Enquanto se aproximam os dias…

Tenho desejo de gritar a voz dos mudos: aquela que se cala ao crepitar da noite, uivando por dentro em teimosia. Uma vontade mais forte que eu – aquela que não se permite ser ínfima… apenas chama! – e, no vai-e-vem de batalhas pessoais, trava um duelo seguro com seu próprio reflexo… Quero desopilar da garganta o que ainda não sei – o que não me foi dito e jamais pretendi saber –, mas que, no entanto, é tão límpido e claro quanto a água que me mata a sede. Preciso dar um fim nessa busca que se encerra em si mesma. Sentir jorrar o sangue de uma alma nunca cicatrizada… Sucumbir, até que a última gota não mais consiga me tocar. Perecer… em meio a um ar que já não respira por mim.

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Quando a vida me escapa entre os dedos…

“Porque os dias sem ela que virão não fazem sentido para mim. Eu não serei capaz de enxergá-los sem ela. E mesmo agora, que a amparo, que quase a carrego, sei que é ela quem me ampara e é ela quem me carrega. Que só sabemos andar juntas. E que, sem ela, me faltarão pernas.”

[Eliane Brum, In: Uma Duas, p. 153]

Desajeitadamente, ela percorre cada mínimo espaço da casa, buscando sem sucesso um lugar para chamar de seu. Sempre havia sido assim, mas nos últimos dias se mostrava clara a tensão presente: como encarar a rotina com uma tempestade a fluir diante dos olhos?

Em atos impensados e sucessivos… escancara cortinas, deixando o sol ardente penetrar os poros dos cômodos! Tenta encontrar vida onde não há eco que lhe responda. Insiste! A teimosia lhe faz crer que, em qualquer momento, será capaz de ouvir um ‘sim’…

Ensaia barulhos em tom de fingimento, apenas para causar ruídos… na esperança de que nasça uma inquietação! Ouve o tic-tac do relógio – que só faz somar as horas -, sem oferecer as soluções palpáveis do tempo…

Já em estado de desespero, por conceber somente o silêncio… deita-se sobre ela, e sacode o corpo frágil completamente, como quem suplica por uma reação! A ideia de perda faz eclodir no íntimo a angústia. Confessa seu medo e as lágrimas se confundem com suor… denotando um cansaço-medo-luta que exaure.

Juntas, tentam um pouco além… e só não sucumbem à morte, pois se precisam mais que água e ar.

Um surto pelo excesso…

Não sei ao certo em que momento me permiti afundar nesta tragédia sem fim…

De repente, vi-me envolta por monstros, sem forma nem cor – apenas tato.

O bom senso se afastou de mim, largou-me em uma paragem outra do caminho. Fui tentando seguir sozinha, mas a covardia falou mais alto, deixando-me isenta de um solo sequer.

Já não pude me guiar, nem conduzir a palavra sagrada à razão profana. As emoções suprimiram o riso nervoso e também a lágrima sincera, fazendo-me lesa de minhas próprias percepções.

E eu andei, sim, da maneira que me era conhecida. Não para onde gostaria de ter caminhado, segura dos fatos, e sim a lugares que permitiram a minha entrada – ainda que forçada.

Esbarrei em portas trancadas que se abriram de supetão, num escombro de voz. Arrombei maçanetas e não quis muito saber o que havia do outro lado.

Tão somente prossegui de cara lavada, afinal, fé era um dos poucos artifícios que me restavam depois de sucumbir aos vícios…

Afoguei a melancolia num mar de solidão. Transformei tristeza em raiva e me alimentei do inchaço das horas.

Sufocada por meus próprios braços, lutei com unhas e dentes para provar que era verdade o que eu nem mesmo conhecia. Já não seria possível sentir amor vivendo assim.

Naquele instante, morri – entremeada por uma loucura nunca antes sentida. Parti deste mundo insano por perceber, enfim, a total incoerência dos fatos.

Talvez um dia eu resolva voltar, embarcando em certo trem que me leve a estações mais serenas de outra vida. Ou, fique ali mesmo, sabe-se lá onde esse ‘ali’ reside.

Mas, por hoje, decreto a morte. Um surto pelo excesso.

Uma parte de mim se vai e eu não desejo pôr absolutamente nada em seu lugar.