia atrás de um desejo, hoje não passa de mera indiferença!

Deixei guardada em uma gaveta qualquer as lágrimas de sangue outrora derramadas. Dias a fio remexendo em cicatrizes. Marcas-agruras que larguei para trás. Dilacerar: o único verbo rabiscado em minhas paredes, é o que me conta a lembrança…

Hoje, percebo minhas vísceras se manifestarem quase que apenas na folha em branco – convertida, às vezes, em tela – que me serve de pano de fundo a um voo paralelo, onde o cinza ganha sua possível nuance colorida. Um aspecto mais trágico-dramático-sensível, como sempre apreciei vivenciar…

O ambiente opaco ao meu redor, que tão pouco – ou nada –  me diz –, apela rumo à vertigem constante nestes olhos incrédulos de dor. Grito para dentro quando a voz de fora já se faz demasiado intensa. Mas, como insistente sonhadora que sou, prefiro acreditar em uma revigorada ilusão antes do fim.

Entre a apatia e a morte, sou mais nascer de novo.

À francesa…

Em poucos instantes na vida me concedi uma pausa para ponderar a mim mesma. Sempre fui movida pelas pessoas e suas presenças, que fizeram de mim o que sou hoje. Não foram muitas as que realmente causaram impacto, mas cada uma delas foi importante e, por isso, penso que seja tão difícil me desapegar.

Com o tempo, fui conseguindo ter abertura e pedir um momento para me encontrar. Consegui isso há bem pouco, quando já me sentia sufocando. Tenho aprendido muito comigo mesma e quero seguir nesse aprendizado.

Justamente por conta de tudo isso, confesso que não entendo certas reações. Afinal, aqueles que de fato são próximos deveriam saber reconhecer quando tudo fica denso, o instante em que o ar se torna pesado demais, em vez de nos julgar ou condenar porque precisamos apenas da nossa própria companhia.

Muitas e muitas vezes, disseram-me que eu não deveria esperar demais das pessoas. Eu entendi, mas mesmo assim sigo esperando por mais e mais, porque foi assim a minha vida inteira. Como mudar de repente? De fato, não sei…

Algumas coisas são frustrantes e machucam, e sei que sou transparente a ponto de me deixar tocar por pequenos gestos, até mesmo pelos mais simples. Sofro, mas percebi que todos os sentimentos me fazem mais forte, permitindo, por exemplo, a escrita como escape.

Notei também, acima de tudo, que as pessoas ficam em nossas vidas se assim for o desejo delas. Caso contrário, vão embora, o que não quer dizer que somos mais ou menos importantes. Quer dizer apenas que o tempo passou…

Como observo que deixou a porta aberta, saio à francesa, para não fazer barulho. O que falarmos a mais, em minha singela opinião, será excesso.

Noturna

Quando as palavras ensaiam seu movimento de adormecer, gosto de pensar no dia seguinte e em suas possibilidades. Construo uma combinação de frases em meu imaginário, desejando intimamente que – ao amanhecer – o simples sonho se transforme em linha reta. Não ouso afirmar que, no instante seguinte, as letras se farão semelhantes, nem se poderão confundir àquelas que proferi hoje, pois serei apenas um esboço de mim… um espectro em construção. Mas, enquanto existirem maneiras de traduzir aquilo que chamo de ‘meu indizível’ – inclusive na pausa –, não deixarei qualquer passo para depois!

Sangue Vivo

Caminho e atrás de mim caminham as estrelas
até seu próximo amanhã
o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço
amortecem meus passos, avivam meu sangue.

Não iniciei a trilha, ainda
não vejo nenhum jazigo
caminho até mim mesmo, até
meu próximo amanhã
caminho e atrás de mim caminham as estrelas

[ Adonis, In: Poemas ]

Há em mim esta insuficiência que enlouquece e dilacera… Devora-me a ideia de que serei outra – alheia ao meu íntimo – durante uma vida inteira e, contudo, precisarei habitar um mesmo corpo até o final dos meus dias…

Ontem mesmo descobri uma verdade irrefutável aos olhos e, ao mesmo tempo, tão dolorida ao coração! Não queria de fato que fosse assim… mas, nada posso fazer para conter-me diante das provas que arrefecem tal perspectiva.

O fato é que descobri que tenho muito menos a dizer-te do que imaginava. Não são as palavras que me sufocam… não! Elas simplesmente não existem. Fizeram-se ausentes desde o momento primeiro, quando te avistei inerte próximo à minha figura…

Depois de você, dezenas de ramificações vieram para substituir – ou, se assim posso arriscar dizer, fazer surgir – o significado grandioso da sua existência em mim. Foram essas pessoas, sim, que produziram qualquer espécie de essência em meu discurso… A elas sempre tive muito a dizer e, quando o silêncio se fez maior, pude calar sem peso na consciência.

Retirar-me do cenário não é difícil quando há um diálogo anterior. Uma troca que me prove que, um dia – bem ali – existiu presença… ao contrário de você, que esteve ao largo das minhas paixões e, inclusive, dos desafetos.

Você não foi nada. Talvez nunca seja nada… Nem o seu disfarce te cabe, pois quando aprendeu a usá-lo, já se fazia tarde demais…

Coloque as máscaras em cima da mesa. Eu permanecerei aqui, conforme disse, a residir nesse mesmo insólito corpo… inegavelmente.

Terá você, um dia, verdadeira e intragável morada também para si?

