Entre uma possibilidade e outra… agosto!

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia
fui ficando

por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

| Mia Couto, in: “Raiz de Orvalho e Outros Poemas” |

Agosto já soma seus dez dias, envolvidos por um sol escaldante que percorre manhãs e tardes, quase sem exceção. Confesso sentir falta da temperatura fria-amena e das gotas de chuva que costumavam nos visitar nesta época, mas toda a chance que há, por ora, é aguardar

O mês de número 08 – como é chamado no calendário civil – tende a me trazer de volta as oportunidades pausadas em julho… Retomam-se os trabalhos, as aulas… pessoas chegam de viagem, há o planejamento para o fadado segundo semestre… enfim, espera-se que a vida siga o seu fluxo rotineiro… já é uma excelente premissa!

Eu gosto desse tempo porque ele me traz lembranças de recomeço… e é particularmente natural em mim o amor pelas novas chances, pela metamorfose… por desconstruir e iniciar tudo outra vez, em roupagem inédita…

Fiz diversos planos para agosto, mas o primordial deles é refinar a presença neste espaço… Caminhar com liberdade em meio às palavras – meu instrumento, meu meio e meu fim. Dialogar com o outro – vocês – e, claro, comigo… Conforme ouvi outro dia, não ser uma uma fraude diante daquilo que me é mais autêntico

Vamos começar?

Julho e seus horizontes…

“A vida que imaginamos é uma casa transparente sem janelas nem saídas. A gente a constrói com palavras e silêncios, abraços e afastamentos, uma vida paralela a isso que parece o concreto cotidiano. Ali o amado não entra, a amada fica de fora, sombras e luzes como espectros dançam e acenam. Fora dessa casa de vidro existe outra vida, que chamamos real. Com pão e manteiga, aroma de café, lençóis úmidos de sexo, filhos correndo, pais envelhecendo, contas a pagar, cargos a ocupar, nomes e marcas e tráfego e sonhos e consumo, e sonhos de consumo. E dor.”

| Lya Luft, In: ‘O tigre na sombra’ |

Existem dias em que o aconchego e o conforto de ser quem sou surgem como uma composição de Bach: com suavidade, num crescente inconfundível, fazendo com que as notas se harmonizem em naturalidade plena…

Há outros momentos, porém, em que quase não me reconheço nas notas da canção… A melodia ganha impasses que repelem a delicadeza da alma, afastando qualquer possibilidade de esperança…

Felizmente, o mês de julho trouxe consigo o prenúncio de sonoridades amenas, permitindo repousar não apenas o coração, mas também o olhar e seu cansaço vicioso de antes…

Escolhi alguns livros a serem degustados, reordenei compromissos de trabalho e propus outras oferendas a este novo ciclo que se coloca diante de mim. Nem sempre (ou melhor, quase nunca…) consigo cumpri-lo como desejo, mas o fato de planejar já é uma premissa… um passo rumo ao dia seguinte…

A depender das circunstâncias, percebo o quanto me acostumo a simplesmente ‘não estar bem’… e a chegada de julho me propiciou a coragem para desafiar esse pensamento: em que medida é preciso – de fato – me conformar com o impossível?

Não possuo todas as respostas na manga, e confesso: que bom que o calendário se faz generoso nesse sentido, brindando meu caminho com trinta e uma chances para repensar e organizar esse ciclo insano-maluco-rebelde-tardio no qual me insiro…

Tenho buscado oferecer uma pitada de poesia aos meus dias, até mesmo quando eles se mostram um pouco nublados… E, enquanto assisto às manhãs chegarem, com seu brilho iluminando a janela… sorvo mais um gole de coragem (preferencialmente, disfarçado de café – seu formato mais genuíno) e me preparo para a vida que desejo re-desenhar…

Ainda nem escolhi todas as cores e formas… mas a alma me diz que já é hora de pulsar outra vez, afinal, há tanto lá fora que ainda não vivi… E outro tanto, dentro de mim, que necessito experimentar!

Os dias de maio…

Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.

| Carlos Drummond de Andrade, in ‘A Falta que Ama’ |

Maio chegou até mim oferecendo uma xícara de chá de hibiscos… me fez o convite a sentir o prazer das coisas esquecidas – com uma calma incomum, rara…

Virei a página do calendário, deparando-me com este mês e seu leque de possibilidades… preencher de música o ambiente, de modo a distrair a alma de seus deslizes incontidos… passar os olhos sobre as centenas de livros guardados na estante e trazê-los ao agora, ao hoje que me resta…

Maio é este conjunto de dias sem grandes premissas em meu íntimo, mas que – a despeito disso – consegue inserir em sua passagem uma leveza… um carisma… uma despretensiosidade inexistente em qualquer outro mês.

