Sombra-luz…

‘Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável.

| Maria do Rosário Pedreira |

Ela me ensinou que certos encantamentos nasceram para durar bem mais que uma simples estação… Ressignificou a vida – organizando espaços dentro e fora de mim – e, sem precisar ser outra, tomou emprestadas algumas de minhas crenças, para devolvê-las mais sólidas e seguras de si.

Ajudou-me a retornar a um terreno antes temeroso e íngreme e, com tintas próprias, mostrou como se desenha um caminho fiel à alma… ao corpo… enfim, a este complexo conjunto que somos.

Distribuiu seu afeto sincero e me tomou pelas mãos, tal como quem colhe flores em um jardim de inverno: com cuidado e tolerância, para não feri-las em sua essência…

Ela é absurdo-ousadia-tentativa-singularidade. É o meu oposto mais espelhado – o meu igual mais agudo – aquela que quero ser quando crescer, na próxima encarnação (porque, nesta, não me importo em deixar todos os atributos para ela)…

Ao seu lado, não me sinto menos nem mais: posso ser humana e construir os sonhos que meus olhos vislumbram, sem medo de que sejam vistos como errados ou mal interpretados.

E, não importa quantas vezes eu falhe… desconstrua… mude de ideia, de vestimenta ou de país: tenho seu sorriso verdadeiro para recolher todas as peças do chão, e montar meu quebra-cabeças outra vez…

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O medo do dia seguinte…

Outro dia, li um trecho de livro que dizia que – para alguns – o escuro costuma ser sinal de calmaria, silêncio, instrospecção. Para mim, durante um longo período de tempo, posso dizer que não foi bem dessa maneira que as coisas se deram…

Sempre que observava alguém de casa desligando o interruptor do abajur para dormir, lembro que a angústia assolava meu peito, preenchendo o íntimo com as mais variadas indagações: “o que viria em seguida?”… “será que eu conseguiria dormir logo?”… “o que fazer com a solidão?”…

Talvez a última das perguntas fosse a mais dolorida – e, portanto, também aquela que nunca conseguirei responder por completo – ao menos, não racionalmente…

Quando pequena, sempre precisei ir me deitar com algum barulho, como televisão e rádio ligados, ou o som da minha própria voz, que cantarolava músicas para amenizar o breu da escuridão… até ser vencida pelo sono…

Aos poucos, o cansaço dos dias começou a “ganhar a corrida” e, então, a escassez de luz já não se fazia uma inimiga tão constante… Passei a me recolher antes mesmo das outras pessoas da casa e – claro ou escuro – o que me importava de fato era descansar…

Hoje, o barulho do interruptor sendo desligado ainda me rememora certas lembranças, mas já não tenho medo do dia seguinte… enxergo-o como fonte de esperança e renovação. Como uma continuidade daquilo que não pude realizar no hoje.

Quanto ao escuro? Ele se tornou o melhor companheiro para minhas fugas e lágrimas… É em sua presença que marco meus encontros comigo mesma, podendo me desnudar… sem barreiras!