Os meus olhos se abrem e… sou outra!

Não conseguiria afirmar com precisão o ponto em que as coisas mudaram: até ontem, o céu nublado pesava absurdamente sobre minhas entranhas. As ruas atropelavam qualquer tentativa de passo vagaroso, enquanto o corpo parecia pender ao chão, num total desequilíbrio de mim. Mãos, braços, pernas e pés se mesclavam a um desgosto inerente em meu âmago… O que se fazia mais denso – de fato – eu não sei.

Mas… vi nascer a manhã, alheia à minha vontade. Despertei num espasmo e ela estava aqui, convidando-me a viver as horas, como se tudo existissse pela primeira vez. Nenhuma novidade concreta ao meu redor, mas qualquer coisa de fingimento – às vezes – ajuda a suportar a fúria da solidão. Fechei timidamente os olhos, como quem se prepara rumo a uma surpresa… contudo, quando os (re)abri, notei que a paisagem a me chamar não vinha do entorno. Era o coração que aguardava – talvez – ser desadormecido por um leve afago da alma…

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Quero outra manhã depois dessa madrugada…

“(…) Perca algo todos os dias. Aceite a irrequieta frustração
De perder as chaves da porta, de desperdiçar tempo. (…)”

– Elizabeth Bishop –

Confesso que já estava quase me acostumando ao calor exacerbado dos últimos dias, cuja temperatura se entranhou em meus poros de modo antes não imaginado.

Adequei-me ao ritmo das manhãs ardentes e busquei seguir os passos rotineiros, afinal, a vida não para – nem mesmo se acalma – só porque o astro-rei decidiu brilhar com voracidade lá fora…

Pelo contrário, o que pude perceber foi que, ao passar das recentes semanas, as pessoas se tornaram ainda mais esbaforidas, impacientes e apressadas. Deve ser efeito do termômetro elevado que as deixou assim, um tanto quanto indóceis…

Enfim, após um longo período em que ficamos envoltos por quase quarenta graus aqui na cidade de São Paulo, o anoitecer de ontem nos trouxe o espetáculo da tempestade, refrescando os ares e clareando também algumas ideias – antes um tanto abafadas.

A madrugada, assim, prometia ser mais amena e propiciar um sono tranquilo, talvez reparador, sem exigir presença tão obrigatória de ventiladores, ares-condicionados ou janelas demasiadamente abertas…

Mas o fato é que acordei mais cedo do que pretendia nesta manhã de sábado que nem se arriscou a insinuar qualquer raio de sol. Após uma razoável dimensão de idas e vindas do sono, rendi-me ao despertar, já que por ora os pesadelos haviam se feito suficientemente densos.

Penso que o corpo se acostumou a remexer-se involuntariamente na cama entre os lençóis, buscando posição adequada para repousar em meio aos ares intensos e acalorados que percorriam o quarto…

O metabolismo – ou seja qual for o nome que se dê a tudo aquilo que reside aqui dentro – deve ter estranhado a mudança meteorológica repentina e não acreditou, nem se conformou com a leveza que foi tomando conta do ambiente.

Preparei minha xícara de café quente, acompanhada de torradas com geleia. Um menu especial para o sábado, que pede aromas delicados no instante em que o amanhecer se faz mais cinzento…

Ainda que o cenário parecesse contribuir à singeleza do momento, não foi bem assim que ocorreu… Procurei em diversos lugares, mas não vislumbrei disposição para reunir uma boa dose de palavras arraigadas em minha alma no dia de hoje.

Tudo que existe e parece palpável é uma intuição pedindo silêncio – no aguardo de nuances que promovam a continuidade dos fatos.

Quanto não surgem elementos recíprocos para toda a ansiedade que já me é conhecida e familiar, o íntimo se vê perdido – tal qual tivesse sido abandonado em um canto qualquer das esquinas. Devo, talvez, recuperá-lo para acalentar suas lacunas, ao passo que estas não podem ser preenchidas de imediato.

Dou boas-vindas à minha manhã e permito que ela guie os passos com serenidade, equilibrando de certo modo a tensão vivenciada nas horas que se passaram.

Não há resposta alguma que se mostre visível ao meu olhar, mas enquanto existir aqui dentro tamanho sentimento, permanecerei à terna espera daquilo que invariavelmente faz o coração sorrir…

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.