A estrada do meio…

“… eu sou meus passos bem mais que meu caminho: o meu caminho é a estrada delineada até então, o que passou, o que não mais me cabe. os meus passos são o presente, o agora, o que está sendo, o quando: quando ando, quando desando, quando caminho, quando descaminho, quando insisto…”

[ Paulo Sabino ]

Nunca me afinei muito com a estrada do meio – não aprendi malabarismos para me equilibrar entre o que dizem ser certo e errado, aceitável ou não – minha tendência usual é perpassar extremos, sem medir consequências em um momento primeiro.

Mergulho de cabeça em atos apaixonados quando o desejo é o que me move… em pele, carne, alma e coração! E o âmbito racional – em situações assim – fica para outro instante, quando (talvez) a queda se der…

O sóbrio, o sereno e o pacato permaneceram ao largo dos meus olhos durante uma existência inteira… e lembro que – ainda que eu me mantivesse quieta entre as esquinas de mim – a voz sempre esteve alerta e demasiadamente atenta aqui dentro…

Vocifero ilusões que começam e terminam em si mesmas – nem sempre chegam ao outro –, mas crio garras próprias para levantar e me defender outra vez… a vida é fibra em meu íntimo… meu movimento é espanto!

Não gosto do morno, do médio, do bege… Branco e cru, a meu ver, habitam semelhante mesmice. Dou preferência a cores que demandem um maior realce por parte da minha perspectiva – a lucidez é breve e suporta pouca dor perante a loucura…

Encaro levezas… mas não – sem antes – compreender e enfrentar cada um dos pesos que ainda, desnecessariamente, carrego no peito. Deixo pegadas pelo caminho… rasgo o asfalto, picho muros com meu sangue… preciso dizer-ousar-gritar que passei por ali!

Vou ao limite para, em seguida, retornar à origem… pois o regular, o saudável e o insosso, eu deixo aos merecedores de auréolas e troféus!

Fazer meio caminho até mim…

Ela tinha traços suaves, olhar gentil e uma voz serena que dava gosto ouvir… seu coração, no entanto, destoava… completamente exposto, batendo em ritmos insones, sempre admiráveis pela fragilidade que se impunha em seus passos sem norte. Reunia em si o bem e o mal… como se tivesse duas faces: uma metade clara e a outra escura!

Era impossível abraçar sua essência olhando-a apenas de fora…  seria preciso entrar para sabê-la, mas nem sempre havia um convite à disposição… Logo, restava imaginar o que se precipitava em seu íntimo.

O peso das escolhas feitas acabou por levá-la a resguardar-se em concha. Encolheu-se. Fechou os olhos. Represou as lágrimas. Reinventou os próprios traços à sua maneira… dentro das muitas madrugadas de silêncio pleno, quando havia angústias em erupção e ausências de diálogo.

Foram muitos anos enclausurada em si mesma… mas, num estalo, deitou-se junto ao lençol, deixando o fino tecido branco ganhar os contornos de sua derme. Vestiu-se de aconchego… suspirando pequenos goles de ar até adormecer, como se tudo que lhe incomodava – medos, angústias e inquietações – pudesse se acometer da mesma condição.

Acordou horas depois, com uma brisa terna e suave pairando em seu rosto… seu corpo parecia um enorme casulo, com a vida do lado de fora convidando-a para dançar. Estava tão leve que aceitou o convite, imediatamente. Percebeu o ambiente à sua volta com olhos de primeira vez e, finalmente, compreendeu que a mudança, há tanto almejada, não residia no externo – longe de seu alcance –, mas em cada um dos malabares que precisava equilibrar dentro de sua própria pele…

Era lá que aconteciam todos os mistérios que necessitava desvendar para, finalmente, saber-se.

E, como nunca antes, sentia-se disposta… em ousadia e movimento.

O medo do dia seguinte…

Outro dia, li um trecho de livro que dizia que – para alguns – o escuro costuma ser sinal de calmaria, silêncio, instrospecção. Para mim, durante um longo período de tempo, posso dizer que não foi bem dessa maneira que as coisas se deram…

Sempre que observava alguém de casa desligando o interruptor do abajur para dormir, lembro que a angústia assolava meu peito, preenchendo o íntimo com as mais variadas indagações: “o que viria em seguida?”… “será que eu conseguiria dormir logo?”… “o que fazer com a solidão?”…

Talvez a última das perguntas fosse a mais dolorida – e, portanto, também aquela que nunca conseguirei responder por completo – ao menos, não racionalmente…

Quando pequena, sempre precisei ir me deitar com algum barulho, como televisão e rádio ligados, ou o som da minha própria voz, que cantarolava músicas para amenizar o breu da escuridão… até ser vencida pelo sono…

Aos poucos, o cansaço dos dias começou a “ganhar a corrida” e, então, a escassez de luz já não se fazia uma inimiga tão constante… Passei a me recolher antes mesmo das outras pessoas da casa e – claro ou escuro – o que me importava de fato era descansar…

Hoje, o barulho do interruptor sendo desligado ainda me rememora certas lembranças, mas já não tenho medo do dia seguinte… enxergo-o como fonte de esperança e renovação. Como uma continuidade daquilo que não pude realizar no hoje.

Quanto ao escuro? Ele se tornou o melhor companheiro para minhas fugas e lágrimas… É em sua presença que marco meus encontros comigo mesma, podendo me desnudar… sem barreiras!