Parece-me como um período de revigorar energias, repensar conceitos e, justamente por esse fato, tudo pode acontecer… ou não!

Sento-me aqui, diante da tela em branco, a praticar o exercício que mais me tem sido comum nos últimos dias: observar o ar entrando e saindo de meus pulmões… perceber que a vida é um sopro que cabe na palma de nossas mãos e – por tal fragilidade – pode se esvair dentro do instante presente…

Fez-se abril…

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘O Nome das Coisas’

Alguns meses se passaram sem que eu me pusesse a dissertar sobre seus dias… Assuntos outros tocaram minha derme com maior veemência e, talvez por isso, eu tenha me afastado um pouco da ideia de me basear no Chronos para oferecer certo ritmo a cada manhã…

Escapei das horas como criança que esconde o rosto atrás das próprias mãos, envolta em melindres e elocubrações. Guardei meu relógio a sete chaves, buscando fugir de um tempo que escorria de meus poros, em tom alarmante e abusivamente cego.

Eis que chegou abril, com suas datas promissoras e enunciados festivos… Como não poderia ser diferente, avistei o novo mês chegar sorrindo… Ele não habita minha alma como todos os outros: é um tempo tão meu!

Seus dias abraçaram serenamente o canto silencioso de meus lábios… sem exigências, sem condenações. Natural, sensível… resgatando-me de volta à ternura de cada premissa.

Fez-se abril… e já me sinto genuinamente em paz, outra vez!

Adormeceu novembro…

“(…) Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.”

[ Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Dia do Mar’ ]

Eu gosto de pontuar datas – é um ritual que, com o passar dos anos, tornou-se intrínseco à minha natureza – como se eu precisasse desse marco para sentir que estou viva, em movimento… em direção a algo que, a qualquer instante, tem a possibilidade de se modificar.

Ouço uma ou duas pessoas próximas me dizerem que isso não faz sentido algum – que mudam os meses, mas os ciclos simplesmente continuam… e nada se modifica – o que para mim soa como tamanho estranhamento, pois já me acostumei a celebrar tal passagem como se fosse o meu próprio renascimento.

E ontem me peguei, novamente, preparando-me para o início deste que é o último mês do calendário gregoriano de 2015. A bem da verdade, não havia me dado conta dos dias de novembro de maneira propriamente dita – sinto que precisei ser outra para depois voltar a me pertencer realmente…

Mas, quando a minha voz interior – aquela que faz conexão direta com a alma – questionou-me quais seriam as minhas primeiras linhas de dezembro, eu não hesitei na resposta: as palavras fluiriam normalmente, sem empecilhos.

Novembro adormeceu de modo muito natural em minha derme. Simplesmente fechou os olhos e se foi… seguiu seu fluxo para que outras folhas em branco pudessem ser preenchidas…

… mas deixando suas devidas impressões, cicatrizes e premissas de um tempo outro – que ainda não sei…

Das descobertas enquanto caminho…

“A letra da canção é o que pensamos entender,
mas o que faz com que acreditemos, ou não, é a melodia.”

— Carlos Ruiz Zafón —

Aconteceu outubro lá fora e – de modo diferente dos outros meses – posso dizer que há uma razoável disposição para receber os dias que se seguem por aqui…

Penúltimo par do ano, o chamado mês 10 já chegou trazendo ensinamentos preciosos, que tratei de carregar a tiracolo… Penso que o mais essencial deles, até agora, seja este: o quanto é importante – e difícil – sentir-se confortável na própria pele.

Ao conversar com pesssoas que diziam ter dificuldades nesse sentido, eu costumava pensar que era bobagem… coisa tola, típica de quem fez pouca terapia ou nunca se olhou no espelho. Engano meu!

Estar leve e tranquilo dentro da própria vestimenta é tarefa para poucos… é coisa gradativa, contínua. Um demorado exercício para uma vida inteira…

Até ontem – pela manhã – eu acreditava ter encontrado a chave para a felicidade… mas o universo – em sua incomparável sabedoria – resolveu me dar um susto: fazendo-me perceber que não existe chave, muito menos fechadura – o que dizer, então, de uma felicidade completa?

Sim… o caminho estava errado… e, eu precisei recomeçar: de novo! Uma nova tentativa está em curso… agora eu sei que preciso fazer bom uso deste vasto laboratório que é a existência humana!

O novo mês chegou para me trazer tal reflexão… mostrando a recusa que eu imprimi em minhas próprias veias…

E para você, será que outubro também já disse a que veio?