Os dias de maio…

Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.

| Carlos Drummond de Andrade, in ‘A Falta que Ama’ |

Maio chegou até mim oferecendo uma xícara de chá de hibiscos… me fez o convite a sentir o prazer das coisas esquecidas – com uma calma incomum, rara…

Virei a página do calendário, deparando-me com este mês e seu leque de possibilidades… preencher de música o ambiente, de modo a distrair a alma de seus deslizes incontidos… passar os olhos sobre as centenas de livros guardados na estante e trazê-los ao agora, ao hoje que me resta…

Maio é este conjunto de dias sem grandes premissas em meu íntimo, mas que – a despeito disso – consegue inserir em sua passagem uma leveza… um carisma… uma despretensiosidade inexistente em qualquer outro mês.

Parece-me como um período de revigorar energias, repensar conceitos e, justamente por esse fato, tudo pode acontecer… ou não!

Sento-me aqui, diante da tela em branco, a praticar o exercício que mais me tem sido comum nos últimos dias: observar o ar entrando e saindo de meus pulmões… perceber que a vida é um sopro que cabe na palma de nossas mãos e – por tal fragilidade – pode se esvair dentro do instante presente…

Outro mês, outra vida? Acho que não…

“Quero te dizer que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões.”

[Lygia Fagundes Telles]

… o mês de maio se espreguiçou diante de minha sombra na semana passada, numa tentativa sôfrega de fazer corpo e espírito entenderem que abril havia chegado ao fim… eu tenho dificuldade em lidar com despedidas, finais e rupturas – nunca fui muito boa nisso – e, em se tratando de abril, o mês de minha alma, seria ousadia pedir que o sentimento fosse qualquer outro.

Enxerguei o novo mês caminhando entre as beiradas da rotina e, despretensiosamente, convidei-o a tomar uma xícara de café em minha companhia. Juntos – os dias e eu – acreditei que pudéssemos formar um belo conjunto de sons e tonalidades… Deixei de lado minha resistência contra os novos passos, e parti em meio à fluidez que, por si só, perpassa o caminho.

Maio aterrissou por aqui, já pedindo para ficar um pouco mais… para se esticar no entrelace da correria insana de nossos dias, como quem suplica por um espaço único – diverso – sutilmente simples em sua forma de existir. Instantes que vieram para ser o que são… e isso talvez já signifique muito.

Não sei ao certo o que as próximas manhãs trarão da perspectiva para a minha janela, mas estou pronta a me propor uma espécie de continuidade… Atrelar pausas a um cotidiano que nem sempre oferece brisas de calmaria. Ser inteira ao reviver cada metade que não pôde satisfazer meu íntimo até então.

Dou boas-vindas a maio porque preciso saudar o novo que me interpela, ciente de meus desejos e vontades – e firme nesse limiar de ir ao meu encontro todos os dias… tarefa não muito fácil, mas que renovo a cada outro mês que meu coração alcança…