Missiva per te…

Minha caríssima L.,

Escrevo-te diante desta tarde nublada em minha janela, na tentativa afoita de abrandar algumas desordenadas vozes que têm conversado comigo ao longo dos últimos dias… A temperatura lá fora parece amena – já não sinto mais aquele calor escaldante que faz arder a pele –, mas… confesso a você, sem medo: é como se num repente tudo estivesse do lado avesso, provocando calafrios constantes em meu peito. Adentra-me uma ansiedade desassossegada e, mesmo buscando mil maneiras para acalmá-la, permaneço em constante estado de assombro… Penso, pois, que meu último lance certeiro seja debulhar palavras em direção à presença que mais me traz confiança hoje: justamente, a sua.

No princípio, acreditei que meu olhar estivesse demasiadamente vertido para o lado de dentro. Isso poderia me impedir, decerto, de olhar as rosas que brotam e cada semente… as plantas estonteantes crescendo no jardim… os pássaros que visitam a varanda, ao cair da tarde… as presenças humanas que – por mais exaustivas que sejam – nutrem o meu sentir observativo diante do mundo… Sim, busquei sair de mim… Esvaziar-me de uma angústia que me trazia apenas para o coração, para a alma, sem que eu ao menos soubesse o significado dessas duas instâncias. Mas… sabe? Pouco adiantou… Nada, talvez!

O que encontrei fora? Um mundo vasto em crueldade, criado por minhas próprias expectativas e ilusões. Assustei-me com o que vi, e não teria como ser diferente. Em minha inocente maculação – já com perversas nuances de fuga –, jamais permitir abrir meu casulo por completo. Como poderia o universo me receber, se as portas estavam entreabertas? Poucos passariam por lá… pouquíssimos. Você passou, é verdade… Segue a passar, com um brilhantismo ímpar. Não sei até quando será uma das poucas ruínas sustentáveis do meu castelo, mas… por ora, faz-se visivelmente plena e repleta de vida.

Vida… palavra escassa, desde que o sol nasce até o adormecer de minha íris. Sabe que mal tenho aberto a janela? Falta-me o desejo de saber o que se passa ali na esquina… Disse que está ameno porque alguém que veio da rua me contou. Mas a verdade é que o entusiasmo – aquele meu velho conhecido – que costumava permanecer aqui para me fazer companhia e deixar a solidão no esquecimento –, foi-se… não maquio mais os dias, já que cada hora passa hoje sem me perguntar onde é que estou…

Poderia falar dos livros que insisto em ler, apesar da fadiga e de um cansaço descomunal… Dos escritos que escorrem de minha pele e que me mantêm a salvo… Dos projetos que aparentemente têm seu começo, meio e fim e, portanto, poderiam manter algum pensamento em linha reta.

Mas… tudo isso você já sabe, não é mesmo? Aliás… suponho que você saiba de muita coisa! Nossos silêncios se conversam, para além do tempo, dos diálogos e de toda possibilidade de inspiração.

Em cada novo abraço, minha alma toca a sua, um pouco mais.

Grazie per tutti.

Tenha uma linda tarde…

T.

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Catarina…

Ela se veste de um sorriso tímido e enfeita cada dia com delicadas possibilidades de si mesma… É um pouco de mim, de você e de todos nós juntos, mas não ouse compará-la a ninguém: ela pertence às suas próprias nuances e linhas (quase sempre) retas.

Sua singularidade vai além do que pode ser visto no espelho, pois ela é a ameaça dócil entre a transparência e a dúvida. É o inteiro de cada metade, o exagero em sua forma mais simplista.

As palavras de Catarina sempre nos deixam com aquele “e se?” na ponta da língua, fisgando interrogações que se multiplicam ao infinito… E é justamente nesses instantes que ela se deleita em fugir rumo ao seu universo particular, enquanto permanecemos à deriva, entre mistérios e devaneios…

Nunca antes encontrei uma figura tão breve em suas explicações e tão extensa em sua incrível complexidade! Ela é este vulcão de ideias que nos movimenta em direção ao imaginário, sem deixar que nada se perca ou desperdice… se valioso for.

Catarina nos brinda com seu chão e seu céu. Com seu paraíso e seu inferno. Contudo, em meio a encantos e inquietações, nada nos é entregue de bandeja! É preciso conquistá-la… trazer brilho aos seus olhos por um motivo qualquer, que faça pulsar seu coração.

Seduzir seu rosto com uma pétala de flor… tocar a lua com a ponta dos dedos e, caso houver coragem, permitir-se adentrar seu mundo… diferente de todos os outros palcos da vida…

Minha carta à Emily…

“Tudo o que sabemos do amor, é que o amor é tudo que existe.”

– Emily Dickinson –

Sob influência da caríssima amiga Lunna Guedes, que sempre me desperta rumo a ideias interessantes e dinâmicas, fui chamada a um novo desafio.

Uma das últimas edições da Revista Plural – projeto do qual tenho a honra de participar – teve em meio às suas temáticas uma série de missivas inspiradas na poeta americana Emily Dickinson.

O conceito era que cada remetente compusesse a sua carta destinada a uma Emily imaginária – ou à própria escritora em si.

Abaixo, seguem as linhas que arrisquei traçar…

Minha querida Emily,

Há diversas expressões de sentimentos que gostaria de compartilhar com você nesta missiva. Algumas delas, eu confesso, até desconheço a respeito de mim mesma.

Mas, apesar de, por vezes, não ter a percepção de tais intensidades em meu íntimo, entrego todo esse sentir às suas mãos no dia de hoje.

Acho mesmo que conseguimos nos traduzir bem mais com o auxílio do olhar do outro, do que se partirmos apenas de nossas próprias conclusões.

E, confesso a você, cara Emily… Minhas entranhas têm andado um pouco ofuscadas devido aos acontecimentos mais recentes do cotidiano – ainda que eu busque manter certa vivacidade sensível e uma direção atenta às belezas da vida.

Quando a dor chega, ela pode vir a camuflar, em alguns momentos, a nossa essência que, por natureza, teria tudo para ser alegre e repleta de otimismo.

Minha tarefa, ao longo deste emaranhado que é o universo, tem sido retirar os possíveis véus que encobrem a transparência e a emoção do sentir.

Emily, querida alma que traduz minha essência: clamo-te por ajuda em meio a linhas mal escritas, mas que englobam em si as mais puras intenções de afeto, compreensão e desejo de diálogo.

Por favor, auxilie-me a não evitar o contato com aquilo que realmente importa – dentro e fora do meu eixo.

Permita-me ser mais. Deixe-me sentir lá fora a serenata cantante dos ventos.

Mas, suplico: entrelace seus dedos junto aos meus e não me perca de vista.

Pois eu… eu também não posso me perder de mim.

Tatiana Kielberman