O meu outono…

Existem pessoas que – não importa quanto tempo passe – acabam por ganhar o significado de verdadeiras estações em nossa alma…

Eu poderia falar do ser-primavera, que me encantou desde o primeiro instante… ou da menina-inverno, que nunca me negou um sorriso, até mesmo em seus dias mais frios. Poderia também contar sobre o senhor-verão, memória constante em devaneios, estejam meus olhos abertos ou fechados.

Contudo, nesta tarde amena – em que as horas se alongam e eu sinto os pensamentos voarem, distantes… –, o coração aponta para um certo outono de mim. Para alguém que já perpassou outras temperaturas e nuances… mas que semeou características muito suas – únicas – em meu peito.

O meu outono é atemporal-arredio-avesso… Não o consagro como uma estação das mais fáceis e convidativas, ainda que se mostre tão suave-sedutor em suas feições.

Chega sem avisar – bagunça todos os meus espaços – e me guia a um percurso (quase) sem volta, desprovido de sentidos racionais… Junto ao meu outono, quem se faz comandar é apenas uma espécie de emoção fulgaz, anteriormente jogada às traças, recompondo-se para buscar qualquer coisa de abrigo.

Adentro o sótão de suas folhas caídas, amassadas… jogadas ao léu! Busco o colorido que se sobreponha aos rasgos deixados pelo suor dos anos… recolho os cacos de seu coração notoriamente partido e, finalmente, eu o aceito como morada.

Somos apenas dois, agora… o meu outono e eu, nesta trilha que nem sempre surge serena em seus passos. Mas caminho com ele, na tentativa de não sucumbir ao medo: deixando que as cicatrizes se fechem, uma vez mais… até que estejamos prontos, muito em breve, para a próxima estação.

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Abril, o mês dos meses…

Vem vindo o abril tão belo em sua barca de ouro!
Um copo de cristal inventa as cores todas do arco-íris.
Eu procuro
As moedinhas de luz perdidas na grama dos teus olhos verdes,

E até onde, me diz,
Até onde irá dar essa veiazinha aqui?
(Abril é bom para estudar corpografia!)

[Mário Quintana, “Primeiro poema de abril”]

Quem já teve a oportunidade de trocar algumas palavras comigo, rapidamente ou de maneira mais prolongada, certamente deve saber o quanto minha alma se afina com o mês de abril.

Não se trata apenas da feliz coincidência de ser a época do meu aniversário, mas sim porque – ao que me parece – esses dias trazem consigo um ritmo próprio. Uma cadência ritmada de acontecimentos e surpresas. Cores que se transformam desde o instante da chegada do outono, que timidamente vai marcando aos poucos sua presença pelos arredores do cotidiano.

É certo que no Brasil as estações já deixaram de ser bem delimitadas há tempos – nem eu pretendia que assim o fossem. Mas o meu inconsciente, ao sentir que em algum lugar próximo “supostamente deveria ser outono…”, anima-se em festa e cantarola uma melodia de celebração, até que maio decida entrar em cena.

Abril é período de comemorar o aniversário de pessoas muito queridas – tanto da família como do círculo de amigos. Torna-se impossível passar ileso em meio a tantos aniversários, reuniões, eventos e encontros… Isso sem falar da comilança, que também é presença certeira em cada uma das festividades em questão… A gente tenta amenizar o prejuízo da balança ao caminhar ou se exercitar mais (risos)…

Este mês também se faz agitado em termos de trabalho, afinal, o Carnaval já foi embora e não há mais desculpas para a preguiça… Março ainda deixa sinais de certo esmorecimento, mas abril chega dando seu recado: é hora de produzir!

É também o período de idealizar novos projetos pessoais, retomar metas abandonadas e colocar o movimento em prática. As pessoas parecem estar mais amenas, também, em meio aos dias que se seguem… Relações fluem com intensidade branda, promovendo certa espécie de escuta ao outro – tão rara em nossa rotina…

Enfim… Talvez esta seja só a minha visão utópica acerca de um mês que me é muito querido. E tudo bem se for apenas isso. Em certos momentos, uma perspectiva pessoal acaba por energizar com maior motivação e incentivo do que aquele panorama concreto – e, por vezes, tão cruel – que nos é trazido à tona pela vida lá fora, todos os dias…

Precisamos do sonho para nos distanciar um pouco do cinza que a realidade insiste em nos fazer ver. E, afinal de contas, a gente merece mesmo este gosto de devaneio, de passeio no parque, de pipoca doce no meio da tarde, de caderno novinho em folha, de nuvem colorida que faz brotar a inspiração…

Abril chegou feito poesia sem dono no quintal aqui de casa… Que os versos sejam daquele que tiver a coragem de (trans)bordar seus desejos mais íntimos.