A literatura que sou…

Humildemente – e com certo traço de constrangimento, é claro – confesso que tentei engatar a leitura de três ou quatro livros diferentes dentro do último mês… todos eles devidamente escolhidos e comprados por mim, com estilos diferentes e propostas outras.

Porém, em determinado instante – lá pela página 30 –, algo parecia desandar, fazendo com que o estímulo inicial fosse deixado de lado. No início, imaginei ser um problema relacionado à minha distração ou, quem sabe, a uma falta de afinidade com o tema tratado naquelas páginas… Contudo, à medida que fui abandonando um título após o outro – sem o menor sinal de insistência – pude iniciar um diálogo interior que redefiniu, de certo modo, o rumo de minhas reflexões.

Tenho buscado, cada vez mais, criar e me identificar com um estilo próprio de escrita. Entendo que se trata de um modelo que se constrói – por vezes – durante uma vida inteira, mas no dia a dia venho me aproximando daquilo que acredito ser o meu “ideal de palavra”: o que gosto de ver escrito por mim no papel, pois reflete muito do que sou. E, nesse sentido, também, penso que se delineia o meu construto de leitura.

Se, atualmente, tenho o hábito de escrever crônicas mais intimistas – que retratam minha alma e pensamento por meio de fatos do cotidiano –, é bem provável que deseje realizar leituras compatíveis a essa estrutura. Isso não exclui a possibilidade de degustar romances, contos, novelas e outras histórias de ficção, mas enquanto me negar à busca daquilo que se faz congruente ao meu sentir, será – de fato – muito difícil terminar qualquer livro que seja…

Vou ali até a estante, então, resgatar meu precioso Rubem Alves, que sempre me aguarda com seus braços abertos e ensinamentos singulares, para que eu não me perca de vista, mesmo me desencontrando tantas vezes por aí…

Lya Luft e eu…

Lya Luft, escritora e tradutora gaúcha-brasileira, chegou a minha vida por acaso, numa dessas visitas despretensiosas que faço à livraria, em que entro sem razão aparente – somente com minha bolsa a tiracolo –, e saio portando ao menos um punhado de sacolas, por todos os motivos do mundo.

A primeira obra sua que li foi “Perdas e ganhos”, e eu poderia arriscar dizer – sem medo algum – que foi um dos mais belos livros que já pousaram diante de meus olhos… Não apenas fiz a leitura, como o reli um sem-fim de vezes e presenteei as pessoas que mais me eram caras com o título.

Em um momento seguinte – coisas de adolescente… –, comprei um caderno novo e passei a rabiscar ali as melhores frases do livro, para mantê-las em proximidade… Qual não foi minha cara de espanto quando percebi que, ao final, havia praticamente copiado a obra inteira, deixando pouquíssimos trechos de lado!

Passei a acompanhar Lya em sua trajetória como colunista na Veja, mas confesso: ali, naquele espaço, nunca consegui vislumbrar o mesmo brilhantismo que enxerguei na Lya escritora. Nas páginas da revista, ela quase sempre parecia abraçar a forma “quadrada” que lhe era solicitada ou imposta…

Outros livros surgiram ao longo de todos esses anos… e pude observar que a autora-mulher uniu experiência e tempo de modo singular em seus escritos. Entre suas principais publicações estão: “Para não dizer adeus”, “Pensar é transgredir” e, o mais recente, “O tempo é um rio que corre”, que ainda reverbera suas nuances em mim…

Alguns autores parecem acompanhar nossos passos desde os tempos primeiros: nem sempre se faz visível na mente o exato instante em que os descobrimos, mas o sabor e o aroma – quando a alma se depara com tudo que leva ao encontro de suas linhas – tem algo de mágico e incomparável… 

“A quatro mãos escrevemos o roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério.”

| Lya Luft, ‘Perdas e ganhos’ |

A redescoberta do meu abrigo…

Livros… Foram sempre eles que nortearam o meu jeito de ser quando menina… Encantava-me em meio a páginas que me eram desconhecidas e, mesmo sem entender tudo o que lia, a insistência se fazia presente…

Na escola, em casa ou durante alguns passeios, os livros se tornaram o meu acessório particular de sobrevivência. Quando queria me esconder ou afastar – ainda que fosse apenas mentalmente – de pessoas desagradáveis, de situações embaraçosas ou de locais que me despertavam timidez, era na leitura que buscava o meu conforto… e, então, nunca me sentia completamente só.

Após algum tempo – já chegada a época de adolescente –, não conseguia dedicar aos meus companheiros todo o tempo que gostaria… Não deixei de ganhá-los de presente, escolhê-los com afinco nas prateleiras de livrarias e ter o sonho contínuo de passar tardes e mais tardes devorando-os, mas, de certa maneira, acho que me atropelei… Permiti que outros interesses tomassem o seu lugar… E, se há um arrependimento em minha vida, eu diria que é este: não ter me comprometido por tempo suficiente com meus livros após a infância…

Hoje, já aprendiz de adulta – porque uma parte de mim teima em nunca ser gente grande de verdade –, busco insistentemente resgatar esse amor. Não apenas ter os livros guardados na estante, mas também degustá-los… Retomar o prazer e o gosto pelas letras que fizeram de mim o que sou agora.

Não é uma tarefa fácil, pois o cotidiano adora nos perturbar com mínimas coisinhas e distrair a mente através de interesses tortos… Mas eu sigo teimosa, com um ou dois livros debaixo do braço, tomando nota daquilo que mais me interessa, lendo e relendo, até cansar…

Por destino ou, decerto, por paixão… finalmente redescobri meu abrigo!

Versos que nos despertam para a vida…

“Quando se olha para a vida sem romance, tudo se torna descartável, a começar por si próprio.”

(Poeta da Colina)

Foi de maneira um tanto despretensiosa que os versos dele chegaram aos meus olhos.

A princípio, eu o conheci pelo Twitter, passando para algumas trocas no Facebook e, finalmente, adentrei o espaço aconchegante do seu blog.

O encantamento foi imediato e a identificação também, pois ele parecia falar das minhas emoções mais primárias e importantes.

Ao lançar seu primeiro livro – Poeta da Colina – Um romântico no século XXI – no ano de 2011, fui logo garantir o meu exemplar, afinal, imaginei que suas letras seriam ainda mais acalentadoras quando reunidas em uma compilação…

O querido Danilo Mendonça Martinho é um doce de pessoa, que ainda não ganhei a honra de conhecer pessoalmente, mas espero fazê-lo em breve.

Ele também faz parte do ról de colunistas do Retratos da Alma – blog coletivo que eu tenho o privilégio de administrar junto a mais quinze caros colegas de escrita (no momento em processo de repaginação)…

Deixo, pois, que suas letras em versos falem por mim…

A vida embaixo das estrelas

Não conheço estrela cadente
Só conheço a chuva fina
E o pôr-do-sol avermelhado
A noite sempre foi escura
Salvo as de Lua Cheia
As estrelas não iluminam
Muito menos caem do céu
Olho para elas todas as noites
Nenhuma delas rasga a escuridão
Sorte de quem vê e pede
Meus desejos continuam aqui
Nesse mesmo chão
Sonhos em preto e branco
Nascem todos os dias
Por mais que morram todas as noites

— Danilo M. Martinho —