Coração crepuscular

Hoje eu vi um coração desenhado no céu, entre nuvens. Qualquer outra pessoa que observasse a mesma paisagem, talvez nada enxergasse… mas a mim aquela figura era toda sorrisos!

Já passava das seis e a noite caía feito um manto de luz a cobrir meus olhos, enquanto o breu anunciava lentamente as batidas do tempo…

Tudo estranhamente em seu devido lugar… apenas um punhado de ausências e outra meia dúzia de angústias, sobre as quais decidi – por bem – me debruçar em outro instante.

O coração transfigurado dialogou com meu íntimo, mostrando-se não apenas como um sinal aleatório… trouxe, em si, o significado de que – em certos dias – a vida pode pulsar com maior tranquilidade entre céu e terra.

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Construto de mim…

“Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida…”

— Chico Buarque —

Já há algum tempo, ao abrir os olhos pela manhã, sinto como se múltiplas vozes passassem a habitar junto a mim o cenário que me cerca… Desde o instante em que preparo um simples café, até quando me coloco pronta a ir às ruas, para desvendar seus mistérios e entender o fascínio que os diferentes caminhos despertam na alma humana, é como se eu nunca estivesse realmente sozinha ao longo do dia.

E penso que nunca estou, de fato… Basta colocar as pontas dos pés para fora da cama, que uma gama de outros eus convida-se a adentrar minha paisagem, sem pedir muita licença, afinal, tornou-se um costume encontrar-me afobada, em meio àquele velho e conhecido astral traduzido em uma espécie de “não sei por onde começar, mas vou assim mesmo”…

Eis que me faço vestir, então, ao menos uma roupagem para cada determinada nuance cotidiana. Sou muitas dentro de uma só – e penso que, justamente por isso, chego a inflar devido ao tanto que não me caibo. Viro-me do avesso. Dou cambalhotas. Pulo em um pé só. Aprendo a fazer piruetas inimagináveis. (Sobre)vivo. Respiro, enfim.

É como participar de uma grande peça de teatro de fantoches – mas, confesso: mesmo após tantos anos, ainda não defini (em terapia) se faço o papel das marionetes ou se atuo como quem as manipula.

Quando a noite chega, retorno à beira de minha cama tão exausta, que é quase impossível despir-me de uma só vez de todas as vestimentas que usei durante as horas que se passaram.

Meus pensamentos se ordenam apenas em forma de silêncio – já que não há sequer forças para algo além disso. Deixo-me simplesmente cair em sono profundo, até que um possível dia seguinte se faça…

… e novos personagens também me habitem…

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Fatureto, Lunna Guedes, Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman.

Pausa branda

“A letra da canção é o que pensamos entender,
mas o que faz com que acreditemos, ou não, é a melodia.”

[Carlos Ruiz Zafón]

O anoitecer já se faz macio diante dos meus olhos um pouco cansados… Ao final deste dia que pareceu transcorrer com tamanha velocidade, aproveito a ligeira pausa para observar as paredes brancas que envolvem o meu quarto-inspiração…

Busco entender onde foi que deixei todas aquelas ideias que me acompanharam ontem, ao longo da caminhada pelas ruas estreitas do bairro. As palavras pareciam ter adentrado a palma de minha mão, num vínculo de afinidade e afeto imediato, como se sempre estivessem ali – prontas a serem derramdas sobre o papel.

Decerto, eu não tive o cuidado de chegar em casa e compor algumas anotações que talvez me facilitassem o processo, mas me entreguei à sorte de que esses devaneios permaneceriam em meu coração no dia seguinte.

Reviro-me, pois, em angústias aflitivas acerca de como o pensamento humano é efêmero: hoje ele está ali, em seu íntimo, mas amanhã pode ter escapado mansamente, feito nuvem que não se contenta em ter morada fixa no azul celeste.

É interessante perceber como o branco se recusa a me propiciar qualquer ponto de fixação para auxiliar no entrelace de minhas intensidades e ausências… Há somente uma grande sensação de vazio – costumeira ao meu cotidiano, principalmente quando já passa das seis…

Penso, enfim, que desaprendi realmente a escrever… Ainda sei reunir meia dúzia de frases soltas e encontrar palavras bonitas na multidão, mas ao me sentar diante de uma folha em branco, esqueci como desenhar as linhas para formar uma melodia de letras que faça sentido.

O que me resta são meras tentativas… Parágrafos idealizados lá fora, dentro do breve instante no qual desvendo as ruelas que por mim aguardam. Sentenças que não desejo ver por escrito, pois perderiam a sua magia. O seu encanto. A sua verdadeira motivação de ser.

Enquanto permaneço aqui, na busca de orações que possam ao menos ilustrar o que quero dizer, vejo que o mais importante já foi falado. De mim para eu mesma. Da essência para a minha alma.

O texto está pronto há muito tempo… Eu é que ainda não percebi.