Encantamento em letras…

Eu queria estar dentro do seu coração para sentir o que você sente enquanto deita suas linhas no papel… São palavras que parecem tão mágicas que me soam como puro encantamento – algo que não partiria de um ser comum – mas sim de alguém com raras habilidades sensíveis para esmiuçar a alma humana.

Eu queria entender como você concilia seu cotidiano – aparentemente tão rotineiro, aborrecido e repleto de regras – com a delicadeza esbanjada em cada um de seus versos, que espelham o sentir em sua forma maior.

Eu queria estar em sua pele para compreender de que maneira surge a inspiração, que suavemente parece escorrer pelas pontas de seus dedos em direção ao nosso íntimo – sem barreiras, sem exigências – apenas substrato da natureza…

Sabe… às vezes, eu queria ser você por cinco minutos… Porque, quando escreve, você é um pouco de cada um de nós – todos os dias – ao longo de uma vida inteira.

*Para Mariana Gouveia, que traduz o lúdico em mim…

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Cartas a alguém que não vai ler, 02

“(…) e sobrevive em mim a pergunta, sussurrada ao pé do ouvido em voz rouca sem que eu saiba ao certo dita por quem: depois de nós, eu seria o que? quando as coisas serenassem e secassem as lágrimas e estivéssemos apartados, cada um com a sua vida e as suas dores enfiadas no bolso, e então eu abrisse os olhos de manhã e o sol invadisse o quarto e o despertador me chamasse a começar o dia, eu seria o que? (…)”

[Renata Penna]

Que fique bem claro: não é fácil me sentar em frente à tela e compor estas linhas… eu nem sei para que as escrevo, se tudo já parecia tão bem guardado aqui dentro – lacrado a sete chaves – de modo que apenas se pudesse destrancar sob meu comando… como são frágeis essas ilusões que criamos para nós mesmos – acreditando serem eternas – quando se desfazem em questão de segundos!

Mas, quem foi mesmo que se propôs o desafio de escrever cartas?
Você se mantém em lugar seguro, levando a vida em ritmo constante… nada aparentemente mudou, seu olhar seguirá sem ler o que tais letras lhe direcionam!

… e todo o resto? De que maneira farei eu para despir estórias frente a um público que tanto diz me compreender, mas pouco me sabe de fato?

Fico aqui, dizendo de você – para você – abro caminhos para revelar o meu próprio mundo, que ainda se mostra nublado, mas aos poucos se fará caminho tateável, notório… como se eu sempre tivesse andado por ali, mesmo sem entender de que maneira ou por quê.

Vez ou outra, tenho a ousadia de caminhar – ao vento – sem me dar conta de que os dias são outros e, aqui, apenas o desconhecido me cerca… sigo andando, sentindo sua mão ainda junto à minha, apontando direções, mostrando atalhos – já que, por mim, eu simplesmente não saberia para onde ir…

Há coerência em meu delinear de palavras? Temo que esteja sendo conduzida por minhas ilusões… e, através delas, escrevo este roteiro inesperado, dolorido, vagaroso: um prenúncio.

E assim se concebem as páginas que virão a seguir…

Cartas a alguém que não vai ler, 01

“Talvez fosse uma dor que ainda existisse lá dentro, e latejasse sem sentido.
Em momentos inesperados, sempre, como naqueles em que estamos felizes, beirando a intensidade do muito.
O muito que em algum lugar ainda se assombrava pela ausência. Talvez ainda me doessem as ausências, e os revesses dos mergulhos nos abismos que culminaram em rochas pontudas e mares revoltos.”

[Silvia Badim]

Há momentos em que caminho distraída e, quase num repente, deparo-me com este baú de memórias que tenho guardado em mim. Nâo sei ao certo qual fio puxar a fim de desmembrá-las, mas a intuição se faz suficientemente ousada quanto ao seu despertar…

A bem da verdade, eu me imaginava escrevendo estas letras para você em um tempo bem distante, quando não estivéssemos mais tão próximos… fosse por um acaso da vida, ou pela única certeza que temos desde o nascer.

Porém, contrariando previsibilidades – que nos são, quase sempre, tão sorrateiras –, hoje acordei com uma imensa vontade de te contar histórias que vêm do meu íntimo… Algumas mais agradáveis, outras envoltas em lágrimas, mas todas elas repletas de uma vivência que preciso compartilhar… Ainda que não leia, eu necessito que você saiba – pois se trata de uma das partes mais sinceras que tenho em mim.

Não há que se deixar para amanhã quando o sentimento emana no instante presente… e foi o seu olhar que me confidenciou essa intimidade, dias atrás…

Das tardes que encontro em ti…

“Se em um instante se nasce e em um instante se morre,
um instante é o bastante para uma vida inteira.”

[Cecilia Meireles]

Já passa das cinco da tarde e eu quase consigo enxergar as pessoas ensaiando uma espécie de repouso lá fora… as ruas e seus movimentos pedem descanso, enquanto o sol se esconde no horizonte, ainda que sua luz ainda permaneça visível aos meus olhos…

O calor insano de hoje me levou à exaustão – fazendo alusões àquilo que sinto quando meu corpo chega ao limite. Não se trata de uma situação muito incomum, você bem sabe… mas dias assim me permitem recordar que é preciso de uma dose extra de energia para se estar presente de corpo e alma neste planeta Terra – não tem sido fácil ser minimamente humano por aqui…

Dentro de mim, percebo que sempre há muito a fazer, mesmo que em verdade o meu desejo seja me permitir parar por um instante – contemplar cenários e, acima de tudo, relembrar partes sagradas de diálogos… Palavras que não voltam mais em tom semelhante – pois foram únicas em sua naturalidade e beleza – mas se eternizaram em minha lembrança.

É isto que fica em meu íntimo na estafa de uma terça-feira comum como hoje: você… Entre o tudo e o nada que consigo ater nas mãos, cada som emitido por sua voz reverbera em mim como nuvem – esfumaçando memórias que acalentam o coração, prometendo amanhãs de maior conforto na pele que habito…

Fico por aqui, pois hoje ainda preciso das letras para um pouco mais… Você vem ao meu encontro?