Diário de bordo

  “Mudar as metáforas, porque quero continuar dizendo.
Mudar a mensagem, porque já quero dizer outra coisa.”

[Laion Monteiro]

Voltei a existir num tempo anterior… acho que retornei ao meu estado primário – antigo – no qual uma existência que não agrada segue acontecendo quase que em paralelo a esta que sou.

Regressei a velhos cenários, que eu julgava esgotados… na mente, na realidade e também no coração! O que me fez perceber que certas marcas nunca se vão completamente de dentro de nós… porque sempre ficam as cicatrizes, para nos dizer dos passos e movimentos dentro desta vida que, de alguma maneira, segue acontecendo…

Voltei a ser um alguém que eu pensei que não mais seria… retornei “a casa” e ali encontrei personagens meus, vendo-me obrigada a este espetáculo, do qual sou platéia fiel.

Não há outro público, porque preservo tudo às escuras… cortinas fechadas e sem venda de ingressos. O roteiro é lido em voz alta… e eu ouço, tal como eco, o tilintar de minhas próprias escolhas.

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Adormeci você em mim…

“Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida.”

[Alice Ruiz]

Existem certas vivências que flagram o coração desprevenido… obrigando-nos a interromper o ritmo de uma dança, conhecida e habitual…

E foi num desses instantes, completamente isenta de qualquer disfarce, que me desfiz em múltiplos pedaços naquela manhã… A sua partida, porém, deixou-me diante das labaredas que consumiam tudo o que você havia ajudado a construir.

Nunca antes eu havia sido alguém aos olhos alheios… jamais me possibilitei ser. E, absolutamente exposta – em meio àquele nosso jardim, que ensaiava florescer suas primeiras sementes -, vi o quão pouco existia de mim mesma em cada detalhe ali apresentado…

Consenti que a vida fosse apenas sombra… restringi meus passos ao que era o meu conto de fadas! Se o mundo tivesse encenado seu fim, eu teria sido feliz, mas ao assistir seu adeus, tentei agarrar-me ao nada, como me agarraria ao tudo, em vão…

Trago comigo um emaranhado de saudades…

“Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto (…)”

[Caio Fernando Abreu]

Minha querida G.,

Ainda não se passaram vinte e quatro horas completas desde que retornei ao meu suposto aconchego… E, já que nossa afinidade dispensa segredos, confesso: minha bagagem ficou por inteiro aí com você. Eu não queria voltar, mas cá estou, em meio a este eterno trânsito interno de desejos e obrigações …Talvez a alma nunca me acostume a essa realidade dura dos fatos, mesmo fingindo muito bem se adequar…

A chegada foi envolta por reencontros amistosos, como de praxe, ainda que New Jersey se mantenha em mim, feito batida estridente de um relógio antigo… É impossível ignorar as lembranças que aprenderam a fazer morada aqui dentro. Hoje a saudade dói muito… Amanhã um pouco menos. Depois de amanhã, quem sabe…?

Aproveitei a estrada de volta para casa e tentei acertar o meu ritmo interior… Tarefa insana? Não me furto a ela… Encontrei no íntimo o antigo e o recente, dividindo o mesmo espaço no pulsar do coração. Amanhã já recomeço a desenhar as tarefas cotidianas e, você sabe… necessito pensar enquanto me permito tal feito!

Definitivamente, o tempo lá fora não corre da mesma maneira que no meu imaginário… E acho bom que seja assim, pois me permito viajar de volta aos lugares que amo, sem precisar de passagem de ida… Visito os cafés apreciados ao final da tarde… corro os olhos pelas livrarias imensas a alucinarem a minha paz… Percorro mundos familiares ao meu universo: ruas, árvores, restaurantes, parques, caminhos… sim, caminhos… de algum modo, eles aplainam o meu ser não-linear.

Ensaio longos suspiros ao abraçar na memória os lugares que envolvem o seu cenário: esquinas e tracejados tão caros e reconfortantes que hoje já me pertencem tanto… Muitas de minhas entregas a você ainda reverberam por aqui, mas acredito que juntas possamos, agora, entender melhor as entrelinhas de cada um dos meus enredos!

Não queria que você visse em mim uma imagem diferente da que tentei delinear durante todos esses anos. Entendo que a verdade talvez se mostrasse preferível, mas há mistérios que necessitam se manter ocultos, ao menos até conseguirmos revelar sua essência a nós mesmos. Foi um alívio contar a você tantas lágrimas e virar páginas fundamentais dentro da minha (nossa) história. Compartilhando o meu mundo, tenho a clareza necessária para seguir caminhando…

Espero que, ao retornar do aeroporto, você tenha reparado que deixei, junto ao aroma no travesseiro, uma parte do meu coração – talvez a mais verdadeira… Entreguei meu passado em suas mãos, para que você e New Jersey cuidem com carinho deste legado.

Não há mais motivos para fingir coisa alguma – e o significado dessa liberdade é tão grande que não caberia em palavras… São pretéritos que elucidam o meu jeito de viver e agir… E a partir disso ganho novos ares para desenhar o meu próprio destino.

Com enorme carinho, afeição e gotas salgadas de silêncio…

T.

*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Terceira Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Thais Lopes, Tatiana Kielberman e Thelma Ramalho.